
Capítulo 547
48 horas por dia
Quando Yamada desembainhou a espada, todos se espalharam para se afastar; mas quando Akane Koyama interveio e bloqueou a espada de Yamada, as pessoas permaneceram, observando de longe.
Incapaz de concluir o que havia começado, o humor de Yamada piorou. Pior ainda, a pessoa que se interpôs em seu caminho era uma mulher. Ele berrou: "Será que os dojos estão tão falidos agora que aceitam qualquer um?! Uma vergonha danada!"
A jovem garota se manteve firme. "Na minha opinião, é o Domínio de Choshu que está indo ladeira abaixo — seus samurais são especialistas em intimidar garotinhas na rua." O rosto de Yamada escureceu, sua voz trêmula. Ele estava tão furioso que poderia literalmente matá-la a qualquer momento.
"Ei, mulher... você acabou de insultar nossos samurais de Choshu?"
Contrariamente ao que muitos acreditavam, o Shogunato havia imposto inúmeras restrições aos samurais durante o período Edo — eles não tinham permissão para matar civis simplesmente porque estavam insatisfeitos. De acordo com o Artigo 71 do "Kujikata Osadamegaki" de Tokugawa Yoshimune, um livro de regras para funcionários públicos, os samurais tinham o direito de atingir qualquer indivíduo de classe inferior com a espada (e evitar punição) quando sua reputação havia sido manchada por comportamento grosseiro.
As regras para assassinatos por desrespeito eram descritas em detalhes no livro. Primeiro, na maioria dos casos, os samurais só tinham permissão para matar civis em seu próprio território daimyo[1] (e os daimyo não gostavam de ter seus próprios civis assassinados). As chances de civis serem mortos em Edo[2] e Kyoto eram altas (Havia até mesmo civis de Edo ávidos por esportes radicais que deliberadamente provocavam os samurais). Segundo, os samurais não tinham permissão para trazer à tona velhas desavenças. Se fossem insultados ontem, matar o agressor hoje era proibido. Terceiro, se a parte contrária se desculpasse, os samurais também eram proibidos de matar aquela pessoa. Então, depois de um assassinato, esperava-se que os samurais fossem submetidos a uma investigação e inquérito minuciosos. Se o relatório do samurai fosse falso, ele seria imediatamente privado do status de samurai. Claro, se não houvesse testemunhas ou se o crime fosse cometido por um Ronin veloz, isso era outra história.
Então, estritamente falando, a tentativa de Yamada de matar as garotinhas era mal fundamentada. Se ele não tivesse bebido tanto naquela noite, ele não teria desenbainhado seu tachi, especialmente não em plena luz do dia.
Mas a situação havia tomado um rumo diferente.
Essa jovem que havia aparecido do nada era insolente. Yamada poderia estar bêbado como um lorde, mas seu cérebro ainda funcionava razoavelmente. Assim que a mulher falou, no entanto, ele começou a usar a carta de "insultar um samurai de Choshu". Dessa forma, quando a eliminasse, ele teria algo para atestar suas ações mesmo que fosse investigado.
Akane Koyama percebeu que talvez tivesse se expressado de forma muito insolente, mas antes que pudesse dizer algo, a garota ao lado de Chiyo começou a chorar.
Ela estava tão aterrorizada que ficou paralisada por um bom tempo, sem mostrar nenhuma reação.
"Saiam da frente!" Agora que Yamada tinha um novo alvo, ele não se incomodou em lidar com as duas pirralhas. Ele empurrou a garota chorona, jogando-a no chão. Imediatamente, Chiyo correu para ajudar sua amiga. Depois de se certificar de que sua amiga não estava machucada além de um arranhão na palma da mão, Chiyo voltou seus grandes e bonitos olhos para Akane Koyama, parecendo preocupada.
Yamada levantou sua arma novamente. Embora ele falasse com desprezo para a garota do dojo, ele não ousou subestimá-la porque ela conseguira bloquear seu ataque.
A arte da espada de Akane Koyama havia sido passada a ela por seu pai, o dono do Dojo Koyama, um lugar onde ela praticamente cresceu. Em seu auge, as pessoas costumavam visitar para trocar ideias; portanto, Akane desenvolveu um olhar aguçado e conseguia dizer se alguém era realmente bom apenas segurando a espada.
