
Capítulo 225
Turning
Ao ver aquele rosto sorridente, Yuder se esqueceu de tudo por um instante. O fato de estar em seu quarto desarrumado e a consciência de que o amanhecer traria um dia mais agitado que a maioria se evaporaram de sua mente.
Ele ficou atordoado, apenas olhando para frente quando Kishiar estendeu a mão lentamente, seus olhares se encontrando. Yuder imaginou que ele queria tocar seu rosto, mas Kishiar parou a certa distância, tremendo levemente, incapaz de se aproximar.
As pontas dos dedos hesitantes de Kishiar se mexeram algumas vezes, para então parar novamente.
—"...Comandante?"
Quando Yuder perguntou, insinuando o motivo daquele comportamento, Kishiar murmurou lentamente:
—"Estou tão tentado a simplesmente deixar minha mão te alcançar."
Após fechar os olhos brevemente, como se estivesse suprimindo uma emoção poderosa, continuou:
—"...Mas não posso. Estou muito feliz. Tenho medo de te machucar se não conseguir controlar minha força."
A expressão de Kishiar espelhava aquela que ele usara ao provocá-lo no escritório do Comandante, sobre o quanto ele poderia se aproximar, para em seguida evitar a resposta de Yuder. Certamente, ele não precisaria se controlar tanto apenas para tocar sua bochecha. Yuder, olhando para sua própria mão sobre o joelho, falou cautelosamente:
—"Não sou tão frágil a ponto de me machucar com isso."
—"Eu sei. Mas você não se sentiria enojado se eu acidentalmente liberasse a energia de um Despertador Alfa?"
—"Bem..."
Foi uma resposta que ele não esperava. Yuder piscou por um momento, e então franziu a testa.
Parecia que Kishiar achava que ele temia, ou pelo menos desgostava, Despertadores Alfa, considerando o incidente que ele havia experimentado durante sua segunda manifestação de gênero. Aquele incidente passado estava ligado aos seus esforços para evitar a recorrência de velhas memórias, mas Yuder não conseguia explicar isso, então permaneceu em silêncio.
Ele queria dizer que antes e agora eram diferentes, mas não sabia exatamente como dizer. Ele se sentia um tolo.
—"Eu não... eu não desgosto de Despertadores Alfa. Foi só... naquela época..."
Quando ele silenciou, Kishiar soltou um leve sorriso.
—"Você é bem carinhoso, meu assistente."
Carinhoso. Era um elogio que ele nunca pensou em ouvir em sua vida. Ele não teria ficado tão surpreso se tivesse sido emboscado. Yuder ficou perplexo, sem saber se abaixava a cabeça ou não, quando Kishiar de repente começou outro assunto.
—"Você sabe a maneira mais fácil de identificar um membro da família imperial descontrolado?"
—"Não sei."
—"Quando eles não conseguem controlar sua energia e ela vaza, pode machucar aqueles ao redor. Algo tão pequeno quanto um copo na mão deles poderia se estilhaçar, ou uma criatura viva que os toque poderia morrer repentinamente."
Kishiar murmurou casualmente, olhando para as pontas de seus próprios dedos.
—"No meu caso, a perna de um cavalo que eu toquei quebrou."
Um arrepio percorreu sua espinha.
—"Era uma criatura que eu apreciava, um presente de aniversário, mas ela não resistiu ao incidente e morreu."
—"…"
—"Nathan quase morreu várias vezes estando ao meu lado. Não em batalha como um cavaleiro, mas simplesmente porque seu mestre não conseguia controlar seu poder."
O tom dela era gentil, mas irônico.
—"Ainda penso nessas vezes, mesmo agora. Mesmo sabendo que não há necessidade de se preocupar, me pego tendo pensamentos tão fracos."
Talvez seja porque este é um período de energia errática, seu olhar se voltou para o rosto de Yuder enquanto ele murmurava. De repente, um sorriso gracejou seus lábios.
—"Recentemente, sempre que via meu adorável assistente, tais pensamentos me ocorriam. Talvez eu estivesse muito apegado a ele. Se eu hesitasse mais, só aumentaria, nunca diminuiria."
Apesar da provocação flagrante, ele se viu sem palavras, talvez devido à natureza do conteúdo. n/o/vel/b//in dot c//om
—"Mas quando esse período cansativo passar, então..."
Embora a alegria fosse visível em seus olhos, a expressão aparentemente fria em seu rosto voltou. Observando-o, Yuder estendeu a mão impulsivamente, ignorando os murmúrios de Kishiar. No momento em que sua mão inesperadamente tocou a bochecha pálida de Kishiar, ele parou de falar, como se tivesse sido atingido por um raio.
—"…Nada de errado, certo?"
Felizmente, uma voz firme, embora desajeitada, fluiu.
—"Acredito que você é capaz de lidar com isso. Mesmo que você tenha se tornado sensível devido ao ciclo, se preocupar demais pode ser prejudicial, então por favor, se abstenha."
Só então Kishiar olhou para a mão tocando sua bochecha esquerda. A sensação de força entrando em sua bochecha fria era estranhamente reconfortante.
’…Se alguém visse isso, me prenderiam na hora por uma blasfêmia absurda.’
A ousadia de tocar um membro da família imperial primeiro. Algum plebeus já ousara tal ato na história do império? Sentindo o suor em sua palma, ele pensou se deveria retirar a mão, assim como Kishiar deu um sorriso quase imperceptível, fechando os olhos.
Momentos depois, um calor frio envolveu a mão de Yuder. Kishiar, que colocara sua mão sobre a de Yuder, inclinando levemente a cabeça, apertou o aperto na mão de Yuder.
