48 horas por dia

Capítulo 60

48 horas por dia

Zhang Heng soube que estava em maus lençóis no instante em que viu os dois corpos no chão.

O uniforme militar soviético era facilmente identificável — o uniforme de campanha com detalhes vermelhos, o quepe cinza e verde em formato de barco, a estrela vermelha de cinco pontas nas mangas. Combinado com a inscrição "A Linha Mannerheim te Recebe", o radar de premonições de Zhang Heng disparou no máximo.

Ele estava na Finlândia, com certeza — não na Finlândia moderna, mas na Finlândia durante a Guerra de Inverno.

Sua leitura acumulada se mostrou muito útil desta vez — conseguindo resgatar informações da memória sobre a Guerra de Inverno.

Às vésperas da Segunda Guerra Mundial, a União Soviética e a Alemanha assinaram o infame Pacto de Não-Agressão Germano-Soviético em Moscou, delimitando as esferas de influência de ambas as partes na Europa. Em agosto, a Alemanha invadiu a Polônia. Não querendo ficar para trás, os soviéticos ocuparam três Estados Bálticos e, então, voltaram sua atenção para a Finlândia, que acabara de proclamar sua independência.

Para proteger sua capital, Leningrado, a apenas 32 quilômetros da fronteira finlandesa de um possível ataque alemão, a União Soviética propôs um tratado muito severo que envolvia a Finlândia cedendo terras, arrendando seus portos e removendo suas linhas de defesa. Após a rejeição finlandesa da proposta, o bombardeio de artilharia manipulado de Mainila, em 30 de novembro, desencadeou a guerra. Considerando a força militar de ambos os lados, a opinião global geral na época era de que a guerra terminaria em duas semanas.

Mas, na realidade, essa batalha durou até fevereiro do ano seguinte, quando os soviéticos finalmente romperam a linha de defesa Mannerheim. Em março, devido à escassez de artilharia e munições, a Finlândia assinou o Tratado de Paz de Moscou com a União Soviética, no qual foi forçada a ceder 10% de seu território nacional, incluindo a Carélia, a segunda maior cidade finlandesa, Vyborg, um quinto de sua produção industrial e 30% de seus ativos econômicos pré-guerra. Cerca de 220.000 ocupantes foram repatriados, e apenas um punhado optou por ficar e se juntar à União Soviética. Acontece que essa guerra também preparou o terreno para a Finlândia se juntar ao Eixo.

...

Zhang Heng não se importava muito com quem estava do lado da justiça nessa guerra — afinal, a Segunda Guerra Mundial já havia terminado há mais de 70 anos, e aquilo era apenas um jogo. Ele só precisava descobrir como sobreviver e passar por essa guerra implacável.

Devido às suas 24 horas adicionais, o jogo foi estendido para 140 dias, o que o deixou em extrema desvantagem. Não havia nada que ele pudesse fazer a respeito — não conseguia prever qual seria o próximo jogo, nem sabia quanto tempo duraria cada um.

Como ele havia desfrutado do benefício adicional de um período estendido, era razoável que ele tivesse que arcar com um risco equivalente.

Felizmente, a Guerra de Inverno durou apenas 105 dias. Pelo jeito, eles provavelmente estavam em guerra há algum tempo. Então, estritamente falando, nem todos os seus 140 dias ali envolveriam batalha.

Agora, logicamente, sempre que havia dois campos opostos em um jogo, o jogador teria que escolher um lado. Com base no desfecho da guerra real, os vencedores foram decididamente os soviéticos. Seja em termos de superioridade de equipamentos, número de tropas, tanques e caças, a Finlândia estava em desvantagem absoluta. Do momento em que a guerra começou, o epílogo brutal já estava decidido.

Infelizmente, porém, essa jogabilidade de "colher os frutos do trabalho do vencedor" não era adequada para essa peculiar Guerra de Inverno Finlandesa.

Zhang Heng sabia exatamente o quão brilhante foi o desempenho do comandante soviético durante essa guerra: os soviéticos investiram quase 1 milhão de soldados e enviaram mais de 6.000 tanques para lutar contra os finlandeses, que tinham apenas 32.000 soldados regulares e 32 tanques. Os soviéticos, que dominavam o espaço aéreo, lutaram contra a guerrilha finlandesa. Os resultados foram chocantes: 30 para 1 em termos de perdas; os últimos tendo perdido apenas 900 soldados contra os soviéticos, que perderam mais de 27.000 homens.

