
Capítulo 86
O Cão Louco da Propriedade do Duque
Capítulo 86
"Hah! Eu, tramando traição depois de proteger esta cidade fronteiriça por gerações? Nem um vira-lata acreditaria nisso," Leandro vociferou indignado, encontrando Caron e Revelio no meio do caminho.
"Essa não parece ser a atitude de um homem que está aqui para esclarecer um mal-entendido, Marquês Leandro," Revelio observou.
Leandro mordeu o lábio, visivelmente frustrado. Ele disse: "...Vossa Alteza, eu não sei que histórias lhe contaram na cidade, mas eu lhe garanto, sou inocente. Tudo o que fiz em toda a minha vida foi defender as fronteiras do império, nada mais."
Revelio, aproveitando o momento, começou a pressionar Leandro. "Se você tem sido tão diligente em guardar as fronteiras, então por que Reben é tão corrupta? O comércio de escravos, que é proibido pelo império, tem prosperado ali. E, além disso, Marquês Leandro, você pessoalmente ordenou que seus homens capturassem não-humanos."
"Vossa Alteza, isso é—" Leandro tentou protestar, mas Revelio o interrompeu.
"Eu não quero ouvir desculpas. Já obtive depoimentos de seu próprio povo, e encontramos registros de pagamentos de comércio de escravos em sua mansão," Revelio disse, adicionando um toque de verdade à sua mentira. Ele acrescentou: "Além disso, seus homens também testemunharam evidências de suas atividades traiçoeiras. Você ainda pretende negar seus crimes?"
O interrogatório implacável de Revelio não deixou dúvidas a Leandro de que o Sexto Príncipe estava em conluio com Caron. O apoio político por trás do Sexto Príncipe não era outro senão a Casa Leston. Tudo fazia sentido para Leandro. Essa era uma conspiração orquestrada pelo Ducado Leston para derrubar o Duque Salmon, seu patrono. Desde o momento em que Caron entrou em Reben, todo esse esquema foi posto em movimento.
Um truque sujo da Casa Leston! Eu tenho que aguentar... Leandro pensou amargamente.
Ele não queria nada mais do que punir esses dois jovens arrivistas que haviam causado problemas em sua cidade. Mas retaliar aqui só jogaria a favor deles. As evidências contra ele eram provavelmente fabricadas, mas por enquanto, ele não tinha escolha a não ser cooperar. Sua única esperança estava em ir para a capital e limpar seu nome lá.
Clang.
Leandro tomou sua decisão. Ele desabotoou sua espada, ainda embainhada, e a colocou no chão. Então, ajoelhado, ele curvou a cabeça e gritou: "Alguém está me incriminando com mentiras vis! Eu, Marquês Leandro, irei para a capital e provarei minha inocência. Por favor, Vossa Alteza, compreenda minha sinceridade!"
Era humilhante, mas a escolha mais prudente e politicamente conveniente. Contanto que ele chegasse à capital, ele poderia refutar a acusação infundada de traição. Afinal, eles não tinham nenhuma evidência real de tal crime. Ele nunca sequer considerou traição.
Uma vez que eu chegue à capital... Eu terei que admitir o tráfico de escravos, no entanto, Leandro pensou sombriamente. Sua principal fonte de riqueza secaria, mas esse seria o limite dos danos. Ele poderia escapar da acusação ridícula de traição e planejar sua vingança assim que seu nome fosse limpo.
"Hmph," Caron zombou, observando Leandro se render tão prontamente.
Para alguém que parecia um urso intimidador, Leandro estava agindo mais como uma raposa astuta. Caron esperava que Leandro perdesse a cabeça quando provocado, mas em vez disso, essa raposa imediatamente procurou uma maneira de se salvar. Para alguém que comandava um exército muito mais forte, uma rendição tão rápida era quase decepcionante.
"Isso não tem graça," Caron murmurou, agachando-se ligeiramente para encontrar o olhar de Leandro. Então, com um sorriso brilhante, ele perguntou: "Você está falando sério que não vai lutar?"
