
Capítulo 14
Família Moderna: Nova Vida
Feliz Ano Novo para todos!
...
— Minha mãe sempre se atrasa — disse Howard, sentado no sofá da sala.
— Não importa. A gente espera; ainda está cedo — respondeu Andrew, acomodado em outro sofá.
O silêncio se instalou no ambiente. Howard e Leonard estavam lado a lado, enquanto Andrew, do outro lado, os observava atentamente.
Howard e Leonard começaram a se sentir desconfortáveis com o silêncio e o olhar inquisitivo de Andrew.
— Vocês têm mesmo quinze anos? — perguntou Andrew, quebrando o silêncio.
— Quê? — responderam Howard e Leonard, confusos com a pergunta repentina e estranha.
— As identidades, por favor — disse Andrew, estendendo a mão com a palma aberta.
Howard e Leonard trocaram olhares, incertos sobre o que estava acontecendo. Era incomum ver Andrew tão sério, então, após hesitar por um momento, entregaram seus documentos.
Era estranho ele duvidar repentinamente de suas idades, quando antes havia reconhecido que tinham aulas juntos.
Andrew pegou ambas as identidades e as examinou cuidadosamente. Os nomes e datas de nascimento conferiam. Eles tinham a mesma idade que ele.
“Em que tipo de mundo bagunçado eu fui transmigrado?” Andrew se perguntou enquanto devolvia os documentos a Leonard e Howard, que suspiraram aliviados por algum motivo.
Quantos personagens de programas de TV ele ainda encontraria no futuro? Talvez até esbarrasse em personagens de filmes. Quem sabe? Além disso, houve algumas mudanças na linha do tempo, mas não havia nada que ele pudesse fazer para consertar isso.
— E aí, se divertiram? — perguntou Andrew, recostando-se no sofá.
— Sim, foi demais! — responderam Howard e Leonard em uníssono.
No início, nenhum deles pensou que realmente se encaixaria no grupo de Andrew ou na turma dos populares. Mas, depois de brincar de verdade ou desafio, eles se aproximaram de Reggie, Steve e dos outros membros do time de futebol.
Eles nunca esperaram que o time fosse tão amigável com dois nerds como eles. Isso graças a Andrew, que havia ensinado a seus amigos de infância a não se tornarem os típicos valentões do futebol.
— Que bom — disse Andrew com um leve sorriso.
— Como é ter uma namorada? — perguntou Howard do nada.
Leonard olhou para o amigo, balançando a cabeça. Estava claro que ele estava desesperado para ter uma namorada ou qualquer tipo de atenção feminina mínima.
— Não faz nem uma hora que eu comecei a namorar a Veronica... — respondeu Andrew.
— Bem, isso é verdade... — disse Howard, coçando a cabeça. — Mas você já deve ter tido uma namorada antes, certo? — acrescentou.
— Namorada... — Andrew pensou, com o olhar momentaneamente distante. Naquele breve instante, uma imagem de uma garota sorridente de sua vida passada brilhou em sua mente.
— Não. Veronica é a primeira namorada que eu já tive — respondeu Andrew.
Howard e Leonard trocaram olhares surpresos. Era incomum para um quarterback que liderou seu time para os campeonatos do ensino fundamental por dois anos seguidos não ter uma namorada. Ainda assim, eles nunca tinham ouvido boatos ou o visto com nenhuma garota, então parecia ser verdade.
— Agora que penso nisso, rolou um boato... — murmurou Leonard para si mesmo, mas Andrew ouviu.
— Que boato? — perguntou Andrew. Leonard congelou, sentindo-se nervoso, pois o boato tocava em um tópico delicado.
— Um boato irrelevante — interveio Howard, tentando minimizar a situação e desviar a conversa de uma situação desconfortável.
— Um boato de que eu sou gay? — perguntou Andrew, embora já soubesse exatamente sobre o que era o boato.
Leonard assentiu levemente, relaxando quando notou a expressão calma de Andrew.
Como seus pais eram um casal gay e ele nunca teve uma namorada durante todo o ensino fundamental, era normal que tais boatos começassem a circular. Com sua posição como quarterback titular e sua popularidade, era estranho que ele não tivesse tido uma namorada, mesmo que o relacionamento fosse de curta duração.
Haley já tinha tido muitos namorados, embora a maioria durasse apenas duas semanas ou menos, e, no máximo, eles davam as mãos ou trocavam um beijo rápido.
Andrew não podia negar que o boato o incomodava um pouco, especialmente porque havia se espalhado tanto em sua escola. Malditos adolescentes fofoqueiros.
É claro, ele não era homofóbico, mas tinha certeza de sua orientação sexual, que era heterossexual, então era um pouco irritante que as pessoas estivessem dizendo que ele era gay pelas costas.
— Vocês acreditaram nesses boatos? — perguntou Andrew, um tanto curioso.
