
Capítulo 89
Família Moderna: Nova Vida
Capítulo 89 - Torneio de Verão I
Andrew e companhia acordaram às seis da manhã. Mal tinham dormido por quatro horas. A empolgação sobre a Comic-Con e os planos para o torneio os mantiveram acordados mais do que o esperado, assistindo a Harry Potter e falando sobre McLovin, também conhecido como Eyeshield 21, até o amanhecer.
— Droga... a gente realmente tem que ir para esse torneio? — Howard murmurou, com o rosto meio amassado contra o travesseiro.
A Noite de Pré-Estreia da Comic-Con começava às 18h, então, tecnicamente, eles poderiam ter acordado mais tarde, dormido mais e se arrumado com calma.
— Sim, nós temos que ir. Gastei cinquenta dólares para me inscrever — Andrew respondeu, vestindo uma camisa esportiva e preparando sua mochila com o capacete, a viseira e a câmera espiã que ele planejava montar. — Isso não é uma viagem, é uma missão.
— Uma missão para um vídeo viral — Leonard disse, ainda com os olhos pesados, mas animado para ver Eyeshield 21 em ação pela primeira vez.
— Vamos tomar café da manhã antes que fique muito tarde — Andrew acrescentou, pegando sua mochila.
Em poucos minutos, os três saíram do quarto. Cam e Mitchell já estavam acordados, sentados na cozinha, sabendo que o trio tinha uma 'aventura nerd' planejada em San Diego.
Cam tinha preparado o café da manhã para eles: ovos mexidos, torradas, frutas e suco de laranja. Enquanto comiam, Mitchell os olhava como se estivesse os enviando em uma expedição para Marte.
— Não se esqueçam de mandar mensagem quando chegarem lá — ele repetiu pela terceira vez. — E não se separem. E se virem alguma celebridade, não sejam esquisitos. Apenas cumprimentem casualmente.
Após o café da manhã, Mitchell os acompanhou até a estação de trem, insistindo para que fossem responsáveis, cuidassem de suas coisas, não confiassem em estranhos e, claro, não se esquecessem de mandar mensagens de vez em quando.
O trem partiu pontualmente às 7h00 da manhã rumo a San Diego, em uma viagem de aproximadamente duas horas e meia. Cada um tinha sua autorização assinada pelos pais, números de contato de emergência, cópias de suas identidades e até mesmo uma folha com o roteiro do dia, 'só por precaução'.
— Seus pais desconfiaram de alguma coisa? — Leonard perguntou enquanto o trem viajava por paisagens costeiras.
— Não — Andrew respondeu sem tirar os olhos do celular. — Eles só acharam que queríamos chegar cedo para explorar tudo e talvez encontrar uma celebridade na rua.
— Minha mãe pensou a mesma coisa. Ela disse: 'Que dedicação desses jovens de irem tão cedo!' — disse Howard, imitando a voz grave de sua mãe.
— É bom ter uma reputação limpa... — disse Leonard, mas então sua expressão mudou. Ele ficou em silêncio por um momento, como se uma memória o tivesse atingido.
Andrew notou a mudança. — Você está pensando em...?
— Na grande noite em que destruímos o Precioso... — disse Howard, com um sorriso que era parte orgulho e parte drama, como se estivesse contando uma lenda antiga.
— Não foi uma grande noite — disse Leonard, franzindo a testa. Depois daquela noite, ele perdeu a namorada e ficou de castigo por um longo tempo.
— Ah, cara, você tem que admitir, foi lendário. Depois daquela noite, todo mundo na escola sabia seu nome. Você não era mais apenas o amigo esquisito do Andrew — disse Howard com um sorriso orgulhoso, como se estivesse falando de uma medalha de guerra.
O vídeo de Andrew socando alguns bandidos em um beco tinha viralizado e, nele, Howard, Leonard e Steve podiam ser vistos gritando bobagens sobre proteger o Anel, derrotar orcs e assim por diante.
Mas não foi só isso.
Steve carregou ainda mais clipes daquela noite lendária, e esses viralizaram também. Já que eles já tinham sido punidos, postá-los online não importava mais.