Leandro fez uma careta com a zombaria, seu rosto se contorcendo de raiva. Ele zombou. "Você acha que eu cairia tão facilmente nos esquemas da Casa Leston?"
"Tsc. Falando como se soubesse de alguma coisa," Caron respondeu com desdém. "Por que nós nos daríamos ao trabalho de tramar contra você?"
"...Vocês estão apenas procurando uma razão para atacar o Duque Salmon—" Leandro murmurou, mas Caron o interrompeu.
"Por que nossa casa precisaria fabricar uma razão para derrubar alguém como o Duque Salmon? Acho que você entendeu algo errado. Isso não é sobre nossa casa. Isso é pessoal," Caron disse, seu sorriso se alargando.
"Se render... Essa é uma decisão inteligente," ele continuou. "Você acredita que, uma vez que chegue à capital, provará sua inocência, certo?"
"Eu era inocente desde o início, Caron Leston," Leandro declarou firmemente.
"Claro que eu sei disso," Caron disse suavemente. "Mas sabe de uma coisa? A culpa às vezes pode ser criada."
"Do que você está falando?" Leandro perguntou, um arrepio subindo por sua espinha.
"É o mesmo com aqueles escravos que você vendeu. No momento em que seus donos disseram: 'Você é culpado', era isso. Eles se tornaram criminosos. É apenas o destino dos escravos, não é?" A voz de Caron gotejava diversão.
Um suor frio irrompeu pelo corpo de Leandro. As palavras desse lunático eram perturbadoras e, de repente, Leandro sentiu como se tivesse perdido algo crucial. Ele se perguntou por que Caron estava rindo assim, como se já tivesse vencido.
Mas Leandro rapidamente se acalmou. Não havia nada que Caron pudesse fazer agora. Com tantas testemunhas ao redor, certamente este último não ousaria machucá-lo depois de se render.
"Se eu sou culpado ou não, será decidido no tribunal da capital," Leandro disse com confiança.
Caron se inclinou perto do ouvido de Leandro, sua voz mal mais alta que um sussurro. "Eu aposto minha vida que você nunca chegará à capital."
"O que você possivelmente pode—" Leandro começou.
"Observe com atenção," Caron interrompeu, sua voz ameaçadora.
Whoosh.
Uma flecha cortou o ar vindo da direção dos soldados de Leandro.
Thud.
"Urgh!" Um suspiro de dor escapou da boca de Revelio quando a flecha se cravou em seu ombro, fazendo-o cair no chão.
Caron correu para o lado dele, gritando em um tom de pânico: "Revelio! Revelio!"
Ele se ajoelhou enquanto embalava Revelio, olhando furiosamente para Leandro. Enquanto Leandro estava paralisado, sua mente ficou em branco. Um príncipe havia sido baleado. E pior, havia sido um de seus próprios soldados que disparou a flecha. A flecha já havia deixado seu arco; o dano estava feito.
"Não... não! Eu não dei essa ordem, eu juro..." Leandro gaguejou, tropeçando em suas próprias palavras enquanto tentava processar o que tinha acabado de acontecer. Seus olhos caíram sobre Caron; apesar do caos, este último estava com a cabeça ligeiramente abaixada com um sorriso fraco e perturbador.
Algo também estava errado com o Príncipe Revelio. Apesar de ter sido atingido pela flecha, não havia sangue. E essa não era a única coisa estranha. Atrás deles estava Sir Mason Paul, o guarda pessoal do príncipe, um cavaleiro de 8 estrelas. Dadas suas habilidades, não havia como uma flecha comum tê-lo ultrapassado daquela distância.
De jeito nenhum, será que foi... Leandro pensou, suas suspeitas se transformando em uma terrível percepção.
A frase 'autoincriminação' de repente surgiu na mente de Leandro, mas antes que ele pudesse sequer expressar seus pensamentos, Caron gritou: "O traidor mostrou suas verdadeiras cores! Traição! Leandro, o Marquês da Fronteira, tentou assassinar o Príncipe Revelio!"
