Turning

Capítulo 222

Turning

“Você pode explicar o que aconteceu?”

Para ser sincero, ele não queria responder. Mas tinha que fazê-lo.

Kishiar parecia disposto a passar a noite toda ali, sentado até Yuder falar. Só quando a sensação de ser esfaqueado por uma faca bem amolada atingiu o seu ápice devido ao silêncio de Yuder, ele finalmente moveu seus lábios ressecados para falar.

“Não funcionou.”

“Seu poder?”

Kishiar apontou precisamente a parte que Yuder havia deixado de mencionar. Yuder virou a cabeça, evitando o seu olhar.

“...Sim.”

“De jeito nenhum?”

“Eu consegui usar minha espada. Mas além disso…”

Kishiar ficou em silêncio. Sem palavras. O homem que tanto confiava no poder que possuía havia se revelado a coisa mais inútil da situação. Qualquer um acharia aquilo não só risível, mas patético. Yuder facilmente se lembrou de algumas coisas que tinha ouvido.

‘Você sabe quantos se machucaram por confiar em você?’

‘Esse cara inútil que não consegue usar nenhum poder é o Comandante Adjunto? Como você pode mostrar a cara para a Cavalaria agora? Você não está pensando em ficar por aqui, né?’

‘...Chegando aqui tão cheio de si. Isso te serve de lição!’

'...'

Com o estômago embrulhando de novo, ele decidiu parar de se lembrar. Em vez de esperar pelo que pudesse surgir ao final do silêncio de Kishiar, Yuder decidiu falar primeiro.

“Vou me afastar da situação assim que o dia raiar e vou renunciar ao meu posto de Comandante Adjunto. Aceitarei qualquer punição que você decidir me dar.”

“Você vai abdicar do seu cargo e se afastar?”

Kishiar questionou lentamente.

“Por quê?”

Uma voz rouca como areia prestes a ser levada pelo vento arranhou desconfortavelmente o ouvido de Yuder. Ele rangeu os dentes, continuou evitando o olhar de Kishiar e murmurou.

“Porque mais de dez pessoas ficaram feridas por causa da minha incapacidade de usar meu poder. Eu devo ser devidamente punido e responsabilizado.”

“Ninguém poderia ter previsto que seu poder não funcionaria. Se formos por esse caminho, eu, que te mandei, deveria ser o responsável e ser punido.”

‘Chega dessas palavras inaceitáveis! Quem aceitaria só porque você, o Comandante, disse?’

Ele engoliu a voz áspera que quase saltou de sua garganta.

“...Apenas me castigue.”

“Que tipo de punição posso dar a alguém com os braços quase decepados?”

‘Você está me perguntando que tipo de punição eu deveria receber?’

Yuder engoliu um suspiro, os olhos estreitados e fechados.

“Qualquer coisa serve. Me chicoteie em público ou me faça deixar a Cavalaria, por favor.”

Aquilo seria suficiente para finalmente silenciar as vozes furiosas. Gakane, que tinha grande respeito entre os outros membros, ou Ever Beck, que havia se provado dessa vez, seriam sucessores suficientes.

Se ele fosse demitido, teria que voltar para sua cidade natal sozinho… Mas e daí? Não parecia importar agora. Se ele não conseguisse carregar suas coisas com os braços, ele poderia mordê-las com a boca. E talvez esse fosse um final melhor para o homem à sua frente.

Ele talvez pudesse escapar daquela situação desconfortável e do clima estranho que sempre surgia quando eles ficavam sozinhos. Ele logo esqueceria a lembrança sombria de ter sido forçado a cometer um pecado imperdoável…

“Você está falando sério, Yuder Aile?”

“Sim.”

“Olhe para mim quando falar.”

Uma voz fria deu a ordem. Yuder, resistindo a princípio, conseguiu tirar o olhar do chão e direcioná-lo para Kishiar. Seu olhar penetrante e vermelho-vivo o fitava sem um traço de divertimento.

"Eu... eu estou falando sério."

Ele esperava que ele ficasse com raiva ou que o repreendesse duramente, não importando o quão fracas suas palavras pudessem ser. Mas, surpreendentemente, Kishiar não ficou com raiva.

"Mesmo sendo o primeiro Desperto, você só foi despertado há dois anos."

"..."

"Ninguém conhece o alcance de suas habilidades, ou quais limites existem. Nem mesmo eu entendo completamente as fraquezas do meu poder."

Yuder ficou sem palavras de repente. Enquanto olhava fixamente, Kishiar falou baixinho, mas com peso. n/o/vel/b//in dot c//om

"Você só está ciente disso antes dos outros. Considere-se com sorte."

"O que você quer dizer?"

"Houve 11 baixas na última batalha. Você é o único que ficou gravemente ferido e precisou de um sacerdote. Eu ouvi dizer que, quando percebeu que seu poder não funcionava, você segurou sua espada e lutou sozinho até que os reforços chegassem. Estou errado?"

"..."

Yuder cerrou os dentes novamente. Ele não sabia o que dizer.

"Mas."

"Seu poder não parou de funcionar completamente, não é? Você testou se ainda funciona em outros alvos?"

Ele não sabia. Após a batalha caótica, ele havia estado muito ocupado recebendo tratamento e procurando um lugar para descansar para testar tal coisa. Ele mal conseguiu pegar esse celeiro emprestado porque não havia santuários por perto.

Kishiar suspirou pesadamente enquanto Yuder balançava a cabeça lentamente. Ele pegou um punhado do feno que cobria o chão. Assim que Yuder se perguntou o que ele faria com aquilo, Kishiar silenciosamente deu uma ordem.

"Acende uma fogueira aqui."

"O quê?"

