
Capítulo 808
48 horas por dia
Sendo um gladiador de fora de Roma, Terufelos sempre sofreu preconceito dos gladiadores da cidade. Sartonilos, porém, valorizava muito sua força e até mandou alguém convencê-lo a se juntar ao seu plano. Depois de um tempo, Sartonilos desistiu, sem obter resposta. Portanto, Terufelos não participou do atentado da noite anterior.
Ao entrar na sala de descanso na madrugada, Terufelos se assustou com o clima estranho. A atmosfera ali sempre fora hostil. Ele sabia que Sartonilos vinha recrutando outros gladiadores para eliminar Zhang Heng. Como de costume, Zhang Heng entrou calmamente. Se fosse um dia antes, teriam sacado suas espadas sem hesitar. Terufelos sentia a tensão no ar.
Mas hoje, a tensão havia sumido.
Terufelos ficou perplexo. Ao olhar para Sartonilos, viu-o desanimado e nervoso, como um novato prestes a entrar na arena pela primeira vez. Mexia-se inquieto, tocando nas coisas ao redor.
“Que diabos está acontecendo?”, Terufelos franziu a testa. Após as rodadas anteriores de eliminação, só restavam os melhores gladiadores. O ápice do espetáculo estava próximo. As cartas na manga de cada arena se enfrentariam. Apesar disso, Sartonilos parecia despreparado para a batalha final, distraído.
E ele não era o único. Vários outros gladiadores se comportavam da mesma forma, incluindo campeões como Danaos e Aixoys. Pareciam fracos, como se não tivessem dormido bem na noite anterior.
Zhang Heng, por outro lado, permanecia calmo. Nada parecia tê-lo afetado na noite passada. Para Terufelos, era um homem colossal. Ele havia ouvido falar dos gloriosos feitos de Zhang Heng, que além de lutar contra um bisonte desarmado, conseguia terminar suas lutas quase instantaneamente. Ninguém havia conseguido mais de dez movimentos contra ele. Para um veterano renomado como Terufelos, não fazia sentido que Sartonilos tivesse perdido a coragem de lutar contra Zhang Heng.
Ontem, Sartonilos e os outros começaram a se afastar de Zhang Heng por estarem tramando contra ele. Agora, Terufelos sentia que o evitavam por medo.
Era como o medo instintivo de um rato diante de um gato.
Entre eles, Bach estava pior. Ele e Zhang Heng vinham da mesma arena, mas estava sentado bem longe, pálido, como se não tivesse sangue nas veias. Mantinha a mão direita sobre o peito.
Terufelos não conseguia entender o que havia acontecido. Em apenas uma noite, quase todos os gladiadores mudaram para pior. De repente, alguém o esbarrou pelas costas. Antes que Terufelos pudesse dizer algo, a pessoa, apavorada, começou a pedir desculpas.
Ao se virar, Terufelos viu o nariz inchado de Murkazan. Surpreso, perguntou: “O que aconteceu com sua cara?”
“Eu… eu… eu caí”, Murkazan insistiu que fora um acidente. Não só por medo de Zhang Heng, mas também porque sabia que, se suas ações da noite anterior fossem descobertas, seriam severamente punidos pelas autoridades. Ao perceberem que não eram fortes o bastante para derrotar o oponente, decidiram eliminá-lo fora da arena. Isso significava desafiar a regra de ferro do organizador do espetáculo, que era o imperador de Roma.
Esse problema não seria relevante se Zhang Heng estivesse morto. Infelizmente, ele estava vivo. A cada lembrança da noite anterior, Murkazan queria chorar. Inicialmente, queria eliminar a maior ameaça do espetáculo. Mas não só falharam, como agora achavam que haviam se metido com um deus.
A encarnação dos deuses era uma lenda antiga. Além dos semideuses, aparentemente nenhum humano poderia derrotar tal entidade.
“Você caiu?”, o olhar de Terufelos era cheio de desconfiança. “Quantas vezes você teve que cair para perder metade dos dentes?”
Murkazan ficou sem palavras, apenas sorrindo sem graça. Felizmente, o constrangimento não durou muito. Logo, o escravo aleijado, encarregado de receber gladiadores de diferentes escolas, entrou novamente. “Preparem-se. Depois da apresentação do domador de feras, todos lutarão a batalha final.”
Terufelos assentiu, erguendo o tridente. “Estou pronto para mostrar minha força”, proclamou.
Com Zhang Heng presente, os outros gladiadores não ousaram falar em campeonato. Terufelos estranhou a falta de reação ao seu discurso motivador. Sartonilos e os outros estavam quase mortos de medo. Terufelos começou a pensar se estavam chorando pela morte das esposas deles na noite anterior.
Mas por mais que Sartonilos e os outros gladiadores não quisessem, não havia como evitar a batalha final. Zhang Heng se levantou, e o tempo na sala de descanso pareceu parar por um segundo. Então, ele pegou suas duas espadas persas.
“Nos vemos na arena.”
Bach, do outro lado, sorriu e colocou o capacete.
No elevador, os gladiadores conscientemente deixaram o lugar central para Zhang Heng, sabendo que ele seria o foco da atenção. Zhang Heng era provavelmente o primeiro gladiador a conquistar o Anfiteatro Flavio antes do fim do espetáculo.
O lugar ao lado de Zhang Heng deveria ser reservado a Sartonilos, um forte candidato ao título. Além de Terufelos e Bach, que ficaram ao lado de Zhang Heng, Sartonilos, Danaos e outros insistiram em ficar na extremidade, os olhos fixos nos movimentos de Zhang Heng. Estavam tão nervosos que pareciam prontos para pular do elevador e fugir se ele fizesse um movimento.
Apesar de várias pessoas os separarem de Zhang Heng, a ansiedade era evidente.
Terufelos queria perguntar se Zhang Heng poderia voar até eles estando tão longe. No momento seguinte, o elevador começou a subir. Os escravos puxavam os guinchos, levando os protagonistas do dia do subterrâneo sombrio para a arena.
Os 90.000 lugares do Anfiteatro Flavio estavam lotados, e os coloridos cetins nas colunas esvoaçavam ao vento, produzindo um som agradável. Multidões sem ingressos se aglomeravam do lado de fora desde cedo, para testemunhar o nascimento da lenda.
Toda Roma estava vazia naquele dia.
Nem mesmo no auge de Sethnets tal cena havia sido vista. Quando os setenta e dois gladiadores finalmente apareceram na arena, o Anfiteatro Flavio foi inundado pelos aplausos da multidão.