Família Moderna: Nova Vida

Capítulo 129

Família Moderna: Nova Vida

A primeira sala estava pronta. Embora não totalmente...

Nesse momento, Cam aproximou-se de Claire segurando um copo em formato de caveira cheio de suco e disse em tom trágico: "Claire… Eu não sei se estou com disposição para fazer isso."

Claire estreitou os olhos e respondeu com a paciência de quem já sabia exatamente aonde aquilo ia dar: "E por que não, Cam? O que aconteceu de tão terrível que você não consegue nem dizer... mas não para de falar sobre isso?"

Cam suspirou dramaticamente, encarando o líquido avermelhado que rodopiava em seu copo: "Eu não consigo. Isso me faz chorar."

— Perfeito — disse Claire secamente, virando-se. — Fica para outro dia, então.

Mas aquela era a deixa de Cam: "Eu tinha dez anos."

Todos, absolutamente todos, foram obrigados a escutar, por "respeito" ao grande trauma de Cam.

"Eu estava em uma varanda, vestido de Quasímod [1]", começou Cam com um toque de nostalgia. "Do lado do meu melhor amigo, Timmy Reglar. Ele era um Caça-Fantasmas [2]. Nós íamos de porta em porta. E, em uma casa, havia um balde de doces com uma placa que dizia: 'Pegue um'."

Claire assentiu devagar, sem muita empolgação; as crianças podiam chegar a qualquer momento, mas ela não tinha escolha.

"Um..." Claire ecoou baixinho, como uma frequentadora de igreja resignada na missa.

"Mas o Timmy..." continuou Cam, com a voz levemente trêmula, "o Timmy despejou o balde inteiro na bolsa dele. O Timmy não seguia regras. Eu admirava isso nele... e me aterrorizava."

"Um garoto que não seguia regras, igualzinho a mim na adolescência", murmurou Phil.

Cam não o ouviu. Ou fingiu que não: "Mas aí..." prosseguiu com intensidade, "a bolsa rasgou. Justo quando um grupo de crianças virou a esquina. E os doces se espalharam por todo o chão. E, sem hesitar, o Timmy gritou: 'Foi o Cam!'"

Um silêncio sagrado instalou-se. Como se todos estivessem esperando o clímax de uma tragédia de Shakespeare.

Mas bem nessa hora... a campainha tocou, e vozes agudas cantaram na varanda:

"Gostosuras ou travessuras!"

Claire bateu palmas duas vezes com autoridade: "A todo vapor, pessoal! Primeiras vítimas chegando! Não é um treinamento!"

Cam bufou frustrado: "É assim que minha história termina?!"

"Sim. Por enquanto. Cabeça na bandeja, Quasímod!" ordenou Claire.

Phil ficou empertigado, Claire agarrou sua prancheta de adereços, Haley assumiu seu lugar ao lado da mesa, e Gloria levantou-se com a cesta de doces bem no alto.

Jay permaneceu em seu papel de Gárgula, com o controle remoto dos efeitos especiais. Manny e Luke esconderam-se, prontos para pular e assustar as crianças que entrariam após a introdução dramática de Claire.

Cam entrou lentamente na posição, ajeitando a cabeça embaixo da bandeja prateada, ainda resmungando baixinho: "…foi o Cam… foi o Cam…"

— Shiu! — Haley o repreendeu com uma careta, batendo a bandeja com um baque seco: — Você está morto. E gente morta não fala.

Phil, com um microfone auricular e uma lanterna apontada para o próprio rosto, sussurrou em um tom assustador: "Entrem... se tiverem coragem..."

A porta da frente abriu-se sozinha, graças a um cordão puxado discretamente por Claire, deixando duas crianças entrarem.

Uma garotinha com asas rosas e uma varinha mágica, e um garoto usando uma máscara de abóbora. Eles pareciam ter por volta de sete anos, com os olhos arregalados e a boca meio aberta, divididos entre a empolgação e o medo.

A casa dos Dunphy tinha uma forte reputação no Halloween. E, paraquelas duas crianças, era a primeira vez visitando o local. Se conseguissem pegar alguns doces, seria uma grande conquista para se gabar com os amigos.

Claire os viu e murmurou: "Pai."

"Hã? O quê? Ah! Minha vez!" disse Jay, despertando de sua imobilidade. Ele se inclinou sobre o controle remoto com cenho franzido: "Vejamos, como era mesmo?"

Phil continuou seu monólogo sem perder o ritmo: "Obrigado por se juntarem a nós esta noite... no asilo..."

"Não, não, não!" Claire cortou, acenando com a mão. "Trovão e relâmpago primeiro! Pai!"

"Sim, sim, eu entendi!" respondeu Jay, apertando um botão.

