O Ponto de Vista do Vilão

Capítulo 71

O Ponto de Vista do Vilão

Enquanto a invasão ao templo se desenrolava e Kai Luc fazia sua jogada, um encontro fatídico estava acontecendo em outro lugar dentro do Templo…


Numa câmara isolada, longe de olhares curiosos, uma garota com cabelos dourados jazia imóvel numa cama semelhante à de um hospital.

Fios finos, parecidos com linhas, aderiam ao seu corpo, pulsando fracamente enquanto absorviam tênues vapores escuros que emanavam intermitentemente de sua pele. A única coisa que a cobria era uma leve camisola branca, mal protegendo-a do ar frio.

Minutos se passaram e, finalmente, o processo chegou ao fim. Os olhos de Sansa Valerion se abriram.

A essa altura, ela já havia se acostumado com o cheiro estéril dos instrumentos médicos e a atmosfera sufocante que a cercava.

— Você se saiu bem, Lady Sansa.

Uma voz quebrou o silêncio. Ao lado de sua cama estava uma mulher peculiar—seus cabelos grisalhos, estrutura esquelética e olheiras profundas lhe davam uma aparência fantasmagórica.

— Obrigada, Estrellda… Eu sempre a incomodo com isso.

Estrellda, como a mulher aparentemente se chamava, balançou a cabeça preguiçosamente antes de começar a desconectar os fios e instrumentos estranhos do corpo de Sansa.

— A extração de hoje foi maior do que o normal… Será que suas memórias estão finalmente retornando?

Sansa levantou uma mão à cabeça, os dedos traçando a curva de seu crânio como se estivesse procurando por uma resposta.

— Eu não sei…

Estrellda fez uma breve pausa antes de retomar seu trabalho.

— Eu esperava um sim ou um não.

— Hmm…

Sansa cerrou levemente os punhos, hesitando antes de falar.

— Ultimamente… tenho tido pesadelos.

— Pesadelos?

Ela assentiu.

— Pesadelos de quando fui sequestrada. Aquela cela fria e úmida… vendo pessoas perderem sua humanidade uma após a outra.

— Eu me lembro de tudo tão claramente. Mas, às vezes, fragmentos de outra coisa surgem, como imagens passageiras.

Estrellda ouvia atentamente, sem nunca interromper, absorvendo cada palavra.

Por alguma razão, Sansa parecia lutar com o que queria dizer a seguir.

— Eu me lembro de uma luz ofuscante toda vez que abria meus olhos. Sombras de figuras mascaradas de preto me cercando… enquanto eu estava deitada numa mesa.

Ela tentou se lembrar de mais, mas uma dor aguda a apunhalou no crânio, forçando-a a agarrar a cabeça com as duas mãos.

Estrellda colocou uma mão reconfortante em seu ombro.

— Chega por hoje. Não force… As memórias voltarão quando estiverem prontas.

Sansa expirou, assentindo lentamente.

Estrellda ofereceu um sorriso raro, embora em seu rosto cadavérico, parecesse mais perturbador do que reconfortante.

— Isso conclui a sessão de hoje. Você está livre para sair.

Finalmente, Sansa se levantou da cama. Após um banho rápido e uma troca de roupa, ela seguiu em direção à saída.

— Te vejo na próxima semana~

Estrellda mal reconheceu a despedida, acenando com a mão displicentemente, já absorta em pensamentos, analisando os resultados de hoje.

Entendendo isso, Sansa saiu silenciosamente.

No momento em que saiu, duas figuras se materializaram das sombras—um jovem de cabelos loiros e uma jovem de cabelos escuros, com uma leve cicatriz abaixo do olho esquerdo.

Ambos vestiam o uniforme do templo.

— Deto… Ely.

Os dois imediatamente se ajoelharam, mas Sansa fez um gesto para que se levantassem.

— Eu já disse antes, não há necessidade de me seguirem para todo lugar. Vocês podem voltar agora.

Os dois eram claramente mais velhos do que ela—estagiários do último ano, para ser preciso.

No entanto, apesar da diferença de idade de cinco anos, eles a tratavam com respeito inabalável.

— Desculpe, Lady Sansa, mas não podemos obedecer.

— É nosso dever protegê-la em todos os momentos dentro do templo.