— Eu nunca pensei muito sobre isso — respondeu Leonard. Honestamente, ele não se importava se Andrew era hétero ou gay. Ele nem era seu amigo — apenas um colega de classe e um cara popular, muito diferente dele.
— Para mim, o boato era verdade — disse Howard sem rodeios, embora seu tom não contivesse rejeição ou desprezo caso Andrew fosse realmente gay.
— Se eu fosse você, já teria tido inúmeras namoradas! Teria sido extremamente fácil. Desde quando uma das garotas mais populares se declara? — acrescentou Howard, invejoso, ainda incrédulo sobre o que havia acontecido durante o verdade ou desafio há poucos minutos.
Howard era alguém que pensava em garotas na maior parte do tempo e em maneiras de conseguir uma namorada, o que, no fim das contas, nunca dava certo. Se estivesse no lugar de Andrew, conseguiria facilmente uma namorada e seria o cara mais feliz do mundo.
— Não me associe a ele — disse Leonard, distanciando-se de Howard.
— Se você está tão desesperado assim, as garotas vão notar instantaneamente e só vão te ver como um servo para usar — disse Andrew.
— Eu não estou desesperado! — exclamou Howard.
— Sério? — perguntaram Leonard e Andrew.
— Bem, talvez um pouco... — admitiu Howard.
Não era culpa dele; ele via que todos os outros tinham parceiros, beijos, até mais do que isso, enquanto ele permanecia virgem, sem experiência alguma. Ele não queria ficar para trás e ser zombado ainda mais do que já era.
— Vamos, eu vou te mostrar que esses boatos são mentira — disse Andrew, levantando-se do sofá e indo em direção ao seu quarto. Leonard e Howard o seguiram, curiosos.
Ele pegou a chave de um dos bolsos, destrancou a porta e a abriu.
Howard e Leonard entraram e olharam ao redor, pasmos com o quarto à sua frente. Eles fitaram as figuras de Star Wars, Senhor dos Anéis e outras, incapazes de acreditar no que seus olhos estavam vendo.
Então seus olhos se moveram para os pôsteres pendurados nas paredes e depois para a televisão com o Xbox. Eles também notaram o PC no canto.
— Este... este é o seu quarto? — perguntou Leonard, maravilhado.
— Sim — respondeu Andrew, enquanto procurava algo embaixo de sua cama.
— Não acredito — disse Howard, balançando a cabeça.
Ele estava realmente no quarto de Andrew, o popular representante de sua classe? Sua própria caverna era muito parecida, a única diferença era a decoração de futebol.
— Este não é o quarto do seu irmão malvado? — perguntou Howard, examinando alguns quadrinhos de edição limitada dos X-Men em ótimo estado.
Quanto a Leonard, ele estava olhando todos os jogos que Andrew tinha para o Xbox. Eram tantos, até alguns que ele não tinha, o que já era dizer muito.
— Vocês acham que só porque eu sou bom em um esporte, eu não gostaria de coisas de nerd? — perguntou Andrew com um meio sorriso, enquanto abria uma pequena caixa com uma chave e tirava uma espécie de álbum.
Leonard e Howard trocaram olhares, ambos incapazes de acreditar nessa descoberta. Era ainda mais surpreendente do que quando Veronica e Andrew começaram a namorar.
Ninguém na escola sabia que Andrew era um geek e nerd como eles! Aprender isso os fez se sentir mais próximos de Andrew. Afinal, ele era alguém que compartilhava seus interesses e, sendo tão popular, parecia uma estranha espécie de conquista.
— Olhem — disse Andrew, abrindo lentamente o álbum como se estivesse revelando um tesouro secreto. Dentro do álbum havia fotos. Todas de uma pessoa, especificamente uma mulher.
— Padmé Amidala — disseram Leonard e Howard em uníssono, reconhecendo a garota nas fotos.
Era a atriz Natalie Portman, que interpretou Padmé Amidala nos filmes de Star Wars (Episódios I-III).
O álbum continha fotos de Natalie interpretando Padmé. Eram simplesmente fotos dos filmes e de algumas conferências que a jovem atriz compareceu, onde foi fotografada. Andrew as havia encontrado online após uma busca incessante.
— Vire a página — pediu Howard, querendo continuar vendo a beleza de Padmé Amidala. Leonard, ao lado dele, assentiu, e Andrew virou a página. Ele tinha uma enorme coleção de fotos.
— Padmé, a única pessoa na galáxia capaz de fazer até mesmo a roupa de uma senadora parecer sexy... — disse Howard, olhando as fotos. Leonard e Andrew assentiram várias vezes com seu comentário.
— Onde você conseguiu tantas fotos? — perguntou Leonard com uma pitada de inveja. Ele era um grande fã de Padmé. A melhor personagem feminina de Star Wars, em sua opinião.
— Na internet, obviamente. Eu procurei por todas elas quando eu tinha, uh... tempo livre — respondeu Andrew com um sorriso estranho. Era a primeira vez que ele mostrava este álbum para alguém.
