O Cão Louco da Propriedade do Duque

Capítulo 100

O Cão Louco da Propriedade do Duque

A visão de Caron se preencheu com um tom vermelho-sangue profundo. Até respirar era uma luta, e ele podia sentir o gosto de sangue subindo pela garganta.

— Caron! — A voz de Leo ecoou em seus ouvidos.

Caron conseguiu esboçar um sorriso fraco, olhando para baixo para examinar a lança que o empalava. Ela o havia perfurado por completo, das costas ao peito. Apenas um pouco mais para baixo, e teria atravessado seu coração.

Essa foi por pouco, pensou Caron. Se ele não tivesse torcido o corpo no último segundo, teria sido fatal. O fato de que o foco do Rei Demônio havia sido interrompido foi seu único golpe de sorte. E essa interrupção foi criada por ninguém menos que seus camaradas.

— ...Idiotas malucos — Caron murmurou, sorrindo para seus companheiros, que haviam cravado suas armas no corpo do Rei Demônio.

Mesmo que essa criatura fosse apenas um fragmento do Rei Demônio, ainda era uma força mortal, capaz de reduzir qualquer um deles a uma mera mancha de sangue a qualquer momento. O medo teria sido natural, mas eles seguravam suas armas com um aperto de ferro, seus rostos contorcidos em desafio. Mesmo transbordando de raiva, eles mantinham um olhar atento em Caron, cuidando dele. A cena o atingiu como estranhamente engraçada.

Corte!

Caron brandiu Guilhotina, cortando o braço do Rei Demônio. Quando o braço decepado caiu no chão, Caron também desabou, pensando: Acho que não posso mais usar meu braço esquerdo.

Ele havia escapado da morte, mas seu ombro esquerdo estava destruído e a lança estava alojada profundamente dentro dele. A lança precisava ser removida e a ferida tinha que ser tratada, mas com sua condição atual, puxá-la provavelmente levaria à inconsciência por perda de sangue. Caron agarrou Guilhotina com força, expirando bruscamente antes de mostrar os dentes em um sorriso sombrio.

— Essa doeu de verdade — ele rosnou.

— Isso é irritante.

O Rei Demônio zombou enquanto seu corpo empalado se dissolvia em uma névoa violeta.

Um momento depois, ele reapareceu a cerca de trinta passos de distância. Embora os ferimentos que os companheiros de Caron haviam infligido desaparecessem rapidamente, o corte deixado por Guilhotina permaneceu. Na placa peitoral da armadura púrpura, bem onde o coração de um humano estaria, havia agora uma cavidade aberta e vazia. Uma corrente constante de fumaça escapava da ferida no peito do Rei Demônio.

— Você deveria ter aparecido pessoalmente como seu eu completo. Porque você veio aqui como um mero fragmento, veja o estado em que você está agora — Caron zombou, cambaleando enquanto se juntava a seus companheiros. Talvez fosse porque ele havia perdido muito sangue, mas cada respiração era mais difícil que a anterior.

Enquanto isso, o Rei Demônio mal parecia afetado. Mesmo com o corte de Guilhotina, sua força monstruosa permaneceu intacta.

Shhhhh.

Uma espada maciça e escura emergiu da mão do Rei Demônio. Era a mesma espada que havia dividido a fortaleza ao meio com um único golpe. Ele agarrou o cabo da arma, e uma onda esmagadora de mana negra se acumulou na lâmina.

Crunch!

A mana negra ao redor da espada distorceu o próprio ar com um poder arrepiante. Com uma facilidade aterradora, o Rei Demônio levantou a arma.

Boom!

Um rugido ensurdecedor rasgou o ar, a força da lâmina fendendo a atmosfera. Justamente quando estava prestes a varrer o grupo de Caron, no entanto...

— Mero fragmento, como ousa brandir tal poder! — Finalmente libertado de suas restrições, Ifrit interceptou o golpe.

Chamas irromperam ao redor de Ifrit, queimando em branco. Na forma de um pássaro gigante, ele agarrou a aura da lâmina em suas garras. Agora totalmente liberado, o Rei dos Espíritos desencadeou sua ira, chamas puras chocando-se com a aura escura e rasgando o chão.

Naquele momento, Orion se juntou a Caron e formou uma barreira protetora ao redor deles. Ele perguntou: — Você está bem, Caron Leston?

— Eu mal consegui. Você tem algum feitiço mágico para aliviar a dor? — Caron respondeu.

Vendo o suor frio no rosto de Caron, Orion assentiu e invocou um espírito. Era um espírito da água de nível médio que se assemelhava a um tigre azul. Água fresca e cintilante fluía do corpo do espírito, espalhando-se sobre as feridas de Caron e aliviando sua dor.

— Você precisa de tratamento de verdade; essas não são feridas que mero alívio da dor resolverá — disse Orion.

