Omniscient First-Person’s Viewpoint

Capítulo 75.2

Omniscient First-Person’s Viewpoint

༺ O Livro de Tyrkanzyaka – Antigo Testamento (Parte 2) ༻

A garota e seu pai se viram em uma situação complicada.

A morte na vila era tão rara quanto seu impacto era profundo, e quando acontecia, era muitas vezes horrível, não deixando corpos intactos. Se alguém caía vítima de uma fera ou se afogava, nem mesmo um cadáver restava.

A morte por doença era o único tipo que deixava um corpo, mas isso apresentava seu próprio problema para o pai e a filha. Desde que os moradores da vila começaram a procurar rapidamente a ajuda do pai para ferimentos e doenças menores, a maioria dos males deixou de ser fatal.

Mesmo que alguém sucumbisse a uma doença grave, o problema persistia. Porque, enquanto os seguidores da Ordem de Gaia preferiam o enterro, os pobres que não tinham recursos recorriam à cremação, como incentivado pela Igreja Sagrada.

Enquanto os corpos em chamas dos moradores da vila que haviam adoecido jaziam diante dele, o pai mordeu o lábio em frustração. Era impossível dissecar cinzas, afinal. No entanto, ele não podia se dar ao luxo de ser negligente no diagnóstico de seus pacientes e deixá-los morrer.

Ainda assim, a região não oferecia meios de obter corpos e, no fim, movido pela urgência, o pai decidiu arriscar.

“Tyr, vou me afastar um pouco mais hoje.”

Agora, ele era dominado por uma obsessão perversa. Parecia que ele não pararia até aprender tudo o que havia para saber sobre anatomia humana.

A garota sentiu um desconforto vago, mas a sensação logo se tornou apenas preocupação. Afinal, ela já havia se tornado uma curandeira excepcional, superando as habilidades de seu pai.

“Vou ajudar também.”

“Está tudo bem. A viagem será longa e árdua.”

“Tudo bem. Eu também gosto de fazer caminhadas noturnas. Além disso, você não sabe? Eu nunca fico sem fôlego, não importa o quanto eu ande.”

“Vou ir muito longe, além de duas colinas. Levá-la junto só chamaria mais atenção, então fique em casa e cuide da casa hoje.”

Sua determinação e racionalidade convenceram rapidamente a garota, embora seu descontentamento fosse claramente visível em seu rosto. Em resposta, o pai riu calorosamente enquanto pegava seu casaco.

“Em vez disso, poderia colocar um pano nas patas do Ralion para mim? Com a longa viagem pela frente, vou precisar de uma mula para puxar a carroça esta noite…”

Era uma noite escura. Ciente da necessidade de evitar ser detectado pelos outros moradores da vila, o pai esperou até muito depois da noite antes de partir.

A garota se sentou na maior pedra da vila, despedindo-se do pai. Ela esperaria seu retorno no mesmo lugar.

O céu estava adornado com estrelas brilhantes. A lua minguante percorreu preguiçosamente seu caminho, lenta o suficiente para bocejar. A garota contemplou os céus, perdendo-se em profunda meditação.

Seu pai não estava errado. Se não fossem as doenças implacáveis e as mortes impiedosas que elas traziam, sua mãe ainda estaria viva. Se elas não existissem, seu pai teria sido feliz, livre da turbulência interior que o assombrava.

Portanto, não era seu pai o culpado; a verdadeira maldade residia no cruel domínio daquelas doenças cruéis que o haviam mudado.

‘Desculpa, Tyr.’

O suave farfalhar de uma brisa acordou a garota. Ela tinha cochilado sem querer. O amanhecer raiava no horizonte, acompanhado pelo chilrear dos pássaros nas árvores.

A garota rapidamente se livrou dos restos do sono, seu olhar varrendo a área. Seu pai não havia voltado apesar de ter passado uma noite inteira? Ela tinha certeza de que ele a teria acordado se a visse. Ou talvez ele estivesse muito exausto para sequer olhar ao redor…

A garota parou de olhar para a estrada e decidiu ir para casa. Se seu pai não estivesse lá, ela poderia simplesmente voltar.

