
Capítulo 210
O Ponto de Vista do Vilão
Quando a noite caiu, e a escuridão dominou... Restou apenas a escuridão total.
Uma figura solitária...
Percorreu silenciosamente os becos e corredores escurecidos.
O assassino silencioso—
Ghost Umbra.
Olhos fechados...
Seguia um caminho específico. Tinha um trajeto sinuoso pelas vielas...
Contornava corredores ocultos até que, enfim...
Desceu até as lamas dos esgotos abaixo da capital de Belgrado.
Ghost finalmente chegou a um amplo espaço aberto.
Uma clareira coberta de flores brancas.
Ele observou a cena diante de si—
Então levantou o olhar.
Para os canos acima, pingando constantemente.
Para as paredes devastadas, em avançado estado de decomposição.
Uma visão que o fez questionar...
Como flores poderiam crescer—
Em um lugar tão desolado?
Passo a passo, Ghost caminhou em direção ao centro do jardim branco.
Depois de alguns passos—
Outros dois o seguiam silenciosamente.
Ghost não olhou para trás.
Simplesmente seguiu em frente...
Até parar diante de um homem vestido completamente de preto, que estava sozinho no centro do jardim.
O homem usava uma máscara preta em formato de caveira.
Os dois que estavam atrás dele vestiam o mesmo traje,
Embora suas máscaras tivessem desenhos diferentes.
Ghost sorriu amargamente—
Reconhecendo-os imediatamente.
"Não imaginei que enviassem Os Números… para alguém como eu."
Em resposta às suas palavras...
Os três removeram suas máscaras.
Cada um tinha feições distintas...
O homem bem na sua frente se parecia bastante com Ghost—
salvo por uma cicatriz longa atravessando seu rosto.
"Cerre os joelhos, Ghost Umbra."
O assassino silencioso obedeceu sem resistência...
Colocando-se de joelhos.
"Você aceita seu destino, então…"
"…"
Silêncio caiu sobre eles.
Olharam um para o outro.
Especialmente Ghost e o homem que estava diante dele.
"Tudo tem um preço nesta vida, Ghost Umbra.
Você sabe como as coisas funcionam.
Você conhece as regras que nunca devem ser quebradas."
"Algumas últimas palavras?"
Os dois homens atrás dele falaram em sequência.
A expressão de Ghost permaneceu inalterada.
"Meu… pai disse alguma coisa?"
Alguma palavra?
Alguma coisa, ao menos?
"Nós somos apenas ferramentas de matar.
Armas, forjadas perfeitamente para um propósito.
O Líder da Corte não é diferente."
"Ele permaneceu fiel a si mesmo até o fim, hein?"
O homem na frente de Ghost… Seu primo mais velho…
Foi o primeiro a sacar a espada—
Uma lâmina curta e mortal, preta como a noite.
Ghost sabia exatamente o que viria a seguir.
"Antes de morrer, queria saber…"
"Até onde os anciãos tinham chegado."
Ele perguntou…
Sem realmente esperar uma resposta.
Porém, inesperadamente—
Todos os três responderam sem hesitar.
"Sétima Corte."
"Sétima Corte."
Os homens atrás dele falaram juntos.
Apenas o homem da frente respondeu de forma diferente.
"Oitava Corte."
Eles usavam termos que só assassinos compreenderiam.
"Você?"
Ghost respondeu—
Com o rosto tão vazio de sempre.
"Décima Corte."
Essas palavras fracas…
Fizeram até esses assassinos experientes—
Reagirem visivelmente.
Impossível não se perturbarem.
Como não ficariam, ao perceberem que o jovem frágil ajoelhado diante deles—
Chegou ao próprio Corte final?
Depois de terem trilhado o mesmo caminho infernal…
Compreendiam-se sem precisar de mais palavras.
Havia apenas respeito—
E reconhecimento mútuo entre eles.
Até um olhar de hesitação era possível de se notar em seus olhos…
Um lampejo de dúvida...
Se matar esse talento era realmente a decisão certa.
Porque Ghost representava seu auge.
O ápice de sua luta.
Mas ordens…
Era ordem.
Os dois que estavam atrás puxaram suas lâminas.
Ghost baixou a cabeça.
Desde o começo, sabia—
Que fugir da Corte das Sombras era impossível.
Enfrentar Os Números de frente—uma tolice.
E assim...
Esperando pelo fim,
Ghost murmurou suavemente:
"Não tenho arrependimentos."
Ele treinou mais do que qualquer outro.
Sujou as mãos de sangue...
Suportou treinos brutais...