Leonard e Howard assentiram, tão absortos no álbum que pareciam um grupo de adolescentes folheando uma revista de ídolos do cinema. Andrew entregou o álbum para Leonard, que o pegou cuidadosamente como se estivesse manuseando um objeto sagrado.
Havia fotos que nem ele e Howard tinham visto ainda.
Eles continuaram virando as páginas, ficando cada vez mais maravilhados como tolos, até que o álbum chegou ao fim.
— Legal, né? — disse Andrew ao fechar o álbum. Agora eles sabiam que ele era heterossexual.
— Sim, Padmé é a melhor! — Leonard assentiu sonhadoramente, imaginando cenários fictícios onde ele era um Jedi protegendo Padmé.
Maldito Anakin por deixá-la morrer de tristeza!
Howard fez um som de desaprovação à afirmação de Leonard e, junto com Andrew, eles o olharam com as sobrancelhas ligeiramente franzidas.
— Que foi? — perguntou Howard.
— Que barulho foi esse? — perguntou Andrew.
— O tssh? — Howard repetiu o som. — Essa foi a minha maneira de expressar o quão absurda foi a afirmação de Leonard — acrescentou.
— Abs... absurda? — repetiu Leonard. — Eu esqueci que você prefere a Leia — acrescentou com um leve sorriso de desaprovação.
— Você prefere a Leia? Aquela mulher com cara de paisagem e penteado ultrapassado? — disse Andrew, incrédulo.
— Ei, tenha um pouco de respeito com a Princesa Leia! — gritou Howard, ofendido.
— Você só gosta da Leia por causa do biquíni dourado. Eu sei onde você esconde o pôster no seu quarto. Se sua mãe vir, ela vai te dar uma surra — disse Leonard.
— Acho que a lealdade dele é comprada com um pouco de pele — disse Andrew com uma expressão de desdém.
— Não é sobre isso, seus idiotas! — exclamou Howard, ficando vermelho como um tomate.
— É sobre a personagem. A história de vida dela é muito melhor do que a da Padmé. Vocês só se concentram no rosto bonito de Natalie Portman e no fato de que ela tem quase a nossa idade. Admitem — acrescentou, partindo para o ataque.
As expressões de Leonard e Andrew se escureceram. Howard estava certo, mas eles nunca admitiriam!
Andrew, em sua vida passada, era um grande fã de Padmé, mas Natalie Portman já era uma mulher na casa dos 40 anos, então ele não era tão fã dela, já que suas idades eram muito diferentes. Mas agora é diferente.
Natalie Portman tem apenas dois anos a mais que ele! Ele não sabe por quê, já que ela deveria ser mais velha, talvez na casa dos 20 e poucos anos, mas essa linha do tempo é diferente de sua vida passada. Aqui, Howard e Leonard, que já deveriam ter quase trinta anos, têm apenas quinze.
Então, como eles têm quase a mesma idade, ele se sente mais conectado e se permite se deixar levar mais pela personagem de Padmé. O mesmo vale para Leonard.
— Sem Padmé, não haveria Leia, não haveria Luke, não haveria Darth Vader. Então não haveria Star Wars, fim de papo — concluiu Andrew enquanto colocava o álbum de volta em seu lugar, trancando-o.
— Que sem-vergonha! — pensou Howard, prestes a continuar a discussão, mas duas buzinas foram ouvidas. Ele olhou pela janela e viu o carro de sua mãe.
— É hora de ir... — disse ele um pouco deprimido. Foi divertido ter uma discussão com três pessoas. Era sempre só ele e Leonard. Adicionar Andrew trouxe uma vibe nova.
Os três saíram do quarto em silêncio, indo em direção à entrada da casa. Andrew abriu a porta, e Leonard e Howard permaneceram em silêncio por alguns segundos.
— Foi divertido. Quando você vai fazer outra reunião? — perguntou Leonard com alguma expectativa.
— Provavelmente não algo assim de novo. A temporada está começando, e eu preciso focar no futebol — respondeu Andrew, embora a verdade fosse que festas não eram algo que ele gostava muito. Ele foi meio que forçado a dar por seus pais.
— Ah... certo. Bem, a gente se vê na escola, se acabar caindo em alguma aula juntos — disse Leonard, um pouco desanimado.
— Vocês podem vir amanhã se quiserem. Dormir aqui. A gente pode assistir à saga de Star Wars e jogar videogame — sugeriu Andrew.
Leonard e Howard aceitaram imediatamente, antes mesmo que Andrew pudesse pensar se seria rejeitado ou não.
— E, a propósito... mantenham tudo o que viram no meu quarto em segredo — acrescentou com um sorriso amigável que assustou Leonard e Howard.
Depois que eles saíram, Andrew foi dormir de bom humor. Ele nunca pensou que finalmente teria dois amigos com quem compartilhar seu segundo e secreto hobby. Além disso, eram ninguém menos que Leonard e Howard, dois gênios e personagens de um programa que ele assistia em sua vida passada.