Era tarde demais quando Leandro percebeu que tudo havia sido uma armadilha. Ele havia sido puxado para um buraco do qual não havia escapatória fácil. Ele não sabia se sequer conseguiria explicar as coisas. Ele se perguntou como ele poderia possivelmente explicar o que havia acontecido naquele momento, quando o príncipe estava no chão com uma flecha cravada em seu ombro.
Não... De jeito nenhum, Leandro pensou. Isso o deixou com apenas uma opção.
"Todas as tropas, preparem-se para a batalha!" ele ordenou.
A única coisa que ele podia fazer era ganhar tempo para escapar deste lugar. Leandro montou em seu cavalo em um movimento rápido e o esporeou em um galope. Enquanto cavalgava em direção aos seus homens, ele gritou: "Se vocês querem sobreviver, peguem suas armas! Eles pretendem nos rotular como traidores e nos matar!"
No calor do momento, Leandro não percebeu que Caron e Sir Mason o haviam deixado escapar intencionalmente. Sua mente estava inteiramente focada na sobrevivência.
"Olha ele fugindo," Caron disse com um aceno satisfeito enquanto observava Leandro fugir em desespero.
"Você é um grande ator," ele disse a Revelio, cujos olhos ainda estavam bem fechados por causa do suposto ferimento.
"E agora eu adicionei encenar autoincriminação ao meu currículo criminal," Revelio acrescentou com um suspiro.
"Combina com você," Caron respondeu, sorrindo. "Combina com o segundo em comando do sindicato do crime Caligo."
A flecha, é claro, havia sido uma ilusão criada por Revelio. Mas a situação era tão terrível e caótica que a ilusão efetivamente influenciou a realidade. O plano deles havia funcionado perfeitamente. Incriminar Leandro por uma tentativa de assassinato sempre tinha sido parte do esquema deles.
Caron tirou a poeira das mãos e se levantou, então disse: "Eu vou indo. Descanse um pouco."
"Você vai sozinho?" Revelio perguntou.
"Ir sozinho é mais do que suficiente," Caron respondeu, seu sorriso se alargando. "Com que frequência você tem a chance de enfrentar duas mil pessoas sozinho?"
"Você é insano," Revelio murmurou.
Caron nunca se sentiu melhor, vendo aquela escória que estava vendendo escravos fugir em desgraça como um traidor marcado. Parecia que um peso que estava pressionando seu peito por cem anos finalmente havia se levantado.
O grand finale dessa elaborada farsa estava se aproximando.
"Deve haver um ótimo final para uma ótima peça," Caron disse, desembainhando sua espada, Guilhotina. Sem hesitação, ele avançou, pronto para terminar o que havia começado.
***
"Parem ele! Bloqueiem ele com suas vidas, se for preciso!" Leandro gritou no auge de seus pulmões, veias saltando em seu pescoço enquanto ele observava Caron avançando em sua direção. Parecia a ele que Caron não valorizava sua própria vida.
Havia dois mil soldados. Dois mil soldados bem treinados, de elite. Esses homens foram suficientes para repelir até mesmo os exércitos do Reino de Zion com pura força de vontade. No entanto, aqui estava um cavaleiro solitário, se jogando contra eles como uma mariposa na chama.
O plano original de Leandro era simples. Ele ia escapar antes que Caron e o Príncipe Revelio pudessem reunir as forças da cidade. Leandro pensou que reunir tal exército levaria tempo, e era por isso que ele havia contado com isso. Mas Caron, esse louco, havia desafiado toda a lógica. Ele não estava esperando por reforços; ele estava avançando no meio de dois mil soldados sozinho.
Boom!
Uma bola de fogo lançada por um dos magos do exército, conjurada a contragosto, foi cortada ao meio pela espada de Caron.
"Ele é apenas um homem! Mesmo que ele seja um cavaleiro, se dermos nossas vidas, podemos pará-lo!" Leandro gritou.
Um contra dois mil. Era uma lacuna que nenhum herói jamais poderia superar. Eles eram soldados que haviam treinado implacavelmente e se preparado para enfrentar qualquer inimigo, não importa quão forte. E, no entanto, esses mesmos soldados agora recuavam, seus rostos pálidos enquanto tropeçavam para trás para se retirar de Caron.