No campo de batalha, os soviéticos não obtiveram nenhuma vantagem sobre seu inimigo. O número de mortos soviéticos estava aumentando na linha de defesa de Mainila, esgotando a munição da Finlândia com sua própria carne e sangue. As baixas totais da Finlândia na guerra foram de 70.000 pessoas, enquanto o número total de mortos na União Soviética subiu para trágicos 600.000.

Embora os soviéticos tenham vencido a guerra no final, eles realmente não ganharam nada com sua vitória. Ao contrário, expôs suas fraquezas para o Ocidente, e essa vitória pírrica obtida a um custo tão alto encorajou o "Bigodezinho" [1] a atacá-los mais tarde.

Dessa perspectiva, Zhang Heng poderia muito bem se juntar aos finlandeses derrotados.

Ainda assim, a realidade era dura — Zhang Heng não falava russo nem entendia finlandês; sua pele amarela e roupas modernas o faziam se destacar como uma figura estranha nessa guerra. Ele não conseguiria explicar por que estava ali, e mesmo que estivesse disposto a se entregar a qualquer um dos lados, ninguém estaria disposto a correr o risco de aceitá-lo.

A melhor ideia que Zhang Heng teve até agora foi se deixar capturar como prisioneiro de guerra, mas era mais provável que acabasse sendo baleado por algum soldado mentalmente traumatizado dessa forma.

...

Zhang Heng sorriu amargamente. Embora capaz de entender muito rapidamente o ambiente em que estava, ele já havia esquecido muitos detalhes sobre a Guerra de Inverno. Mesmo que se lembrasse deles, ainda seria inútil. Ele não estava familiarizado com a Finlândia, nem era o comandante de uma tropa. Todas essas informações seriam inúteis de qualquer maneira.

Agora, ele teria que ir um passo de cada vez.

Sem saber quando os soviéticos viriam para recolher os restos mortais de seus camaradas, Zhang Heng tirou um casaco de um cadáver e o vestiu o mais rápido que pôde. Aquele uniforme caqui claramente não havia sido lavado há muito tempo. Estava manchado de sangue e suor velhos, que lhe davam um cheiro pútrido.

Para se manter aquecido, porém, Zhang Heng não podia ser exigente. Havia também uma pistola e o que parecia ser uma metralhadora no chão. Esta última parecia estranha para ele, com uma espiral gigante de mosquito no topo. Zhang Heng não conseguia dizer qual era o modelo daquela coisa, pois tinha pouco conhecimento sobre armas. Especialmente armas da Segunda Guerra Mundial.

Mas seja lá o que fosse, parecia ter muito mais poder de fogo do que a pistola ao seu lado.

No final, porém, após muita deliberação, Zhang Heng optou pela pistola — principalmente porque a metralhadora era muito pesada. Ele tentou carregá-la e sentiu que pesava pelo menos 10 quilos. Os tiros que ele ouvira antes já haviam parado. Era evidente que ambos os lados haviam parado de lutar, e havia chances de os soviéticos voltarem. Ao descobrir que o corpo de seus camaradas havia sido movido, era muito provável que começassem a procurar na área.

Zhang Heng temia que não pudesse escapar rápido o suficiente se carregasse aquela coisa pesada. Além da pistola, ele também carregava uma cantimplora e uma mochila. Ele não teve tempo de olhar o conteúdo da mochila, pois ouviu passos se aproximando.

Em sua pressa, Zhang Heng não havia levado em conta que aqueles caras poderiam ter se separado. O local onde os tiros acabaram de parar ainda estava distante, e já alguém estava voltando.

Era impossível para ele armar uma emboscada. Embora o desempenho dos soviéticos na Guerra de Inverno tenha sido criticado por vários fóruns militares de tempos em tempos, eles ainda eram profissionais treinados e atuavam em conjunto. Zhang Heng estava sozinho, e era a primeira vez que ele manuseava uma arma de fogo.

Em momentos como esse, um confronto direto seria uma tremenda burrice.

Não havia necessidade de enrolar, então ele carregou seu "butim" e saiu correndo para salvar a vida!


[1] - Apelido irônico para Adolf Hitler.

Comentários