48 horas por dia

Capítulo 917

48 horas por dia

Dez horas atrás, as Asas Sombrias de Zhang Heng desapareceram, com vários monstros ainda agarrados ao seu corpo. Em seguida, ele caiu de novo no mar, sob a força da gravidade. Sua presença havia enlouquecido as criaturas abaixo, como se estivessem esperando o início de um carnaval. No instante em que Zhang Heng mergulhou, elas o atacaram como loucas. Em menos de meio segundo, sua visão ficou obstruída; braços, peito, costas e pernas cobertos pelos monstros.

Como os monstros de trás chegaram atrasados, não havia espaço para se agarrarem e só conseguiram se pendurar nos companheiros. No fim, Zhang Heng estava completamente envolto em camadas de monstros. A Concha da Betty não ajudaria muito em uma situação tão crítica, pois os monstros estavam muito próximos.

O que mais surpreendeu Zhang Heng foi que os monstros não o atacaram imediatamente após o bote. Ao contrário, guardaram cuidadosamente dentes e garras, como se temessem machucá-lo acidentalmente.

Ao mesmo tempo, o levaram para o fundo do oceano. Ele não conseguia verificar o computador de mergulho porque a visão estava bloqueada, mas sentia que estava descendo cada vez mais fundo.

Zhang Heng fez uma estimativa rápida do ar comprimido restante no cilindro: provavelmente só restavam algumas barras, o suficiente para mais dois minutos de respiração, no máximo.

Mesmo calculando o tempo que aguentaria a respiração, a situação não era boa. Embora Zhang Heng permanecesse calmo, teve que admitir que suas chances de sobrevivência não eram grandes. Depois de mais um minuto e meio, a respiração ficou ofegante. Mesmo que os monstros o soltassem, não haveria ar suficiente para nadar até a superfície.

Mas, nesse momento, Zhang Heng desistiu completamente de lutar, relaxando o corpo e deixando que os monstros o levassem a um local desconhecido. Após cerca de meio minuto, ele parou de se mover, e os monstros ao seu redor pareciam diminuir.

Quando os monstros se afastaram, Zhang Heng viu uma cena familiar: estava de volta ao palácio subaquático.

Mas, ao contrário da vez anterior, estava encostado na cúpula central do palácio. Não muito longe, dois tronos vazios; atrás dele, enormes esculturas de pedra parecidas com astrolábios. O grupo de monstros que o trouxera recuara para um lado, observando-o de um ponto mais baixo, como se temessem que escapasse, ainda o cercando.

Zhang Heng achou que estavam exagerando, pois seu computador de mergulho apitava freneticamente. O ar comprimido do cilindro estava totalmente esgotado. Em outras palavras, Zhang Heng não podia ir a lugar nenhum; só podia ficar naquele imenso palácio subaquático e aguardar a morte.

A boa notícia era que não morreria sozinho, cercado por muitos monstros. A má notícia era que não encontraria os verdadeiros donos dos tronos no último momento de sua vida. Zhang Heng suspeitava que pelo menos um deles tinha algo a ver com seus encontros anteriores naquela cidade litorânea nebulosa. Mas agora, isso já não importava.

Devido à falta de oxigênio, a consciência de Zhang Heng começou a se esvair. Ele olhou para o enorme mapa astrológico atrás dele, perguntando-se se era uma alucinação antes da morte. Parecia que o mapa estava girando lentamente.

Ele queria observá-lo melhor, mas o corpo não permitia. Então, usando o último fio de força, removeu o respirador da boca e fechou os olhos. No momento seguinte, sentiu-se de volta ao útero materno.

Uma sensação de tranquilidade e segurança incomparáveis. Não precisava mais respirar pelo nariz e pela boca. Parecia haver uma ligação invisível com o mar; o oceano inteiro havia se tornado sua placenta.

Zhang Heng até começou a pensar que o mar era sua origem, e não a terra. A água azul o envolvia suavemente; todos os poros se expandiam na água.

Ele nem se lembrava de quanto tempo havia passado.

Inicialmente, Zhang Heng pensou que era uma alucinação final antes da hipóxia cerebral. Dizem que toda a vida na Terra surgiu do oceano, e os humanos não são exceção. Na morte, a alma retorna ao lugar de origem.

No entanto, ao abrir os olhos novamente, percebeu que não havia entrado no céu nem no inferno. Estava ainda no palácio subaquático. A única mudança era que a forte sensação de sufocamento causada pela falta de oxigênio havia desaparecido, substituída pela maravilhosa sensação de respirar novamente.

Zhang Heng hesitou e tirou a máscara. Seus olhos não sentiam irritação ou desconforto. Viu que os monstros meio-homem-meio-sapo-peixe próximos sorriam ao vê-lo abrir os olhos.

Mas não tinham intenção de abrir caminho para ele. Permaneciam em círculo, cercando-o. Ao mesmo tempo, o mapa astrológico ainda se movia lentamente, e Zhang Heng sentia-se diferente da chegada anterior ao palácio.

Zhang Heng percebeu vagamente que as mudanças em seu corpo provavelmente estavam conectadas ao mapa astrológico que girava atrás dele. Fazia sentido que esse mapa lhe concedesse a capacidade de respirar e se mover debaixo d’água. Ele pensou em esperar até que a rotação terminasse.

No entanto, sentiu uma ameaça iminente se aproximando. Se esperasse o mapa parar, as coisas ruins que antecipava provavelmente aconteceriam em seguida.

Assim, tomou uma decisão decisiva: sair do palácio subaquático.

Tirou a Concha da Betty do bolso. Antes, não teve chance de usá-la, mas agora, finalmente, era útil.

Logo, o mar calmo tornou-se violento. Han Lu, que estava no hotel, foi avisada pela recepção de que uma tempestade poderia atingir a ilha à noite. A equipe pediu que ela fechasse bem todas as portas e janelas.

A Concha da Betty consumiria a raiva do usuário e criaria uma tempestade no mar. No entanto, por mais poderosa que fosse, o poder destrutivo reduziria gradualmente nas profundezas, até desaparecer completamente.

Mas Zhang Heng percebeu que não precisava fornecer muita raiva à Concha ao ativá-la. Sua área de efeito se expandira da superfície do mar até o fundo.

Zhang Heng pôde até direcionar as correntes oceânicas para afastar alguns monstros próximos, abrindo uma brecha no cerco. Aproveitou a oportunidade e deixou rapidamente o cerco pelo vão, com a ajuda da correnteza subaquática.

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