A história até apareceu brevemente em um segmento de notícias local sob o título:
[Três Estudantes Embarcam em Estranha Aventura Noturna Inspirada em O Senhor dos Anéis]
A filmagem foi mostrada ao lado da manchete:
[Brincadeira Inofensiva ou Juventude em Perigo?]
— Nós enfrentamos criminosos, fomos perseguidos por um mendigo que parecia o Papai Noel, andamos quilômetros carregando um anel que eu roubei de uma garota na festa... e jogamos em um bueiro como se fosse a Montanha da Perdição! — Howard disse, recontando os eventos orgulhosamente.
— Nós enfrentamos? Eu ganhei a briga — disse Andrew.
— Bem, sim, mas não é esse o ponto. Nós nos tornamos lendas urbanas, Leonard! — Howard acrescentou.
— Eu admito que depois disso, pessoas que nem sabiam que eu existia começaram a falar comigo — Leonard assentiu.
Desde que tudo viralizou, sua popularidade na escola tinha melhorado muito. Ele não era mais o cara invisível que costumava ser, ou apenas o garoto esquisito que era amigo do astro do futebol americano.
A viagem de trem continuou enquanto o trio conversava sobre aquela noite desastrosa, mas lendária, sobre quadrinhos, alter egos...
Estádio Balboa — 9h45
O sol batia impiedosamente na grama do antigo Estádio Balboa, uma estrutura com mais de noventa anos de história, construída em 1914 e com capacidade para 34.000 espectadores.
Embora não estivesse lotado, havia uma multidão considerável: familiares, amigos, curiosos e estudantes de diferentes escolas da Califórnia que vieram apoiar as equipes, ou simplesmente para assistir à ação.
No total, oito equipes estavam participando do torneio. Todas elas foram formadas naquela mesma manhã a partir do grupo de jogadores registrados. Cada equipe tinha sete titulares, e as posições tinham que ser decididas na hora com seus companheiros de equipe aleatoriamente designados, exigindo coordenação e acordo rápidos.
Era um formato dinâmico e aberto, projetado para mostrar o talento individual e construir comunidade, mas com um nível competitivo sério: dinheiro estava em jogo, e vários treinadores curiosos apareceram para observar os jogos.
Brady Hoke, o organizador e figura central do evento, caminhava pelo campo com um passo determinado. Ele carregava uma pasta debaixo de um braço e tinha seus óculos de sol pendurados na gola. Ele dava instruções à sua equipe organizadora, verificava a lista de jogadores e se certificava de que tudo estava correndo bem.
Como o novo treinador principal da SDSU [1], este torneio foi sua primeira tentativa de se conectar com jovens talentos em toda a Califórnia e de construir laços com a comunidade local.
A poucos metros de distância, em uma área reservada perto da pista, Brian De Palma, um famoso diretor de cinema e amigo de Brady, observava tudo com interesse. Ele estava sentado com as pernas cruzadas, os dedos entrelaçados sobre o peito, os olhos seguindo os jogadores já agrupados em equipes.
Ao lado dele, Darnell Gregorio, seu par, usava óculos de sol grandes e folheava preguiçosamente uma revista de moda, sem se preocupar em esconder sua falta de interesse no evento. Encostada no corrimão com os braços cruzados e o sol batendo em seu rosto, estava sua filha, Willa, franzindo a testa enquanto observava o campo.
— Eu realmente tinha que vir? — Willa perguntou, sem tirar os olhos do caos controlado do campo. — Eu poderia estar no hotel, com ar condicionado, assistindo TV e me preparando para a Noite de Pré-Estreia.
Darnell não se abalou.
— É bom para você pegar um pouco de sol. Sair da sua caverna de vez em quando te faz bem. Mais tarde você terá todo o tempo do mundo para mergulhar no seu pequeno evento nerd... ou seja lá o que for — disse Darnell sem levantar os olhos da revista, usando aquele tom relaxado, mas condescendente que sempre usava quando falava sobre os interesses de sua filha.
Willa virou lentamente a cabeça em direção à sua mãe, sem sequer se preocupar em esconder o escárnio em sua expressão.