Mas enquanto ela caminhava pelo caminho e chegava à pequena cabana onde morava com seu pai, um pressentimento sinistro passou por sua mente.

Um enorme cavalo estava amarrado perto da cabana, um belo cavalo de guerra, duas vezes maior que o Ralion, com uma juba magnífica. Em sua sela branca, luxuosa à primeira vista, havia uma cruz, o selo da Igreja Sagrada.

No momento em que a garota reconheceu o que era, ela apressadamente correu para dentro da cabana.

Pressentimentos ominosos raramente enganam.

Ao abrir a porta, ela foi recebida por um forte cheiro de sangue. A modesta cabana permitiu que ela rapidamente compreendesse toda a situação assim que entrou.

Três indivíduos, vestidos com armaduras de aço frio, chamaram sua atenção com sua aparência suspeita. Um deles empunhava uma lâmina pingando sangue… enquanto seu pai jazia indefeso no chão, sangrando.

“Pai!”

Horrorizada, a garota correu para o lado do pai e caiu de joelhos. Ele estava à beira da morte, mas um brilho fugaz de luz reacendeu em seus olhos. A alegria ofuscou momentaneamente seu olhar, apenas para ser rapidamente substituída por uma expressão de olhos arregalados marcada por espanto e medo.

“Tyr… Fuja…”

“Não! Pai!”

Sua voz estava fraca, como se pudesse quebrar a qualquer momento. No entanto, ele reuniu toda a sua força antes da morte, espumando sangue, para proferir suas últimas palavras.

“Mas… você pode… So… breviver. Minha… esperança…”

“Pai!”

O ferimento era grave. Não era preciso ser curandeiro para reconhecer a desesperança de sua condição.

Ela conseguiria? Ela não tinha certeza. Ela nunca havia exercido uma quantidade significativa de poder em alguém que ainda estava vivo. Mas ela tinha que fazer isso. Caso contrário, seu pai morreria.

A garota fechou os olhos e começou a exercer controle sobre o sangue que esvaía.

“Senhor Padre. O que devemos fazer com esta garota?”

“Deixem-na e voltem. Somos justiceiros, não assassinos. Já que temos tudo o que precisamos…”

De repente, o padre cessou seus murmúrios.

O sangue seguiu o movimento do dedo da garota. Ele subiu do peito de seu pai e, sob sua orientação, retornou ao seu devido lugar. Sangue jorrava no ar vazio.

Água derramada não podia ser recolhida, mas sangue podia.

Desesperadamente, a garota redirecionou o sangue de volta para o corpo do pai.

“Senhor Padre. Isso…”

O padre levantou a mão, cortando o ar para sinalizar silêncio. Um silêncio pesado desceu sobre eles. Com um tom pesado, como se carregasse o peso do céu, o padre se dirigiu à garota.

“Criança. Qual é o seu nome?”

A garota voltou a atenção para a voz atrás dela. Esses indivíduos haviam chegado sem dúvida para punir seu pai. Eles não ficariam parados e observariam suas ações. Mas se ela interrompesse seus esforços, seu pai morreria. Ela não podia permitir que isso acontecesse.

A garota persistiu em usar sua arte sangüínea e implorou fervorosamente aos intrusos.

“Eu sou T-Tyr. Desculpe. Eu não farei isso de novo a partir de agora, então, por favor, salve meu pai…”

“Tyr, vejo. Tyr. Um bom nome. Seu pai deu?”

“Sim, sim. O pai é, ele é uma boa pessoa. Ele ajudou muitas pessoas. Então, eu vou impedi-lo a partir de agora, então…”

Era o apelo sincero de uma filha devota. Se o intruso que estava diante dela tivesse até mesmo o menor traço de misericórdia, ele poderia facilmente ter se afastado.