Do fundo da sala veio um sopro mambembe de fumaça. Como se alguém tivesse fervido água em uma chaleira.

Claire fechou os olhos, frustrada, rangendo os dentes: "Ótimo..."

Phil continuou de qualquer jeito, como todo bom anfitrião: "Esta é a sala de espera. Aqui vocês vão conhecer alguns dos nossos pacientes... e o destino trágico deles!"

"OLÁ, CRIANÇAS!" disse Gloria em um tom robótico. "EU SOU A BRUXA. SOU MUITO NORMAL. POR FAVOR... APROVEITEM OS DOCES."

As duas crianças a encararam em absoluto silêncio.

A garotinha, ainda segurando a varinha no alto, inclinou-se na direção de Claire e perguntou sem jeito: "A gente pode... pegar o doce agora?"

Ela estava decepcionada. Vários garotos mais velhos da escola diziam que a casa dos Dunphy era difícil de atravessar, mas agora ela só queria ir embora, e não porque estava com medo. Porque aquilo era esquisito. Uma casa cheia de esquisitos.

Claire abriu seu melhor sorriso forçado: "Sim... mas primeiro, um aviso."

Haley, já posiciada, ergueu a bandeja prateada de forma dramática: "Cuidado!" anunciou. "Porque aqui... a gente pode perder a cabeça!"

Ela puxou a bandeja com estilo, revelando o rosto de Cam.

Ele ergueu o olhar com resignação, com os olhos meio fechados, e disse sem expressão:

"Bu."

Silêncio. As crianças piscaram, confusas.

"Foi só isso?" sussurrou o garoto.

Cam, completamente alienado da decepção geral, havia se isolado mentalmente de volta à sua infância.

"O Timmy fugiu", continuou ele, ignorando todo mundo, "eu queria fugir também, mas a minha corcova... a minha corcova ficou presa... e eu caí. Bati com força no chão."

A voz dele falhou como se estivesse se lembrando de uma guerra.

Claire fechou os olhos, respirou fundo... e, com total calmaria, pegou a tampa prateada das mãos de Haley e a colocou firmemente sobre a cabeça de Cam com um estalos seco.

"Chega."

"Eu vi os pés dele!" disse o garoto, apontando para embaixo da mesa.

"Perfeito", retrucou Claire, invocando todas as suas forças para não gritar.

"Sigam com esses doces, crianças. E tenham um Halloween muito feliz."

Gloria estendeu a cesta enquanto as crianças pegavam os doces e recuavam devagar, distanciando-se da cabeça falante, da bruxa americana e da enfermeira.

Mas, bem antes de se virarem para ir embora, a garotinha olhou para trás e perguntou: "É só isso?"

Claire piscou. A apunhalada final. Mas ela conseguiu manter a compostura.

"Bem... não. Se vocês forem corajosos", disse ela, endireitando-se um pouco, "há uma segunda sala. Muito mais assustadora. Mas é só para os corajosos. É lá que... os pacientes mais perigosos ficam."

As duas crianças ficaram bem paradas.

O que elas acabaram de vivenciar tinha sido uma decepção, sim...

mas também um insulto à reputação de coragem delas. Não podiam voltar com uma história tão sem graça, e se pudessem conseguir mais doces, melhor ainda.

"Vamos", disse a garotinha com confiança. "A gente consegue."

Claire os levou até o corredor escuro. Ela abriu a porta solenemente.

Lá dentro, uma luz vermelha fraca iluminava as paredes.

"Sigam as marcações no chão", disse Claire. "Boa sorte."

Ela fechou a porta gentilmente.

E ficou parada ali por alguns segundos com os olhos fechados.

Então ela se virou, caminhou de volta até os outros e disse em um tom perigosamente paciente: "Ok. Isso foi um desastre. Começamos mal."

"Primeiramente, pai, é trovão, relâmpago, depois a fumaça. Nessa ordem. Não é tão difícil assim. Eu preciso que você faça direito, e não só fique apertando botões como uma criança com um controle remoto."

Jay ergueu os olhos de sua cadeira de gárgula, franzindo a testa: "Agora eu levo bronca?"

Claire o ignorou e virou-se para Gloria: "Você, por que está falando com esse sotaque falso ridículo? Posso pedir só um pouquinho de seriedade?"

"O que você quer? Que eu faça como em uma novela latina?" retrucou Gloria, claramente irritada, falando agora com um sotaque dramático exagerado: "Bem-vindos à casa dos horrores, crianças! ¡Los vamos a matar del miedo [3]!"

"Eu não disse isso!" exclamou Claire.

"A filha é igualzinha ao pai. Os dois criticam o meu jeito de falar", declarou Gloria, cruzando os braços.

