48 horas por dia

Capítulo 546

48 horas por dia

O Japão atravessava tempos conturbados, sem paz nem ordem em todo o país. As águas turbulentas geravam muitas oportunidades de trabalho, especialmente para os samurais. Devido à incerteza da situação nacional, os clãs mudavam seus métodos, recrutavam tropas, compravam cavalos, economizando ativamente o máximo possível enquanto aguardavam o futuro. Era ainda um período muito melhor do que o tempo após a Restauração Meiji, quando o Édito de Abolição da Espada foi emitido. A medida fez com que os samurais perdessem seus empregos da noite para o dia e suas espadas fossem confiscadas.

Principalmente para aqueles muito habilidosos, havia o luxo de escolher seus empregadores, sendo aquele que oferecesse o maior pagamento – tanto os partidários do shogunato quanto os do Tōbaku* estavam ativamente em busca de mão de obra.

Zhang Heng, no entanto, não estava interessado em seguir esse caminho. Uma vez que ele se juntasse a um estabelecimento em particular, comida e roupa não seriam um problema, mas, para isso, ele teria que abrir mão de sua liberdade. Essa era enfatizava fortemente a obediência absoluta dos *kashindan* aos seus senhores. Se lhe fosse atribuída uma tarefa que ele não quisesse fazer, nunca poderia recusar. Se o fizesse, seria enviado para a linha de frente.

O outro objetivo da missão de Zhang Heng para essa jornada era encontrar uma espada que lhe servisse e pudesse desafiar um samurai habilidoso. Seria uma excelente oportunidade para aprimorar suas habilidades com a espada. Então, seja o Shogunato Tokugawa ou o Domínio Satsuma, ele não queria se vincular a nenhum dos lados. Por enquanto, a melhor linha de ação era improvisar.

Na verdade, ele não precisava depender apenas de seu status de samurai para ganhar a vida. Muitos comerciantes estrangeiros estavam em Kyoto, e Zhang Heng dominava várias línguas estrangeiras. Em qualquer período, tradutores eram sempre um recurso escasso. Ele poderia ganhar dinheiro fazendo traduções para comerciantes estrangeiros, e também não faria mal poder viajar por Kyoto gratuitamente.

Tendo tomado sua decisão, Zhang Heng decidiu ir para o píer. Estava ficando tarde, e se ele não conseguisse um emprego antes do pôr do sol, poderia passar a noite dormindo ao relento nas ruas. Zhang Heng estava prestes a sair quando ouviu alguém chamando: "Com licença, meu senhor, gostaria de comer um pouco de enguia grelhada?"

Zhang Heng olhou para baixo e viu um rostinho tímido olhando para ele. Era uma menina de cerca de doze anos carregando uma marmita. Embora ela tivesse reunido toda a coragem que tinha, ela ainda parecia um pouco nervosa. Aquelas pequenas mãos segurando o recipiente de comida tremiam.

Mas antes que Zhang Heng pudesse dizer alguma coisa, sua companheira, que parecia um pouco mais velha que ela, a puxou para longe.

Esta sussurrou, mas Zhang Heng ainda conseguiu entender algumas palavras.

“Pssst. Chiyo, não provoque o rōnin. Eles são perigosos!”

A menina chamada Chiyo lançou um olhar para Zhang Heng. Enquanto as duas meninas tentavam escapar de Zhang Heng, o "homem perigoso", elas se depararam com um transeunte.

A companheira de Chiyo olhou para cima, e a cor esvaiu-se de seu rosto enquanto ela gaguejava: "D... Desculpe, eu não o vi." "Pequena bandida!”

A pessoa com quem elas se esbarraram também estava vestida como um guerreiro, exceto que ele tinha uma postura muito mais intimidadora que a de um rōnin. Esse guerreiro tinha dois companheiros com ele, parecendo que tinham bebido um pouco demais – provavelmente tinham estado bebendo em algum estabelecimento de prazer nas redondezas. O homem jogou a marmita que as meninas estavam segurando, derrubando-as grosseiramente, e berrou: "É graças a vocês, idiotas, que esses ocidentais intimidam e humilham este país!"

“Irmão Yamada, controle sua língua. Você não vai querer que aqueles caras do Shinsengumi* o ouçam”, aconselhou um de seus companheiros.

“Do que ter medo, Matsuo? Os tempos mudaram...”

O guerreiro chamado Yamada não parecia preocupado. “Na verdade, eu queria pedir a Kondō Isami para me ensinar seu Tennen Rishin-ryū.”