Mas ela estava enfrentando um padre. Não havia espaço para misericórdia na armadura de fé e dever usada pelo clero.

“Eu não posso salvar seu pai. No entanto.”

Prrk. Sem nenhum aviso, a espada do padre atravessou o peito da garota.

Ela ofegou incrédula, sentindo o toque gelado do metal enquanto ele cortava sua carne, caminhando em direção ao seu coração batendo forte. Uma dor agonizante percorreu seu corpo. Sangue jorrava de seus pulmões perfurados, espumando e manchando o chão enquanto Tyr desabava no chão da sala.

O mundo ao seu redor ficou nebuloso, e apenas a dor ressoava em sua cabeça. Gradualmente, a consciência da garota se esvaiu, e suas memórias começaram a se confundir.

Enquanto ela jazia ali caída, ela ouviu os murmúrios do padre pairando sobre ela.

“Eu vou mandá-la para o mesmo lugar que seu pai.”

O padre brandou sua espada, deixando um rastro de manchas de sangue no chão de madeira. Essa foi a última memória que a garota teve antes que sua vida se esvaísse.

“Devo introspectar. Quase errei devido à compaixão equivocada.”

“Devemos purificar? Devo trazer uma tocha?”

“Não. Devemos esculpir um aviso. Vamos tirar os corpos de baixo do prédio e ir embora.”

“Sim, Senhor Padre.”

“Aquele foi um momento perigoso. Descobrir uma semente do Deus Negro em um local como este…”


“Doutor, estou com o braço duro hoje… Ahhh!”

“Houve um assassinato! Um assassinato! O doutor está morto! Até a Tyr!”

“Huh? Corp… os?”

“Espere, não é esta a velha que faleceu mês passado…?”

“Aqui! Há muitos mais corpos…!”

“Não pode ser o doutor, não, este demônio foi quem estava desenterrando túmulos esses dias…?”

“Demônio…”

“É castigo divino…”

“Que azar. Não deixe ninguém vir…”

“…”


Tsk-tsk. Mesmo que eles tenham cometido o pecado grave de profanar os mortos, seus corpos e pecados foram todos derivados da terra. Não seria uma pena se eles não pudessem encontrar o caminho de volta? Como servo da Mãe Terra, não posso deixá-los serem amaldiçoados.

“O pai e a filha estão se enfrentando até na morte. Certamente eles eram uma família amorosa um para com o outro. Haah. Faz tempo que não faço isso, mas acho que vou fazer um funeral para eles.”


“Bom. Todos enterrados. Ufa. É exaustivo fazer isso de novo depois de tanto tempo. Que vocês encontrem a paz no abraço da Mãe Terra.”


No entanto, o padre que havia enfiado sua espada no coração da garota, os moradores da vila que haviam abandonado o pai e a filha, e até mesmo o coveiro que os havia sepultado permaneceram alheios. Eles estavam completamente inconscientes de que a garota, apesar de seu grave ferimento no coração, não havia sucumbido à morte.

Foi um tempo de resistência. A garota persistiu em sua luta pela vida dentro dos limites de seu túmulo, assombrada pela incerteza de por que ela tinha que continuar viva. Ela não conseguia largar a vida, mesmo testemunhando o corpo em decomposição de seu pai diante de seus próprios olhos.

Foi por causa de suas últimas palavras ditas em seus momentos finais? Ou talvez um instinto primordial que a impulsionou?

A garota interceptou o sangue que tentava escapar de seu corpo, desafiando veementemente a invasão da morte.

‘Está escuro…’

Era naturalmente escuro. Ela estava enterrada no subsolo em um caixão, lado a lado com seu pai. Essa era a realidade, destinada a durar para sempre. Então, qual o propósito da cor? Esses pigmentos foram criados para contrastar a luz, mas agora eram fúteis.

Deixe tudo desaparecer.

‘Estou… com fome.’