— Bem, eu não posso exatamente receber tratamento agora — Caron respondeu. Ele quase havia perdido a consciência pelas ondas intermináveis de dor. Agora, porém, com a agonia diminuindo, ele finalmente pôde recuperar o fôlego.

Boom!

Caron observou as chamas de Ifrit colidirem com a aura da espada do Rei Demônio no ar, e uma carranca apertou seu rosto. Enquanto Ifrit se mantinha firme contra o Rei Demônio, ainda era decepcionante para um rei espiritual estar apenas igualmente parelho.

— Se estivéssemos na Grande Floresta, este fragmento dele nem sequer tocaria em Ifrit — Orion murmurou baixinho.

— Você está aguentando bem? — Caron perguntou em voz baixa.

De todos, os elfos haviam sofrido as maiores perdas nesta batalha. Ainda possuídos pela aura sanguinária, eles caíram um após o outro. Caron sabia que Orion não podia ignorar isso, não importa o quão composto ele parecesse. Qualquer comandante ficaria abalado com a visão de seu próprio povo morrendo assim.

No entanto, Orion cerrou os punhos e respondeu: — Sem o sacrifício deles, seriam nossos parentes na floresta encontrando suas mortes em vez disso. Caron Leston, não tenha pena de sua passagem honrosa. O sangue deles guarda nosso futuro.

— Eu não estou tendo pena deles. Estou prestando meus respeitos — Caron respondeu, assentindo com um sorriso irônico.

Para os elfos, esta era uma batalha por seu próprio futuro. Ver seu sacrifício como lamentável apenas os desonraria.

Boom!

Mais uma vez, o fogo e a aura da espada colidiram, enviando uma enorme onda de choque através do campo de batalha.

— Ifrit, o tempo desgastou até você?

— Melhor isso do que ser tão patético quanto você nessa forma, — Ifrit cuspiu, segurando o olhar do Rei Demônio.

Observando a cena, Caron respirou fundo. Seu corpo parecia insuportavelmente pesado por causa da ferida da lança em seu ombro, mas ele conseguiria. Se isso significasse cravar sua lâmina naquela criatura miserável mais uma vez, ele carregaria qualquer peso.

— Fiquem todos aqui — Caron instruiu.

Leon imediatamente olhou para ele alarmado, então perguntou apressadamente: — ...O que você está planejando fazer?

— A coisa que eu faço de melhor — Caron respondeu.

— E isso é...? — Leon perguntou hesitantemente.

— Eu estou louco para pegar a cabeça daquele bastardo. Então não tente me impedir — disse Caron.

Quando os outros ouviram o que Caron disse, eles começaram a rir um por um, então assentiram em concordância.

— Esse é o espírito, Caron Leston! Eu estou com você! — Utula o animou.

— O que um homem espetado como você está planejando fazer? Eu vou liderar; apenas acompanhe — disse Leon preocupado.

— Aye, ter você como meu primo mais novo é meu castigo, parece... — Leo murmurou.

Cada um dos companheiros de Caron estava tão machucado quanto ele. Suas armaduras estavam encharcadas de sangue, e todos os três carregavam feridas profundas o suficiente para expor o osso, mas eles ficaram firmemente na frente de Caron como se nada pudesse ser mais natural.

— Nós vamos abrir um caminho! — Utula gritou, liderando o caminho enquanto o grupo atacava com suas armas erguidas.

Cada um deles já deveria estar inconsciente, e ainda assim eles balançavam suas armas de bom grado, bloqueando os ataques monstruosos do Rei Demônio.

Boom!

E desta vez, as chamas de Ifrit os acompanharam, desencadeando um incêndio inextinguível que engolfou as armas do Rei Demônio.

Caron caminhou firmemente para frente no caminho que seus companheiros haviam aberto para ele. Ele não podia correr. Suas pernas certamente cederiam se ele tentasse. Passo a passo, lenta mas seguramente, ele se aproximou do Rei Demônio.

Justamente quando o fragmento começou a virar a cabeça em direção a ele—

Boom—!

— Seja esmagado, — disse Ifrit enquanto suas garras colidiam com a enorme lâmina do Rei Demônio, forçando o fragmento a se concentrar inteiramente no rei espiritual. Isso criou a abertura que Caron precisava.

— Utula — Caron chamou.

— Fale, Caron Leston — Utula respondeu sem hesitação.

— Me jogue naquele bastardo — Caron ordenou.

Sem questionar, Utula assentiu e levantou Caron. Os músculos do gigante, marcados e cansados, ondularam enquanto ele se preparava.

Whoosh!

Com toda a sua força, Utula arremessou Caron pelo ar como uma flecha. Caron fixou seu olhar no Rei Demônio, agarrou Guilhotina e se firmou no meio do voo.

Corte!

Caron passou voando pelo Rei Demônio e a lâmina azul-escura de sua espada cortou o pescoço do fragmento. Sua missão cumprida, Caron caiu dolorosamente no chão, rolando sem parar até finalmente parar.