Claire suspirou derrotada e virou-se para Haley: "Você", disse, apontando para a bandeja, "levantou a tampa depressa demais. Tinha que ter suspense."

Haley, ajeitando sua fantasia, olhou para a mãe com uma indignação fingida e disparou: "Com licença?! Eu fui a melhor parte de cena inteira. Fui a única agindo como se isso fosse uma casa mal-assombrada e não uma festinha para aposentados disfuncionais. E eu estava do lado de uma cabeça falante deprimida!"

"Essa eu te dou", admitiu Claire, virando-se em seguida para Manny e Luke.

"O que aconteceu com vocês dois? Era para assustá-los das sombras!"

Manny deu de ombros, com seu tom sempre filosófico: "Nós nos perdemos na atmosfera emocional da cena. Eu estava acompanhando o arco dramático do Cam. Pareceu mais sincero não interrompê-lo."

"Eu estava seguindo a fumaça para ver de onde ela vinha, e acabei esquecendo", respondeu Luke simplesmente.

Nisso, Mitchell entrou da cozinha, com a bebê Lily nos braços: "Ouvi gritos", disse Mitchell, "mas não parecem de pavor. Mais para... frustração de adulto."

Ele olhou para a irmã e franziu a testa: "A nossa reputação no Halloween está em risco?"

Apesar de não estar com vontade de se fantasiar naquele ano depois do que aconteceu no trabalho, a família tinha uma reputação a zelar. E se isso significava vestir uma fantasia ridícula para manter vivo o legado de Halloween dos Dunphy... Mitchell faria.

Claire cruzou os braços com firmeza: "Nem tudo está perdido. A noite é uma criança, ainda podemos ensaiar e melhorar. Além disso, as crianças só viram o aperitivo", disse ela, apontando para a porta com o dedo indicador.

"Porque agora elas estão entrando na segunda sala... onde o Andrew e a Willa estão esperando."

Todos emudeceram.

E, como se fosse um sinal, um grito agudo ecoou vindo da segunda sala.

Mitchell inclinou a cabeça, ostentando um misto de preocupação profissional e orgulho familiar no rosto: "Bem... aquilo foi um grito de verdade. Isso é bom, né? Embora... você acham que há chance de sermos processados?"

Phil inclinou-se em direção ao corredor, com os olhos brilhando como uma criança na manhã de Natal.

"Isso foi som de susto de verdade! É assim que se faz, equipe! Estou muito orgulhoso dessas crianças! Não podemos decepcioná-los, precisamos entregar uma experiência completa mesmo nesta primeira sala!"

"Bom... pelo menos alguém vai ter uma experiência traumática esta noite que não sou eu", resmungou Cam.

Jay bufou de seu canto, mas o que parecia ser um leve sorriso brotou em seu rosto.

Gloria apertou o peito, sobressaltada: "Ai, meu Deus! Aquele grito foi de uma criança! Elas estão bem lá dentro? E se o Andrew pegou pesado demais? Aquele menino leva as coisas a sério demais às vezes. E a amiguinha dele parecia tão intensa quanto!"

Haley, olhando para a porta, deu um sorrisinho de canto: "É... a Willa leva as coisas bem a sério mesmo. Ela assusta até quando te oferece suco."

Luke, pálido, espiou por trás do sofá. Ele tinha feito bem em não entrar naquela segunda sala. Manny também estava visivelmente aliviado por ter ficado para trás.

Claire, plantada no centro da sala de estar, olhou ao redor para todos com seriedade, mas também com aquele pequeno brilho competitivo pelo qual era conhecida.

"Aquilo..." disse Claire, apontando para o corredor da segunda sala, "aquilo é o som da redenção."

Ficaram todos em silêncio por um momento, sabendo exatamente para onde a Claire competitiva estava rumando.

Ela deu um passo à frente com a energia de um técnico de futebol no intervalo: "Mas nós não podemos ficar para trás. Nós somos a primeira sala! O número de abertura! Não podemos ser o aquecimento patético para o que está claramente se tornando a experiência definitiva de Halloween dos Dunphy! Nós devemos ser uma equipe. Duas salas. Uma reputação."

Phil assentiu solenemente e, naquele exato segundo, a campainha tocou de novo.

"Gostosuras ou travessuras!"


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[1] - Quasímod (Quasimodo, no original): Personagem corcunda do clássico romance *O Corcunda de Notre-Dame*, de Victor Hugo.

[2] - Caça-Fantasmas (Ghostbusters, no original): Franquia clássica de filmes de comédia e ficção científica sobre uma equipe que captura fantasmas.

[3] - ¡Los vamos a matar del miedo!: Em espanhol no original, significa "Nós vamos matar vocês de susto!".

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