Era como se uma besta gigante estivesse esfregando a cabeça em sua mão. Antes que ele pudesse responder, uma voz fraca chegou aos seus ouvidos.
—"…Você está certo."
—"…"
—"Nada realmente acontece."
—"Sim, nada acontece neste nível."
Kishiar riu. Simultaneamente, calor inundou sua bochecha previamente fria. Era como se ele pudesse sentir a escultura de sua vida se transformar em uma pessoa viva através de sua mão. Talvez fosse essa a sensação.
—"Faz tanto tempo…"
A cada murmúrio semelhante a um suspiro, ele podia sentir o movimento dos lábios de Kishiar sob sua palma.
—"É muito mais quente do que eu imaginava."
Enquanto Kishiar movia lentamente a cabeça, seus lábios se aproximaram da mão de Yuder. Ele pensou em se afastar, mas o aperto firme em sua mão não enfraqueceu. Finalmente, Kishiar, com os lábios completamente contra a mão de Yuder, fechou os olhos e expirou.
Foi uma respiração fina, como se um pássaro finalmente tivesse encontrado um lugar para respirar.
—"…Comandante."
—"Só um pouco mais."
Assim que ele falou, os lábios de Kishiar se moveram dentro do aperto. Quando os dedos de Yuder se contraíram com a sensação de cócegas, ele pôde sentir tudo, até mesmo os contornos desenhados pelos lábios em movimento.
—"Suspiro…"
Somente após um tempo considerável, quando sua mão começou a ficar dormente, Kishiar soltou os lábios e relutantemente soltou sua mão, suspirando como uma besta cansada. Os lábios, visíveis mesmo na escuridão, estavam notavelmente ruborizados em comparação com antes. A visão era inesperadamente provocante, fazendo Yuder desviar o olhar instintivamente. Um riso fraco ecoou em seus ouvidos.
—"É hora de levantar."
Yuder, que estava prestes a perguntar se ele já estava indo embora, se assustou ao ver que a escuridão do lado de fora da janela havia clareado significativamente. Eles não tinham trocado muitas palavras, mas ele ficou surpreso com o tempo que havia passado.
—"Se nos demorarmos muito mais... Nathan perceberá minha ausência."
—"Assim que você voltar, descanse um pouco, mesmo que seja breve."
—"Tenho algo a dizer."
Seu rosto, murmurando desculpas por roubar o tempo de sono, relaxou ainda mais do que antes. Parecia que a tensão que ele havia estado suprimindo desde que suas mãos se tocaram finalmente havia diminuído.
—"Vou abrir a porta para você."
—"Tudo bem. Você não precisa me acompanhar..."
Enquanto ele falava, Kishiar, que foi o primeiro a se levantar, de repente cambaleou e se apoiou na mesa. O som de xícaras de chá chocando ecoou pela sala.
—"Comandante?"
Preocupado que algo estivesse errado com ele, Yuder pulou de surpresa, apenas para ver Kishiar, com a cabeça baixa e segurando a testa.
—"...Não é nada. Apenas uma onda repentina de sono."
—"Sono, você diz. Você não dormiu?"
—"Bem... eu não dormi muito ultimamente."
Ele estava prestes a perguntar se ele estava tendo problemas para dormir quando Kishiar, tentando dar um passo, vacilou novamente. Yuder se levantou rapidamente para apoiá-lo.
—"Não... mesmo que eu tenha dito que está tudo bem..."
Ele forçou a mão que tentava o afastar e colocou o braço em volta de seu ombro. Dada sua altura muito maior em comparação com a de Kishiar, até isso era um pouco desafiador.
—"Estamos bem agora. Vou te levar para o quarto do Comandante. Por favor, espere mais um pouco."
Mas antes mesmo que pudessem dar alguns passos, os joelhos de Kishiar cederam completamente. Ele não conseguia aguentar seu peso e ambos caíram.
’…Argh.’
Felizmente, seu uso instintivo da magia do vento amorteceu a queda e evitou qualquer lesão. Ele se levantou rapidamente e verificou Kishiar primeiro.
Seus olhos fechados, as bochechas ainda quentes, seu corpo firme... nada parecia fora do comum enquanto ele o examinava. Sua respiração regular e rítmica sugeria que ele simplesmente estava dormindo, não doente.
’…Mesmo que ele não tivesse dormido bem ultimamente, adormecer assim tão repentinamente.’
Ele havia estado agindo bem, mas claramente algo não estava certo. Ele suspirou pesadamente enquanto olhava para ele. Ele poderia usar sua magia do vento para movê-lo, mas o problema era que o amanhecer estava se aproximando. Como ele poderia ter certeza de que ninguém já estava acordado e se preparando para ir para o treinamento matutino? Se alguém o visse movendo o Comandante desmaiado de seu quarto, ele não sabia o que aconteceria.
’Devo levá-lo para minha cama por enquanto e relatar isso ao Nathan de manhã.’
Ele acenou com a mão, invocando uma rajada de vento, e gentilmente levantou o corpo de Kishiar e o colocou em sua cama. Depois de tirar seus sapatos de dentro e cobri-lo com um cobertor, ele achou a visão dele deitado ali um tanto desconcertante.
’Kishiar La Orr está dormindo na minha cama...’
Era uma visão absurdamente nova e desconhecida. Nem uma vez em sua vida anterior, nem nesta, ele o vira em um estado tão vulnerável.
’Agora que isso está resolvido, mas suas pernas são tão longas que ficam penduradas na cama... O que devo fazer?’
Ele não esperava se preocupar em dobrar suas longas pernas que pendiam da cama. Sentindo-se desconfortável com esse problema desconhecido, ele tentativamente colocou a mão na perna dele e, de repente, se sentiu tão culpado quanto um criminoso.