Viu outros morrerem enquanto sobrevivia…
Subiu cada vez mais alto… até atingir um nível que ninguém mais alcançava.
Mas…
Até ele tinha limites.
As expectativas colocadas sobre si—
Sempre foram altíssimas.
No final das contas…
Era filho de Mist Umbra.
Porém, como homem que percorreu as trevas, ele viu com clareza…
vio, com dor, os limites do seu potencial.
Aquele nível não satisfez o assassino silencioso.
Ele queria mais.
Quería um desfecho à altura de tudo o que suportou na vida.
Naquele momento, ele entendeu… que trevas não existiriam sem luz.
No final, havia arriscado tudo por suas crenças, lutando contra Snow Lionheart.
Se morresse agora, lutando pelo que acreditava…
isso simplesmente seria seu destino.
"Não tenho arrependimentos."
Ele chegou tão perto…
tão perto de descobrir a resposta…
Mas o que o aguardava ao final era a lâmina do carrasco.
Os assassinos ergueram suas espadas.
Seus reflexos brilhavam no rosto de Ghost.
E, sem aviso… as flores brancas ficaram vermelhas.
Sangue jorrou, manchando aquele lugar isolado.
Ghost encarou, com os olhos arregalados, enquanto duas cabeças rolavam ao seu lado.
Ainda incapaz de compreender o que tinha acontecido, embebido no sangue daqueles homens…
O líder falou, após exterminar seus companheiros:
"Ghost Umbra… O Tribunal das Sombras julgou suas ações. O veredicto é que sangue deve ser derramado."
O líder segurou sua espada e a levantou alto.
"Você perguntou alguma coisa sobre as palavras do seu pai.
Pois bem… ouça com atenção."
"O que você fez é uma dívida. Uma dívida que deve ser paga… e o preço é a vida humana."
O homem riu amargamente enquanto encarava sua lâmina.
"Mas não sua vida... Parece que sua alma é valiosíssima.
Em vez disso, três outras almas foram oferecidas para saldar a dívida."
"Q-Que?!
O assassino sombrio enfiou violentamente sua espada na própria garganta.
"Sua dívida foi quitada, Ghost Umbra."
Uma fonte de sangue escorreu pelo rosto de Ghost, tingindo-o de vermelho carmesim.
Três cadáveres agora jaziam ao seu redor.
Ghost ficou ali, em choque, por um momento.
Seus olhos fitavam o vazio.
Esperava a morte.
Mas tinha sido ingênuo.
"O que farei a partir de agora…
irá decidir se outros viverão ou morrerão?"
A mensagem de Mist Umbra fora cruel nesta vez...
Ao quebrar as regras do Tribunal das Sombras, as ações de Ghost condenaram outros a morrerem em seu lugar.
O assassino silencioso se levantou e limpou seu rosto.
Reuniu-se, como sempre fazia.
Com as mãos nuas, cavou, cavou.
Fez três covas, enterrou aqueles que um dia foram como irmãos para ele… homens que suportaram a mesma dor que ele.
Depois de cobri-los de terra, o assassino silencioso levantou-se mais uma vez e foi embora.
"Que encontrem paz…"
Lentamente, Ghost desapareceu de volta na escuridão.
…
…
…
Faltam dois dias para a batalha final.
Quando a noite caiu, todos os outros dormiam profundamente em suas camas, longe do caos do mundo.
Mas o jovem de olhos dourados e cabelo branco brilhante viajava longe em seus sonhos.
Snow Lionheart, evocando memórias de um passado há muito enterrado.
…
Nas periferias do Império.
Longe do ruído das grandes cidades—longe da turbulência da vida.
Em meio a uma planície verdejante, um lugar hermoso que elevava o coração…
Ali havia um orfanato.
Um grande orfanato com um cartaz que mostrava uma pomba branca ascendente ao céu…
um símbolo de esperança e liberdade.
Orfanato Yosefka.
Dentro das muralhas daquele orfanato, construído com pedra preta…
Um menino de olhos dourados, cabelo branco e pele pálida, frequentemente brincava.
Era uma criança excepcionalmente bonita…
uma visão que elevava o ânimo de todos que a viam.
Ele brincava com seus amigos o dia todo até que a exaustão os dominava e caíam no sono.
De tempos em tempos, ele se agarrava à saia da vice-diretora do orfanato, rindo junto de todos que o viam.
O próprio diretor visitava de vez em quando para verificar o bem-estar deles… um homem assustador, silencioso, com três cicatrizes vermelhas no rosto, e óculos de leitura dourados no nariz.