Yamada berrou, e seus companheiros ficaram apavorados quando a palavra ‘Shinsengumi’ foi mencionada. Eles olharam nervosamente para Zhang Heng. Após o incidente de Ikedaya, Kondō e seu grupo de rōnin, o Shinsengumi, tornaram-se famosos, ganhando o apelido de ‘Lobos de Mibu’. Eles eram firmes apoiadores do shogunato e o ajudaram a manter a lei e a ordem em Kyoto. Além disso, eles também lidavam com os apoiadores do Tōbaku. Implacáveis e cruéis, eles eram excelentes assassinos, e uma imensa multidão temia o Shinsengumi.

Matsuo não sabia por que Yamada mencionaria de repente o Shinsengumi. Ele lançou um olhar feio para Takahashi como se o culpasse por deixar Yamada beber tanto.

A dupla queria levar Yamada embora antes que ele fizesse uma cena, mas ele já estava perdendo o controle.

Foi um erro mencionar aqueles ocidentais. Isso o fez reviver a raiva que ele nutria contra eles por todos aqueles anos, e em um acesso de fúria, ele agarrou o *tachi* em sua cintura.

Matsuo e Takahashi se afastaram de seu companheiro. Yamada estava furioso, e ele era um excelente espadachim – ele não era apenas o melhor dos três, mas era relativamente conhecido na comunidade samurai. Matsuo e Takahashi não iriam comprometer sua própria segurança.

As garotinhas estavam tão apavoradas que esqueceram de correr para salvar suas vidas. Em vez disso, suas pernas estavam presas ao chão enquanto elas assistiam Yamada sacar sua espada.

As sobrancelhas de Yamada se franziram. Ele queria assustar as duas pequenas bandidas e vê-las fazer xixi nas calças, mas interpretou como oposição silenciosa quando as meninas não se moveram. Combinado com a embriaguez, a cena trouxe algumas lembranças desagradáveis.

Claro, ele tinha todos os motivos para estar ressentido. Três anos atrás, ele seguiu o radical Kusaka Genzui para salvar o imperador como samurai do domínio Chōshū. Naquela época, ele era um guerreiro cheio de entusiasmo, mas a Rebelião do Portão Hamaguri não derrotou os defensores de Kyoto. Kusaka Genzui cometeu suicídio para evitar ser capturado. O shogunato uniu forças com a Grã-Bretanha, os Estados Unidos, a França e os Países Baixos para atacar Shimonoseki, forçando o Domínio Chōshū a ceder. Shinsaku Takasugi, um dos líderes do shogunato, foi forçado a vagar pelas ruas. As coisas não deram certo para os samurais que participaram da Rebelião do Portão Hamaguri.

Yamada havia sacado sua espada porque estava bêbado, mas principalmente por causa de sua rancor por sua aspiração não realizada. Vendo as duas garotinhas impávidas “resistindo” a ele, ele foi tomado pelo ódio. Yamada levantou sua espada acima de sua cabeça.

Embora as garotinhas que vendiam enguia grelhada fossem apenas estranhas para ele, e ele não tivesse interesse em melhorar a segurança de Kyoto, elas só tinham se metido em problemas porque estavam tentando se afastar do "homem perigoso" Zhang Heng. Ele não ia apenas ficar de braços cruzados e assistir as crianças serem mortas por um louco em fúria alcoólica.

Mas quando Zhang Heng estava prestes a sacar sua espada, algo no canto de seus olhos o fez parar. Do outro lado, Yamada gritou no topo de seus pulmões, sua espada erguida acima de sua cabeça. Ao balançar a lâmina para baixo, uma espada de madeira a encontrou, bloqueando o ataque. "QUEM É VOCÊ?!" Yamada rugiu, suas narinas dilatadas, olhos arregalados e peito arquejando vigorosamente. "Koyama-dōjō, Akane Koyama", disse a salvadora com uma voz clara e nítida.

Para surpresa de todos, a pessoa que interveio foi uma jovem, segurando o atacante com uma espada de madeira com uma mão e carregando atum que ela comprou no mercado na outra.

Nota de rodapé:

*Tōbaku: Fração política que apoiava o Imperador e era contrária ao Shogunato Tokugawa. *Kashindan: grupo de soldados leais a um Daimyo, similar a uma pequena companhia militar de elite ou uma unidade de guarda-costas fiéis. *Shinsengumi: força policial especial organizada pelo Bakufu durante o período Bakumatsu no Japão em 1863.

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