
Capítulo 108
Família Moderna: Nova Vida
Ding, dong.
Jay caminhou até a porta, resmungando sozinho enquanto ajeitava algo em volta do pescoço.
Ele abriu a porta.
Os primeiros a entrar foram Mitchell e Cam, empurrando o carrinho da Lily. Ambos cumprimentaram Jay rapidamente, sorrindo mal e mal, ocupados demais em não falar demais um com o outro para notarem o acessório estranho no pescoço de Jay.
— Oi, vovô.
— E aí, Jay.
Eles disseram em uníssono, passando direto por ele.
— E aí — Jay respondeu, acenando para eles enquanto os observava por um segundo.
Em seguida, ele olhou de volta para a porta, onde Andrew e Pippa se aproximavam de mãos dadas.
Assim que Andrew viu Jay, ele ergueu uma sobrancelha. Pippa também hesitou por um segundo.
Jay tinha dois sapatos sociais de couro marrom pendurados no pescoço, amarrados juntos por um cordão grosso, parecendo algum tipo de colar improvisado bizarro.
— Esqueceu onde os sapatos devem ficar, vovô? As pessoas geralmente usam nos pés, não no pescoço — comentou Andrew.
— Muito engraçado, Sr. Comediante — disse Jay, embora seu tom deixasse claro que ele não estava achando graça nenhuma.
— Pendurar os sapatos dos seus ancestrais no pescoço é uma tradição colombiana — acrescentou ele, como se fosse a coisa mais normal do mundo. — É melhor do que espancar uma galinha gritantendo para afastar a morte.
— Tradições colombianas? — pensou Pippa, erguendo levemente uma sobrancelha e segurando o riso.
Ela sabia muito bem que aquilo não era tradição colombiana nenhuma. Era óbvio que a Gloria tinha inventado.
Com que propósito? Ela fazia ideia. Mas não estava disposta a corrigir o Jay e correr o risco de deixar a Gloria brava com ela, especialmente porque já estava tendo que lidar com a Haley. Se o Jay e a Gloria fossem brigar, que se resolvessem sozinhos.
Então, Pippa apenas sorriu e assentiu como se a resposta de Jay fizesse todo o sentido.
Andrew, por outro lado, concordou com a cabeça seriamente. Ele não fazia ideia de quais eram as tradições colombianas, então engoliu a história direitinho.
— É bom saber — disse Andrew, como se fosse uma informação valiosa que ele pudesse precisar algum dia.
Lembrando-se do principal motivo pelo qual Jay o havia ligado mais cedo, Andrew perguntou:
— E como tá a parada da impressora? O Phil já conseguiu imprimir a foto da avó da Gloria?
— Não — respondeu Jay, soltando um susfuro alto e ruidoso, com aquela mistura de irritação constante e decepção que lhe era tão típica.
— Pelo visto, o Phil não é todo esse especialista que você achou. Já se passaram quatro horas, e a única coisa que consegui foi ter que aguentar ele desde cedo — acrescentou.
— Sério? — disse Andrew, piscando, incrédulo. Para o Phil, deveria ser uma tarefa simples; não era para demorar tanto.
— É, por que eu mentiria? — resmungou Jay, fazendo careta.
Seu mau humor era evidente.
Entre as bizarrices das "tradições colombianas" que teve que aguentar, como pendurar sapatos no pescoço ou bater em galinhas, e agora o Phil empacado em algo tão básico quanto uma impressora, Jay parecia estar no limite da paciência.
Nesse exato momento, ecoou da cozinha a voz inconfundível de Gloria:
— Jay! Não critique minhas tradições na frente dos convidados!
— Eu não tô criticando! Tô explicando! — Jay gritou de volta.
E então, murmurando baixinho, acrescentou:
— Explicando o quanto essas tradições não fazem o menor sentido.
— Tem refrigerante e petiscos na sala — disse ele, fazendo um gesto com a mão em direção à sala de estar. — Mas não vão se empanturrar. A gente vai comer intestino de porco no jantar, um dos melhores pratos da Colômbia.
Sem esperar resposta, Jay resmungou de novo e voltou para a cozinha, murmurando algo incompreensível sobre sapatos, galinhas e, agora, impressoras.
Andrew e Pippa ficaram parados no corredor por alguns segundos, trocando olhares.
— Intestino de porco, hein? — disse Pippa com um sorriso cauteloso. Pelo nome, não parecia ser exatamente o prato mais apetitoso do mundo.
— Desde que bata minhas calorias e proteínas, por mim tudo bem — disse Andrew, dando de ombros enquanto começava a caminhar em direção à sala, puxando-a com ele.
— Sua disciplina com a comida às vezes beira o extremo — disse Pippa, rindo baixinho. — Mas eu respeito. É uma das coisas que eu gosto em você.
Ela sabia que Andrew levava aquilo a sério. Ele queria ser jogador profissional de futebol americano, e seu nível de dedicação fazia parte disso.
Nada de improviso. Tudo medido, tudo planejado.
— Eu tenho minhas refeições livres. Não sou um robô — disse Andrew com um sorriso de canto.