— Urgh... — Caron gemeu enquanto a lança encravada em seu ombro se torcia ainda mais em sua carne, uma nova onda de dor o atravessando. Ele não conseguia se levantar, então ficou no chão, olhando desafiadoramente para o Rei Demônio.

O Rei Demônio se virou para encará-lo também. Talvez fosse imaginação de Caron, mas ele pensou que havia um traço de fúria no olhar impassível de costume do Rei Demônio.

— ...Um escravo humilde, agarrando-se até o fim. Eu deveria ter destruído aquela Guilhotina amaldiçoada há muito tempo.

Uma tênue linha de luz azul-escura apareceu no pescoço do Rei Demônio onde Caron havia golpeado.

— Aqui, você morrerá.

Enquanto o Rei Demônio erguia sua lâmina para atacar, a voz de Ifrit ecoou com desprezo. — Que divertido, Rei Demônio. Você está realmente com medo de um humano?

Sizzle!

Ifrit se lançou sobre o Rei Demônio, esmagando o fragmento sob seu poder flamejante. Uma vasta explosão irrompeu, enviando uma enorme nuvem de cogumelo para o céu.

Boom!


Caron abriu lentamente os olhos. Ele havia se preparado para que seu corpo fosse dilacerado pela enorme explosão, e ainda assim nada havia acontecido. Parecia que Ifrit havia intencionalmente restringido o raio da explosão.

— Você é realmente difícil de matar, — Guilhotina brincou, olhando para Caron.

— É, parece que sim, — Caron respondeu com uma risada fraca. Ele então mergulhou Guilhotina no chão, usando-a como uma bengala para se levantar lentamente. Apenas a cratera profunda diante dele dava qualquer indicação da magnitude da explosão recente. Caron se aproximou, olhando para dentro do buraco.

Nada restou. Não havia vestígios do massacre, nenhum sinal de Ifrit. Apenas um poço profundo e escuro.

— Ifrit foi desinvocado à força como o preço por desencadear seu poder imprudentemente, — disse Orion enquanto se aproximava silenciosamente por trás, estabilizando Caron.

— Isso significa que... ele se autodestruiu? — Caron perguntou.

— ...Algo assim. Provavelmente não seremos capazes de invocá-lo por um tempo. Dadas as circunstâncias, ele teve que extrair mana do próprio reino espiritual, — Orion respondeu.

— Parece que eu devo uma grande a ele, — Caron murmurou.

No entanto, Orion balançou a cabeça firmemente e respondeu: — Não, nós é que devemos a você.

— Os elfos sempre parecem estar em dívida comigo. Eu cobro juros bem altos, sabe. É melhor você estar preparado para isso, — Caron gracejou.

— Eu estarei preparado, — Orion respondeu.

Enquanto Orion apoiava Caron, o resto do grupo tropeçou até eles. Caron os cumprimentou com um sorriso largo.

— Que caras são essas? Vocês todos parecem mendigos. Nesse ritmo, se fôssemos para a capital, poderíamos ganhar dinheiro como artistas de rua, — disse Caron.

Leo levantou o dedo do meio e retrucou: — Você ainda tem a audácia de dizer isso? Você se olhou?

— Ei, isso importa? Nós estamos vivos, — disse Caron.

Cada um deles parecia precisar de atenção médica significativa. Na verdade, encontrar um ponto que não estivesse ferido seria um desafio maior.

— Acabou, Caron? — Leon perguntou.

Caron balançou a cabeça lentamente e respondeu: — Não, ainda não.

Ele virou o olhar para cima. O fragmento de Carnificina que havia descido sobre o chão parecia ter desaparecido, mas no céu, um olho violeta ainda pairava. E esse olhar continuava a derramar sede de sangue implacável sobre o campo de batalha. A loucura entre os elfos não havia parado.

O poder da carnificina ainda dominava a área. Até que aquele olho fosse destruído, a loucura não terminaria. Se Ifrit ainda estivesse aqui, se livrar do olho não teria sido muito difícil; mas Caron não se sentiu desanimado. Embora eles tivessem perdido Ifrit, ele ainda tinha mais uma carta para jogar.

— Caron. Olha... Ali... — Leon apontou além da fortaleza para uma colina, onde cavaleiros banhados em luz branca radiante estavam.

Caron olhou para eles, então sorriu levemente. Eles eram fanáticos do Reino Sagrado. Normalmente, ele teria evitado esses lunáticos, mas agora, ele não poderia estar mais feliz em vê-los.

— Ha, aqueles bastardos. Eles demoraram para chegar aqui, — Caron comentou.

Um momento depois, os cavaleiros sagrados começaram a brilhar intensamente enquanto cantavam várias linhas.

— Pela Luz!

— Expulsem o mal desta terra!

— Esta é uma guerra santa!

Os cavaleiros do Reino Sagrado avançaram em direção à fortaleza.

Comentários