Até mesmo os comandantes, que deveriam estar reunindo seus homens, estavam congelados; seus olhos estavam cheios de desamparo enquanto olhavam para Leandro. Eles também entendiam. Não havia glória a ser obtida nesta batalha. Mesmo que conseguissem matar Caron, a única recompensa que os aguardava era o título de traidor. Eles seriam lembrados não como heróis, mas como rebeldes que participaram da traição.
"...Estamos mortos," alguém murmurou enquanto eles recuavam.
A formação começou a desmoronar, a cadeia de comando estilhaçada. Em meio a essa confusão, Guilhotina irradiava uma sede de sangue arrepiante. Os soldados no caminho de Caron instintivamente se afastaram, se separando como ondas diante dele. O exército se dividiu em dois, abrindo um caminho diretamente para Leandro.
Sem um segundo de hesitação, Caron correu pelo caminho recém-formado, não mostrando nenhum traço de medo. Leandro, observando horrorizado, gritou: "Vocês escória inútil!"
O medo do desconhecido agarrou todos os humanos, e para os soldados, Caron se tornou a personificação desse desconhecido. Nenhum deles ousou levantar uma arma contra ele. Toda vez que pensavam em atacar, a imagem de suas cabeças voando de seus corpos piscava diante de seus olhos.
"Cavaleiros de Reben! Se eu for capturado como um traidor, vocês todos serão marcados como traidores também!" Leandro gritou desesperadamente.
Os cavaleiros de Reben se agitaram inquietos, suas expressões endurecendo. Eles sabiam que Leandro não estava errado. Ao contrário dos soldados, os cavaleiros nunca tiveram uma escolha. Desde o início, seu destino estava ligado ao seu senhor. O dever de um cavaleiro era ficar e lutar ao lado de seu comandante até o amargo fim.
Posicionando os cavaleiros na frente dele, Leandro sacou sua espada da bainha. Havia apenas doze cavaleiros aqui. Eles dificilmente eram suficientes para lidar com a situação. Se toda a Ordem dos Cavaleiros de Reben estivesse presente, talvez eles tivessem uma chance de subjugar Caron, mas agora, eles tinham pouca escolha.
Leandro podia sentir que Caron havia ultrapassado 6 estrelas. Em uma idade tão jovem, o homem já havia alcançado o poder de um cavaleiro de 6 estrelas. Talvez, em um futuro próximo, Caron estaria entre os mais fortes da terra. Mas nada disso importava para Leandro agora. Sua única preocupação era encontrar uma maneira de sobreviver.
"...Sobrecarreguem seus núcleos de mana. Devemos usar tudo o que temos," Leandro ordenou, sua voz tensa de urgência.
Sem hesitação, os cavaleiros levaram seus núcleos ao limite, sobrecarregando sua mana. Eles sabiam tão bem quanto seu comandante que, se não conseguissem parar Caron, todos estariam mortos de qualquer maneira.
"Matem ele, e escaparemos do império. Devemos sobreviver até que o Duque Salmon possa limpar nossos nomes!" Leandro gritou.
A mana dos cavaleiros surgiu violentamente, girando ao redor deles como uma tempestade. Caron havia fechado a distância e agora estava a poucos passos de distância; os cavaleiros se prepararam para o choque que se aproximava.
Mas de repente, Caron parou em seus rastros. Ele olhou diretamente para Leandro com um sorriso e perguntou: "Você vai jogar seus homens em mim como um sacrifício e fugir? Desculpe, mas não vai acontecer desse jeito."
Thud!
Com toda a sua força, Caron cravou Guilhotina profundamente no chão. Energia sombria e sinistra se espalhou da lâmina, transformando a terra abaixo dela em um tom sinistro de azul-acinzentado.
Momentos depois—
Boom!
O chão corrompido irrompeu com violentas explosões de mana, girando para cima como redemoinhos mortais. Era a Arte da Espada Lobo do Oceano Forma 6: Maelstrom.
"Leandro, Marquês da Fronteira," Caron disse friamente. "Você morre aqui como um traidor."
O palco final para este traidor estava montado.