"Uma pequena fogueira serve."

Yuder estava cético sobre o que aquilo poderia fazer de bom, mas também duvidava se conseguiria fazer. Enquanto suas emoções mistas o deixavam hesitante, uma voz suave ressoou em seu ouvido.

"Tudo bem, rápido."

Isso mesmo. Que importância tinha se ele falhasse? Eles já haviam visto o pior um do outro, então não havia mais nada a perder.

Como guiado, ele desistiu e exerceu seu poder. Instantâneamente, chamas apareceram do nada. Uma pequena fogueira escarlate se espalhou pelo feno que Kishiar estava segurando.

Enquanto olhava para a chama facilmente criada, Kishiar sorriu suavemente. Era um sorriso diferente daquele quando se conheceram.

"Você consegue."

Ele murmurou enquanto olhava para a pilha de feno que rapidamente se transformou em cinzas. Yuder foi tomado por emoções estranhas e não conseguiu abrir a boca facilmente. Depois de um tempo, Kishiar, que havia estado olhando para as cinzas em sua luva branca, chamou seu nome.

"Yuder Aile."

"Sim?"

"Vou te dar uma tarefa. Se você resolver, esqueceremos esse incidente e você manterá seu posto."

"Que tarefa... você está falando?"

"Encontre dez maneiras de limpar essas cinzas para que elas fiquem invisíveis."

Enquanto falava, Kishiar virou a palma da mão. Sua voz enigmática pousou sobre a cinza negra amontoada no chão.

"No entanto, quaisquer métodos diretos que envolvam ações físicas devem ser excluídos. Use apenas seu 'poder'."

"O que você quer dizer..."

"Esta é a sua punição. Você não precisa de mais nada."

E no momento em que a mão que se aproximava cobriu seus olhos confusos, a escuridão envolvente se desdobrou, e sua consciência se esvaiu…


“...”

Mais uma vez, Yuder abriu os olhos. Somente depois de ver o teto familiar dos aposentos da Cavalaria ele percebeu que o que acabara de acontecer era um sonho de sua vida passada. Esfregando a cabeça latejante, ele sentou-se e viu vagamente a janela ainda escura.

Incapaz de voltar a dormir mesmo fechando os olhos novamente, ele levantou-se e bebeu um pouco de água. Embora não devesse ser diferente da água que ele bebeu em seu sonho, deixou um gosto amargo em sua boca por alguma razão desconhecida.

‘Estou tendo sonhos estranhos.’

Ele se perguntou se era por causa da tensão que sentia, considerando que estava prestes a partir para o Oeste em breve. A imagem vaga de Kishiar de seu sonho pairou em sua mente.

As lembranças daquela época permaneceram bastante vívidas mesmo agora. Foi uma experiência muito memorável, afinal. Foi a primeira vez que ele percebeu que seu poder não afetava nada além do que nasceu e cresceu neste mundo.

Alguns dias depois de receber uma tarefa incomum do Kishiar que chegou atrasado, Yuder finalmente entendeu o verdadeiro significado de suas palavras. Ele percebeu que a única maneira de alcançar seus objetivos não era apenas queimando ou matando coisas diretamente como havia feito antes.

Não importava se seu poder direto não funcionasse contra monstros. Se seus corpos se deteriorassem, eles estavam destinados a morrer. E Yuder tinha o poder de mover a própria natureza para desmoronar até mesmo as criaturas maiores e mais resistentes.

Graças a isso, na próxima batalha, Yuder conduziu centenas de monstros para um vale estreito com a ajuda de outros. Ele obteve uma grande vitória ao desmoronar todo o penhasco. Várias paisagens no Oeste mudaram devido a isso, e foi considerada uma batalha histórica que seria registrada nos livros de história, ajudando-o a ganhar o título de Conde.

Dessa forma, após algumas aparições, Yuder dificilmente participou diretamente de batalhas devido a uma verificação intensa, mas sua experiência daquele dia continuou sendo de grande ajuda mesmo depois que ele se tornou um Comandante.

Yuder olhou para sua mão, apertando-a e soltando-a levemente. Como ele não se deu ao trabalho de usar luvas ao dormir sozinho, sua palma, pontilhada de pequenas manchas, era claramente visível. Observando as pontas dos dedos ásperas, marcadas por vários trabalhos que ele havia feito desde a infância, ele de repente se lembrou da mão enfaixada que viu em seu sonho.

‘Pensando bem, aquele ferimento… Era sério, considerando agora.’

Ele nunca tinha pensado sobre isso antes, mas vendo-o novamente no sonho, era surpreendente que não houvesse sequelas, dada a gravidade da condição. Foi um ferimento infligido por um monstro, um inimigo natural de suas habilidades, e até Kishiar chegar, ele apenas o havia enfaixado sem receber tratamento adequado. Mesmo que fosse tratado depois, havia uma grande chance de não se recuperar totalmente, mas como cicatrizou tão bem?

Os templos que ele visitou depois também não pareciam tê-lo curado bem. Eles eram relutantes em usar a água sagrada que Kishiar havia obtido de outras regiões nos membros da Cavalaria.

‘Naquela época… Como foi o primeiro ferimento, eu só achei que me recuperei mais rápido que os outros.’

Depois de se tornar Comandante, os ferimentos que ele recebeu ao lidar com monstros por motivos semelhantes cicatrizaram muito mais lentamente do que outros ferimentos, e as cicatrizes não desbotam facilmente.

"..."

De repente, Yuder enrijeceu os ombros.

‘Será?’

Ele não sabia na época, mas havia uma informação que ele tinha agora. O fato de Kishiar poder usar poder divino.

Se sua recuperação completa não fosse uma coincidência, a única explicação plausível era essa.

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