48 horas por dia

Capítulo 862

48 horas por dia

Décio nunca tinha ido ao Distrito Leste antes, mas tinha ouvido muito sobre o lugar. Até mesmo o cocheiro hesitou um pouco em levá-los quando soube que Zhang Heng e Décio queriam ir até lá. No fim, Zhang Heng teve que pagar uma tarifa extra para convencê-lo.

Durante a viagem, Décio ficou calado, sem dizer uma palavra. Mas assim que desceu da carruagem, não conseguiu se conter:

“Você não disse que queria descobrir quem está por trás de Cobb? Por que estamos aqui? Pelo que sei, todo mundo que vive nesse lugar é criminoso, vilão ou indigente. Não acho que exista alguém aqui capaz de controlar Cobb.”

“Sim, você está certo, mas eles são nosso alvo.”

“Como assim? Você está dizendo que nossos alvos são os criminosos e vilões?”, perguntou Décio, confuso.

“Não. Nosso alvo são os pobres daqui.”

“Os pobres?”

“Sim, eu já te disse. Minas como essas precisam de muita mão de obra. Só os escravos não são suficientes. Além disso, um escravo forte, saudável e capaz não é barato. Se o escravo morre, o dono perde muito dinheiro. Já se eles contratarem os pobres, não precisam se preocupar com isso.”

Décio finalmente entendeu: “Você quer encontrar os pobres que trabalharam na mina?”

“Isso mesmo.” Zhang Heng assentiu.

Mas Décio logo franziu a testa novamente: “Mas esse lugar é imenso e caótico. Como vamos encontrar pessoas que trabalharam na Mina Binota antes?”

“Isso não é problema seu”, disse Zhang Heng, com um gesto de mão. Um garoto que brincava com seus amigos na rua correu rapidamente até Zhang Heng. Ao ver Zhang Heng se aproximando, tentou fugir, mas não conseguiu. No fim, teve que se aproximar obedientemente.

Zhang Heng sussurrou algumas palavras em seu ouvido e colocou uma moeda de cobre na palma de sua mão.

O garoto pegou a moeda e saiu correndo.

“Ah… não acho que ele vai voltar.” Décio observou o garoto correndo.

“Não vai mesmo.” Zhang Heng concordou.

“E o que fazemos agora?”

“Você pode dar uma volta, aproveitar… Eu vou visitar um amigo para ver se encontro outras fontes de cobre. Gosto de ter planos B. Nos encontramos mais tarde na taverna Baía das Águas Negras. Lá, encontraremos os trabalhadores da mina”, disse Zhang Heng.

“Eu… eu acho que não deveríamos nos separar.” Décio se assustou, suando frio. Nem teve tempo de perguntar como Zhang Heng encontraria mineiros na Baía das Águas Negras. Ansioso, apressou-se a dizer: “Você não é romano. Talvez por isso não saiba o quão louco esse lugar é. Fabino, da família Coruna, foi contratado para avaliar esse lugar. Ele trouxe dois guardas quando veio pela primeira vez. Mas acabou sendo assaltado na rua, espancado… até o anel de noivado perdeu! Você é o campeão gladiador do Anfiteatro Flávio, talvez não tenha medo dessa gente, mas se nos separarmos, não sei se eu o verei novamente.”

“Relaxa, amigo, você veio comigo, muita gente na rua viu. Ninguém vai te encher. Eu prometo”, disse Zhang Heng.

“Como garante isso?” Décio não acreditou. Agarrou sua bolsa com força, desconfiando de todos. Não conseguia evitar a sensação de que bandidos surgiriam do meio da multidão, o atacando e roubando tudo.

Zhang Heng não sabia o que fazer. Felizmente, nesse momento, eles cruzaram com uma patrulha, composta por homens experientes liderados por dois oficiais. Zhang Heng os parou e pediu que acompanhassem Décio. Com isso, Décio finalmente concordou em se separar.

Mesmo assim, Décio não ousou andar sozinho. Pediu aos patrulheiros que o levassem imediatamente para a delegacia. Quando viu que o tempo estava acabando, pediu que o escoltassem até a taverna Baía das Águas Negras.

Décio tremia de medo o tempo todo. Baixou a cabeça, olhando para os sapatos, com medo de cruzar o olhar com a pessoa errada. Ao chegar na taverna, viu inúmeros homens de aparência ameaçadora, gente com quem não era bom se meter. Sentiu-se como um coelhinho branco em meio a uma matilha de doninhas.

Em seguida, Décio pediu uma taça de vinho e procurou um canto para se esconder. Felizmente, Zhang Heng apareceu na entrada da taverna antes que ele esperasse muito.

Décio achou que estava alucinando. Quando Zhang Heng entrou, todos ficaram quietos por um instante. Ninguém ousou emitir um som. Só quando Zhang Heng fez um gesto a taverna voltou a ficar animada. Depois, Zhang Heng foi até a mesa de Décio e sentou-se.

“Já terminou seus negócios?”

“Sim”, respondeu Zhang Heng.

“Como foi? Conseguiu outras fontes de minério de cobre?”, Décio parecia muito preocupado. Afinal, ninguém sabia quando a Mina Binota voltaria a operar. Isso afetava diretamente a capacidade de Décio cumprir a tarefa de Cômodo.

“Não foi fácil. Recentemente, alguém tem comprado minério de cobre secretamente em Roma. O preço disparou, mas esse não é o maior problema. O principal é que parece ter acabado o estoque em todo lugar.”

“Quer dizer que só podemos contar com a Mina Binota?”, Décio pareceu frustrado.

“Então é isso.” Zhang Heng pegou o vinho que pediu da garçonete. Sua expressão era tão ansiosa quanto a de Décio.

Naquele momento, dois homens com roupas velhas e desgastadas, de semblante sério, entraram na taverna, indo direto para Zhang Heng. O mais velho perguntou: “Vocês estão nos procurando?”

“Sim, sentem-se.” Zhang Heng apontou para as cadeiras em frente a ele. Tirou duas moedas de ouro e as jogou para os homens. “Não fiquem nervosos. Só quero fazer algumas perguntas. Respondam com sinceridade. Essa é a recompensa.”

“Espere, quem são eles?”, perguntou Décio, surpreso.

“Somos trabalhadores da Mina Binota.”

O mineiro mais velho ficou radiante ao receber as moedas de ouro de Zhang Heng. Agradeceu e respondeu. Era uma quantia enorme para a maioria dos moradores da cidade sudeste. Ao recebê-la na frente de todos, ele deveria se preocupar em guardá-la antes que alguém a pegasse. Mas como Zhang Heng era quem a dava, ninguém ousaria tomar de volta.

Décio, por outro lado, ficou nervoso. Pediu aos dois que guardassem as moedas brilhantes e olhou em volta para garantir que ninguém os observava antes de falar.

“Vocês são mineiros da Mina Binota? Mas como isso é possível?”, Décio olhou para Zhang Heng. “Você os achou com uma simples moeda de cobre?”

“Claro que não. Não gastei um único cobre. É meu símbolo”, disse Zhang Heng, pegando a moeda de cobre da mão do mineiro mais velho. Essa moeda fora dada à escrava por Cômodo, mas o imperador depois descartou essa versão, derretendo as restantes e cunhando novas. Zhang Heng usou essa única moeda de cobre como seu símbolo. Basicamente, quem a tivesse se tornaria seu mensageiro.

E em toda a cidade sudeste, ninguém ousaria ignorá-lo.

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