Eles falaram em perfeita sincronia, deixando claro que discutir seria inútil.

Sansa suspirou, resignando-se à persistência deles.

— Tudo bem… Façam como quiserem. Estou voltando para o meu quarto.

— Como desejar.

Num instante, os dois desapareceram. Mas qualquer um com meio cérebro saberia que eles ainda estavam por perto, observando cada movimento dela.

Sansa caminhava distraidamente, perdida em pensamentos.

Suas sessões semanais permaneceram em segredo, conhecidas apenas por seu pai, Estrellda e o diretor do templo.

Essa tinha sido sua realidade desde que foi resgatada há quase um ano.

Por todo esse tempo, ela estava procurando por respostas.

O que realmente aconteceu com ela?

Por que ela perdeu suas memórias?

Qual era a natureza do poder que ela despertou depois?

Nenhum desses mistérios tinha uma resposta ainda.

Absorta em seus pensamentos, ela nem havia percebido que já estava em frente ao seu quarto.

— Oh…

Soltando um suspiro silencioso, ela estendeu a mão para a porta—

Mas, no momento em que estava prestes a entrar, seus olhos captaram algo incomum.

Um envelope.

Um único envelope branco estava no chão em frente à sua porta.

Ela hesitou por um momento antes de pegá-lo.

— Uma carta?

Embaixo dele, repousava uma estranha rosa negra, seu cheiro denso e desconhecido, carregando uma fragrância inebriante.

A curiosidade surgiu dentro dela. Ela estava prestes a abrir o envelope—

Mas uma voz por trás a deteve.

— Não faça isso, Princesa.

— Pode ser perigoso.

Como esperado, seus guarda-costas ainda estavam observando.

Ignorando-os, Sansa desdobrou a carta sem hesitação.

— Eu sou uma Controladora de Ondas, lembram? No mínimo, sei como julgar essas coisas.

No momento em que a abriu, uma fragrância peculiar pairou no ar.

Dentro, ela encontrou uma única folha de papel preta, suas palavras rabiscadas em tinta carmesim.


Querida Sansa,

Você não pode imaginar o quanto esperei por este dia. Posso dizer com absoluta certeza que vivi apenas para este momento.

Sempre acreditei que nossos caminhos se cruzariam algum dia e, agora, finalmente, a hora chegou.


Sansa leu as palavras com uma expressão vazia.

Até agora, parecia nada mais do que uma carta de amor anônima.

Mas, então, as próximas linhas enviaram um arrepio pela espinha.


Eu sou o único destinado a você. Você me completa e eu completo você. Eu tenho as respostas que você procura, então aceite isso como prova da minha sinceridade.

As memórias que você busca desesperadamente… As respostas que você anseia… E o poder que você possui…

Gostaria de poder te contar tudo agora, mas tais conversas nunca devem ser escritas no papel.

Vá sozinha para o lado oeste do templo. Abaixo do rio fica uma antiga instalação de treinamento, há muito abandonada.

Encontre-me lá e você terá suas respostas.

Eu te amo.


A carta terminou.

Sansa permaneceu imóvel, em silêncio.

Ela leu uma vez.

Depois duas vezes.

Depois mais três vezes.

Seus dedos se enrolaram num punho lento e deliberado.

— Lady Sansa… Não me diga que você está…

Um de seus guardas se manifestou, mas o olhar em seus olhos já havia revelado suas intenções.

— Você não pode ir, Princesa! Isso é perigoso!

Sansa balançou a cabeça lentamente.

— É obviamente uma armadilha. Eu sei disso.

— A pessoa que escreveu isso pode não saber de nada. Eles podem estar apenas tentando me atrair…

— Mas esta pode ser minha única chance de descobrir a verdade.

Seus guardas trocaram olhares inquietos antes de se virarem para ela.

— Não há necessidade de se preocupar. Embora eu não ignore esta carta, quem disse que eu iria sozinha?

O plano de Sansa era simples: o guarda sombrio masculino a acompanharia enquanto a feminina relatava a carta às autoridades do templo.

Sua lógica era direta—eles ainda estavam dentro dos limites do templo.

Ela acreditava que, o que quer que a esperasse, ela poderia lidar com isso.

Mas ela não tinha ideia do que estava prestes a se desenrolar no pátio do templo…

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