— Eu sei. Mas ainda assim, é incrível o quão disciplinado você é. Na nossa idade, a maioria das pessoas não pensa em nada além do que vai fazer no fim de semana — comentou Pippa enquanto se sentavam em um dos sofás da sala, ao lado de Andrew.
— Você é do mesmo jeito quando se trata de estudar. Planeja seus dias, suas horas de estudo, o que vai estudar, seu tempo livre, seu horário de sono... Eu gosto isso em você também — disse Andrew, olhando para ela.
— Tudo para entrar em uma boa faculdade — retrucou Pippa.
— O mesmo por aqui — acrescentou Andrew.
Eles ficaram em silêncio por alguns segundos, aproveitando o momento de calmaria juntos, até que caíram na real.
Olharam em volta e perceberam que a sala estava vazia.
Muito provavelmente, Mitch e Cam tinham ido para a cozinha oferecer ajuda à Gloria. Quanto a Jay, ele provavelmente tinha voltado para o Phil, muito provavelmente o pressionando para finalmente imprimir a bendita foto da falecida avó da Gloria.
— Agora só faltam a tia Claire, a Haley e a Alex. É aí que a verdadeira confusão começa — murmurou Andrew para si mesmo, mas Pippa o ouviu.
Haley e Alex estavam furiosas com Claire por ela ser tão controladora e bisbilhotar as mensagens privadas da Alex. E, para piorar, Haley havia ficado irracionalmente brava com Pippa só porque Alex tinha recorrido a ela em busca de conselhos.
Ainda havia Mitch e Cam, que carregavam a tensão do incidente do beijo em público e da discussão que se seguiu.
E o Jay... bem, claramente o Jay também não estava nos melhores dias.
Entre as estranhas "tradições colombianas" e a tentativa desastrosa de Phil com a impressora, ele parecia prestes a explodir a qualquer momento.
Pippa, sabendo que seria melhor Andrew estar preparado, decidiu abrir o bico.
— Tem uma coisa que eu preciso te contar — disse ela baixinho, aproximando-se um pouco mais.
— O que foi? — perguntou Andrew, curioso.
— Essas "tradições colombianas" que o Jay tá fazendo... pendurar sapatos, bater em galinhas... — Pippa baixou ainda mais o tom de voz, como se temesse que a Gloria pudesse ouvi-los. — Não são de verdade. Elas foram inventadas.
— O quê? S sério? — perguntou Andrew, surpreso.
Pippa assentiu seriamente:
— Sim. A Gloria inventou tudo. Não sei por quê, mas te garanto que essas coisas não fazem parte da cultura colombiana — confirmou.
Andrew congelou por alguns segundos, processando a informação.
E então, ficou meio pálido.
Se a Gloria tinha inventado aquelas "tradições", só podia significar uma coisa:
Ela e o Jay provavelmente tinham tido alguma briga antes...
E agora a Gloria estava se vingando em silêncio, obrigando o Jay a pagar mico com desculpas culturais.
Se o Jay descobrisse durante o jantar...
Andrew engoliu em seco.
A noite ia ser muito mais perigosa do que ele havia imaginado inicialmente.
Ele recostou-se no sofá, encarando o teto.
— A gente tá sentado em cima de um campo minado — murmurou.
Pippa assentiu com um sorriso amarelo, mas não havia muito o que pudessem fazer a respeito.
Nesse exato instante, ouviram a campainha tocar. Andrew e Pippa trocaram um olhar, como se o próprio caos acabasse de bater à porta.
Lá da cozinha, a voz de Gloria trovejou:
— Andrew, você pode atender lá, por favor?
— Eu vou lá. Me desejem sorte — disse Andrew, levantando-se resignado.
Pippa assentiu, ajeitando-se um pouco mais no sofá.
Andrew caminhou até a porta e a abriu.
Haley entrou primeiro.
— Oi, Andrew — disse ela com um tom monótono, difícil de saber se estava brava ou não, mas definitivamente não parecia estar de bom humor.
— E aí, Haley — respondeu Andrew.
Enquanto passava por ele, Haley lançou-lhe um olhar rápido de soslaio, como se tentasse ler seu rosto, tentando descobrir se Andrew sabia alguma coisa sobre a discussão que ela teve com Pippa.
Mas Andrew, fazendo sua melhor cara de poker, não demonstrou absolutamente nada.
Atrás de Haley veio a Alex:
— Oi — cumprimentou ela, com uma expressão séria e visivelmente ainda irritada, muito provavelmente com a Claire.
— Como vão as coisas? — perguntou Andrew, bancando o sonso, como se não soubesse de nada.
— Minha mãe é uma controladora intrometida que não respeita a privacidade das filhas — disparou Alex imediatamente, virando-se para fuzilar com o olhar a Claire, que acabara de entrar logo atrás dela e ouvira tudo.
— Droga, por que diabo fui perguntar isso? — pensou Andrew, dando um peteleco mental em si mesmo.