Não havia nada para consumir exceto seu pai, deitado sem vida diante dela…

De repente, um arrepio percorreu a garota. Ela deveria comer? Os restos mortais de seu pai? Ela não conseguia se obrigar a fazer tal coisa. Mas contra sua vontade, a fome dentro dela exigiu que ela cometesse o ato depravado de canibalismo. Ela resentiu-se dessa fome, acreditando que seria muito melhor não experimentar tais desejos.

‘Tão… sedenta…’

Havia necessidade de saliva sem fome? As lágrimas tinham algum propósito quando não havia mais nada a perder? Eram desnecessárias.

Livre-se disso.

‘Dói…’

Por que ela tinha que sentir dor? Como algum velho filósofo disse, o sofrimento não é a prova de estar vivo? Então, a dor era sem sentido para a garota que já havia perdido a vida. Ela resentiu-se da dor implacável que a perseguia e a atormentava sem fim.

Tenho que me livrar disso.

Ela não tinha utilidade para cores.

Apague-as.

Ela não tinha utilidade para desejos.

Rompa-os.

Ela não tinha utilidade para lágrimas.

Esvazie-as.

Ela não tinha utilidade para dor.

Arranque-a.

Assim, a garota suportou anos de sofrimento, deitada em meio ao seu próprio sangue e à essência da vida que escorreu do corpo de seu pai. Através de tudo isso, seu domínio da arte sangüínea avançou para o ápice com o passar dos dias. Todas as funções corporais necessárias para a sobrevivência cessaram dentro dela. Ela dependia apenas do movimento de seu sangue para manter seu corpo funcionando.

A garota, que outrora tenazmente mantinha sua família unida, havia se transformado em uma implacável cobradora de impostos em seu próprio corpo.

E assim, ela descartou tudo o que era desnecessário, gradualmente ganhando domínio sobre cada vaso sanguíneo nas pontas de suas mãos e pés, expandindo seu domínio de controle, abrangendo cada gota de sangue que havia sido salpicada no chão.

Então, em um determinado momento, ela abriu o caixão e emergiu para o mundo.

“Ahh.”

Um murmúrio seco escapou de seus lábios. Ela havia assumido ter perdido as palavras na longa ausência de fala, mas mesmo depois de descartar tudo o mais, a linguagem parecia ter persistido.

Tudo estava escuro, mas a escuridão era familiar aos olhos da garota. Era o resultado de uma vida vivida na perpétua nada.

Muita coisa havia mudado quando a garota despertou. A vila, o mundo e seus habitantes também. A única constante era ela mesma… ou talvez ela tivesse passado pela mudança mais profunda.

Apesar de descartar tanto, uma coisa persistiu: uma fúria fria, refinada e ardente. Era uma emoção que ela não conseguia se livrar durante seu aparente confinamento eterno, com o corpo sem vida de seu pai como uma lembrança constante diante de seus olhos.

A garota manipulou seu sangue para colocar seu corpo em movimento, dando passos desajeitados semelhantes aos de um fantoche sendo guiado por cordas. No entanto, ela rapidamente se acostumou a isso em um período relativamente curto.

Caminhando por um caminho desprovido de destino, mas alimentado por um propósito, ela gravou seu dever em sua mente — exigir uma retribuição justa dos apóstolos do Deus Celestial, equivalente ao que ela havia perdido.

… E foi assim que a história aconteceu.

Eu colecionei os fragmentos que a garota havia descartado e os forjei novamente. Memórias de sofrimento, tão antigas e agonizantes que haviam sido relegadas ao esquecimento. Eu reuni aqueles momentos que ela havia descartado um a um, se esgotando na presença do corpo sem vida de seu pai, e os conti em um único cartão.

Magia é a manifestação do seu próprio mundo.

A garota fez uma lembrança enquanto se lembrava de um antigo eu que havia desaparecido há 1200 anos. O coração vermelho retratado no cartão brilhava como sangue.

A garota cravou o cartão vermelho em seu peito, experimentando uma mistura de dor intensa e profunda ternura.

E com um leve sorriso, ela se foi.

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