Embora esse guerreiro de Choshu parecesse rude e implacável, ele não era só fachada. Sem mencionar que Akane Koyama só trazia uma espada de madeira, então essa luta não seria fácil para ela. Mais espectadores começaram a se aglomerar na área. Matsuo e Takahashi estavam começando a sentir o calor. Os Shinsengumi poderiam estar por perto e aparecer a qualquer momento, e seria inútil mesmo que Yamada vencesse a luta porque sua oponente era apenas uma mulher humilde. De qualquer forma, se ele perdesse, não seria apenas ele, mas todo o Domínio de Choshu seria envergonhado.
Matsuo e Takahashi trocaram olhares nervosos, ambos se perguntando se deveriam simplesmente derrubar Akane e depois arrastar Yamada com eles. No entanto, um par de olhos caiu repentinamente sobre Matsuo. Sentindo o perigo, Matsuo olhou para cima para encontrar o olhar da pessoa. Ele estava vestido como um ronin; ele viu Matsuo olhando de volta para ele e girou a espada em sua mão enquanto a segurava mais firme. O aviso era óbvio.
Matsuo amaldiçoou sua má sorte. Ele não era um lutador tão habilidoso quanto Yamada. Tudo graças a não ter sido aceito em seu antigo emprego que ele relutantemente se juntou ao Tobaku, pensando que quando o shogunato fosse derrubado, um veterano como ele pelo menos seria nomeado para algum tipo de cargo oficial. Era quase o mesmo caso para Takahashi — geralmente, a dupla apenas seguia Yamada e aproveitava o que encontrava. Quando eles realmente tinham que arregaçar as mangas e lutar, não havia garantia de que venceriam, mesmo que fosse dois contra um.
Embora o cara que o olhava parecesse pobre e desgrenhado, seu olhar era feroz e intenso. Matsuo tinha certeza absoluta de que aqueles que nunca haviam derramado sangue antes nunca teriam esse olhar nos olhos.
Será que ele era um bandido que havia fugido para Kyoto depois de assassinar alguém?
Para se protegerem, Matsuo e Takahashi decidiram ficar onde estavam e não se mexer.
Do outro lado, Yamada e Akane estavam focados na luta, sem mais prestar atenção ao que os rodeava. Uma das especialidades de Yamada era uma técnica de espada chamada Oishi Shinkage-ryū, que se originou do Shinkage-ryū e foi concebida por Oishi Susumu. Dizia-se que Oishi certa vez desafiou todos os dojos em Edo usando uma espada de bambu e saiu invicto. A principal característica do Oishi Shinkage-ryū era um ataque de alta velocidade com a mão esquerda.
A mão esquerda de Yamada era rápida e persuasiva como um raio. Por outro lado, a área de especialização de Akane Koyama era passada por seu pai, principalmente posturas defensivas. Não havia golpe que ela não pudesse bloquear com sua espada de madeira.
Esta foi a primeira vez que Zhang Heng testemunhou uma luta de espadas de samurais. As habilidades de luta com espada de Akane e Yamada eram inferiores às dele. De acordo com seus cálculos, Yamada estava no início do nível 2, e Akane deveria estar no auge do nível 1.
Mas como um deles estava embriagado e o outro tinha uma espada de madeira, nenhum deles conseguia usar suas habilidades ao máximo. Em comparação, Yamada era ligeiramente mais afetado. Embora Zhang Heng não soubesse qual escola de técnica de esgrima ele empregava, ele podia dizer que Yamada era um especialista em ataques de velocidade, algo que exigia grande agilidade e precisão magistral. Agora, ele mal conseguia andar em linha reta.
Em contraste, as circunstâncias de Akane Koyama eram um pouco melhores. Sua arma era uma desvantagem, e sua esgrima carecia de versatilidade, mas como ela era do tipo que escolhe o caminho mais seguro. Na opinião de Zhang Heng como um espadachim expert, a luta não era tão perigosa quanto parecia.
[1] Daimyo: (no Japão feudal) um dos grandes senhores que eram vassalos do shogun.
[2] Edo: antigo nome de Tóquio.