— Eu não sou uma controladora intrometida. Eu só me importo e quero garantir que você não esteja saindo com um predador sexual. E, além do mais, você deixou seu celular desbloqueado e à mostra, então a culpa não é minha — explicou Claire.
Alex encarou a Claire, completamente ultrajada.
— E você ainda me culpa?! Você é inacreditável, mãe! Nem fala comigo, eu nem queria ter vindo pra cá!
O clima instantaneamente pesou.
Andrew ergueu as mãos em um gesto de paz.
— Tem refrigerante e petiscos na sala — disse ele rapidamente, entrando como um árbitro.
Em seguida, olhou para Claire e acrescentou:
— A Gloria e os meus pais estão na cozinha. Eles provavelmente precisam de ajuda com alguma coisa.
Claire soltou um susfuro reprimido e, sem discutir mais, seguiu em direção à cozinha.
Haley e Alex, por sua vez, seguiram para a sala de estar.
Andrew soltou um suspiro silencioso antes de ir atrás delas. Quando voltou para a sala, percebeu que o cenário havia mudado um pouco.
Além de Pippa, Luke e Manny agora estavam lá; eles deviam ter chegado enquanto ele lidava com os Dunphys na porta.
Luke estava sentado no chão, folheando algumas revistas rapidamente, como se procurasse algo interessante.
Manny acomodara-se perto de Pippa e Alex, que agora pareciam estar de bom humor, conversando animadamente com as duas.
Haley, por outro lado, sentou-se no canto oposto da sala, de braços cruzados e cenho franzido, lançando olhares furtivos para o grupo, especialmente para Pippa.
— E aí, Luke, Manny — cumprimentou Andrew com um sorriso ao se sentar ao lado de Pippa.
— Andrew, bora lá fora jogar! Tô entediado — disse Luke instantaneamente, saltando de pé.
— A gente não pode, Luke. O jantar vai sair logo. Não é uma boa hora pra ficar correndo por aí — respondeu Andrew, balançando a cabeça.
Luke soltou um suspiro dramático e se jogou de volta no chão, engatinhando até um armário e começando a revirar as coisas em busca de algum entretenimento.
Manny, enquanto isso, cumprimentou Andrew com entusiasmo, parecendo totalmente alheio à tensão que ainda pairava no ar.
— Oi, Andrew! Eu escrevi um poema novo pra recitar pra todo mundo no jantar! — disse Manny animado, claramente esperando algum elogio.
— Nossa, mal posso esperar pra ouvir... — respondeu Andrew, abrindo um sorriso sincero.
A conversa entre o grupo continuou de forma pacífica.
Pippa, Alex, Manny e Andrew trocavam comentários, piadinhas e historinhas, aproveitando o momento.
No entanto, o clima não estava exatamente relaxado.
A presença silenciosa de Haley, sentada à distância, de braços cruzados e testa franzida, era como uma sombra pesada pairando sobre a sala.
Andrew continuava olhando de soslaio para a Haley. Ela nem tinha tocado no celular, o que por si só já era incomum. Seus braços permaneciam cruzados, sua expressão ficando mais fechada a cada segundo, como se cada momento passado observando Pippa e Alex se divertindo estivesse acumulando pólvora dentro dela.
— Ai, meu Deus... Que horas o jantar fica pronto? — pensou Andrew, conferindo as horas.
Era apenas uma questão de tempo até a Haley explodir se ficassem ali por muito mais tempo.
Talvez no jantar, com todos os adultos presentes, a Haley conseguisse se segurar.
Ou, pelo menos, seria mais difícil para ela começar uma briga aberta.
Mas cada minuto passado naquela sala, com Pippa, Alex e Manny rindo calmamente, compartilhando ideias e piadas inteligentes enquanto ela ficava ali assistindo de seu canto, fazia as chances de um surto aumentarem perigosamente.
E então, inevitavelmente, aconteceu.
A certa altura, enquanto Pippa respondia à Alex, falando entusiasmada sobre conceitos básicos de bioquímica — uma matéria que Alex acabara de começar a estudar e achava tanto desafiadora quanto fascinante —, Haley soltou uma risada seca e zombeteira.
Um silêncio estranho e desconfortável se instalou, enquanto todos os olhares na sala se voltavam para a Haley.
— Qual é a graça? — perguntaram Pippa e Alex quase ao mesmo tempo.
Nenhum dos tons era amigável.
Pippa, por sua vez, já estava irritada com a discussão anterior com a Haley, na qual esta, brava e irracional, havia mandado ela não se meter em "assuntos de família".
Alex, por outro lado, também não estava com paciência. Sua relação com a Haley sempre fora um campo de batalha.
Competitivas, diferentes em tudo.
E dessa vez, a Haley também tinha sido a única que, sem pensar muito, dera-lhe o conselho quase absurdo de beijar o cara de quem gostava sem pensar duas vezes — algo que quase levou a Alex a cometer um erro do qual agora se envergonhava.
[Comentário de Andrew]
— O campo minado já foi pisado, e o jantar nem começou — disse Andrew, suspirando e balançando a cabeça.
[Fim do comentário]