Vestido com roupas de um clérigo, parecia assustador às crianças…
mas era extremamente gentil com elas.
Por isso, todos o amavam também.
Com o passar do tempo, Snow foi tendo que se despedir de muitos amigos ao partir para outros lugares.
Sempre dizia "adeus".
Até que, um dia, foi avisado a não se aproximar de uma certa área dentro do orfanato.
"Snow... seja sempre um bom menino,"
costumava repetir a vice-diretora para ele.
"Não tenha curiosidade. Aproveite o que tem."
Satisfação é um tesouro que nunca se apaga…
Se ele tivesse entranhado essas palavras um pouco mais fundo em seu coração, talvez o que aconteceu pudesse ter sido evitado.
…
"O que você está fazendo aqui...?"
Sangue.
Tanto sangue.
Seus olhos dourados se arregalaram de horror, e ele lutou até para respirar.
O diretor permaneceu ali, sangue escorrendo continuamente de sua boca.
"Por que não obedeceu às ordens, meu menino?"
Na mesa…
Os restos desfigurados de um cadáver meio devorado.
O corpo de alguém com quem ele tinha brincado por anos.
"Oh, meu querido Snow..."
Uma mão ensanguentada ajeitou seu cabelo suavemente.
"Você não viu nada… não é mesmo?"
Aquele rosto…
ele nunca esqueceria.
"Você é um menino bom, afinal."
De repente, o menino foi puxado para longe.
Snow acordou, arfando por ar, seu corpo banhado em suor frio.
Agarrava o pingente de prata que pendia de seu corpo nu…
sua única joia.
Seu corpo impecável, molhado de suor...
suas mãos trêmulas...
Cicatrizes antigas não desaparecem facilmente.
E elas se tornaram sua maior força para seguir em frente.
…
…
…
–Ponto de vista de Frey Starlight–
Falta um dia.
Amanhã… tudo chegaria ao fim.
Levantei minha mão direita recentemente recolocada, testando alguns movimentos.
Minha mão respondeu, mas senti claramente—
Um pequeno retardo, mesmo que por frações de segundo, causado pelos nervos ainda em processo de cura.
Por isso, por ora, não podia confiar nela completamente.
Voltei a usar minha espada com a mão esquerda.
Sentado ao lado da minha cama,
avaliei meu estado físico, tudo o que preparei nos últimos dois anos…
Todas as minhas habilidades… aquelas que criei especialmente para este momento.
Por Snow.
Lembrei das palavras de Uriel—como ela dizia que seria impossível me recuperar totalmente antes da batalha.
Mesmo que parecesse bem agora, as lesões acumuladas deixaram marcas…
Diferente do meu oponente, que lutaria em plena forma.
Talvez a única arma letal restante ao meu alcance fosse a Ignição.
A técnica que superava todo o arsenal de Snow Lionheart.
Mas só poderia usá-la como último recurso.
Uma espada comum causaria uma aura bem menor do que Balerion...
Portanto, mesmo que consiga um golpe mortal, seria bem mais fraca do que tudo que já liberei na ilha. Os riscos eram enormes.
Se Snow sobrevivesse à explosão… eu perderia tudo.
Primeiro… espadas comuns não resistiriam à Ignição, quebrando-se em pedaços — o que significaria perder minha arma após disparar.
Segundo… meu corpo também seria destruído, pois forçaria meus canais de aura a operarem além de seus limites naturais.
Nem conseguiria lutar depois disso.
Os riscos de usar Ignição eram simplesmente demais.
Significava que não podia mais confiar completamente na minha arma mais poderosa.
Restaram então outras habilidades que refinei até agora.
Snow Lionheart…
Não podia enfrentá-lo como faço com os demais.
Só força de vontade não bastaria contra ele.
Não poderia simplesmente exaurí-lo igual fiz com Daemon…
Se tentasse, ele me destruiria imediatamente.
Minha mente tinha chegado a um beco sem saída.
Sabia que daria tudo de mim na batalha de amanhã—mesmo que isso significasse minha morte.
Porém, não importava o quanto pensasse…
não importava o quanto lutasse…
não conseguia enxergar uma esperança.
Todo caminho terminava em derrota.
E assim, para não perder a cabeça, passei a noite inteira encarando as orientações do sistema.
Na esperança de encontrar uma salvação...
Mas, antes que percebesse…
O último dia passou num piscar de olhos.
E agora, eu caminhava rumo a ele.
Em direção ao dia marcado.
"Hoje… vou escrever o fim desta jornada."