— Pequeno evento nerd... ou seja lá o que for. Que descrição precisa, Mãe. Foi assim que você se apresentou a Brian quando o conheceu? Você conquistou o coração dele sendo tão eloquente? — ela perguntou, cheia de ironia.
Darnell abaixou lentamente seus óculos de sol para olhar para ela por cima da armação. Sua expressão não era de surpresa, era de resignação. Ela estava acostumada com a língua afiada de sua filha.
— Willa...
— Não, tudo bem. Eu já sei que não posso esperar entusiasmo pelas coisas que eu gosto. Felizmente, eu tiro algo disso toda vez que você volta com o Brian... e então termina... e então volta de novo. Pelo menos ele demonstra mais interesse pelas coisas que eu me importo — disse Willa com um sorriso cínico.
Darnell fechou lentamente a revista.
Naquele momento, Brian, que estava fingindo se concentrar no campo para evitar ser arrastado para a discussão, virou-se para elas.
— O que está acontecendo agora? — Brian perguntou em um tom calmo, levantando uma sobrancelha como se já soubesse a resposta.
A expressão de Willa mudou instantaneamente. Ela colocou um sorriso enjoativamente doce, completamente falso e deu a ele um olhar exageradamente terno.
— Papai, papai... — Willa disse em uma voz melosa, — Você vai comigo à Comic-Con hoje à noite às seis?
Brian olhou para ela por um segundo... e sorriu. Ele sabia exatamente o que essa garota rebelde estava fazendo, mas achou divertido.
— Claro. Eu não perderia isso por nada. Provavelmente verei alguns rostos familiares — Brian respondeu.
Darnell não pôde evitar franzir a testa. Eles deveriam jantar hoje à noite em um restaurante muito caro para o qual ela teve dificuldades em conseguir uma reserva.
— Perfeito, obrigada — disse Willa com uma alegre batida de palmas. — Nada como ir a um pequeno evento nerd como esse... ou sei lá o que... em boa companhia.
Darnell voltou seu olhar para o campo, claramente irritada, mas sem dizer nada. A guerra passiva entre mãe e filha acabara de marcar mais um ponto a favor de Willa.
Justamente quando Willa estava terminando sua performance irônica com aquele sorriso falso que tanto irritava sua mãe, um dos jogadores registrados veio correndo em direção à área onde Darnell e companhia estavam sentados.
O garoto tropeçou em um pequeno cone de treinamento no caminho, mas rapidamente recuperou o equilíbrio.
— Você precisa de alguma coisa? Se precisar, a equipe do evento está ali — Brian disse, acenando discretamente para o pessoal de camisas cinzas.
— Não, senhor — disse o garoto, balançando a cabeça, um pouco nervoso. Então ele olhou para Willa. — Posso pedir seu número? — ele perguntou.
Houve um breve silêncio. Willa olhou para ele sem mover um único músculo.
Ela estava usando um top branco justo feito de tecido macio com alças finas, calças de linho largas cor creme e sandálias leves. Seu olhar era intenso — olhos azuis que pareciam cortar as pessoas.
— Nós nos conhecemos? — Willa perguntou, levantando uma sobrancelha após alguns segundos de tensão.
O garoto piscou. — Uh... não, mas eu pensei que talvez...
— Então não — Willa disse, sorrindo para ele. Não um sorriso gentil, um daqueles pequenos e afiados.
O garoto assentiu, deu um passo para trás desajeitadamente, virou-se e foi embora rapidamente, tentando manter alguma dignidade.
Brian se acomodou de volta em seu assento e disse: — Você não tem piedade, hein, garota?
— Não foi pessoal — Willa respondeu, olhando de volta para o campo com uma expressão neutra. — Eu só estou cansada de ser tratada como algum prêmio para colecionar. Eles pensam que só porque são atletas ligeiramente populares em suas pequenas escolas, podem conseguir qualquer garota que quiserem.
Nota do autor: Willa Holland é uma atriz conhecida por seu papel na série Arrow, onde ela é a irmã do protagonista. Esta série estreou em 2012.
[1] - San Diego State University, Universidade Estadual de San Diego.