Pet King

Volume 12 - Capítulo 1190

Pet King

Como povo que habitava o deserto há milênios, os beduínos possuíam memória e capacidade de observação excepcionais. Quanto melhor o guia, mais aguçado era esse dom, algo que fazia parte de seu sangue, um instinto de sobrevivência.

Eles conseguiam distinguir uma duna da outra, lembrar a forma de uma palmeira datilfera vista dois ou três anos antes e até mesmo determinar a idade e o sexo de um camelo pelas pegadas, além de saber se um homem o montava, e quanto peso ele carregava. Pelo excremento, podiam até mesmo adivinhar onde o camelo havia comido grama pela última vez.

Sendo Nabari o melhor guia da tribo, era natural que ele se destacasse em observação e memória. Do contrário, seria uma verdadeira mancha em seu nome.

Ele disse ter visto uma gata parecida com a Fina, mas seu tom era inseguro. Algo incomum, a menos que a visão tivesse ocorrido em uma situação especial ou há muito tempo.

Salem também ficou surpreso. Sempre acreditara nas habilidades do Tio Nabari e disse: “Tio Nabari, por favor, tente se lembrar. Você a viu ou não? Onde a viu?”

Por um instante, o rosto de Nabari se contorceu em medo, e seu corpo tremeu, como se a lembrança tivesse evocado memórias terríveis.

“Foi há muito tempo, quando eu tinha sua idade.” Nabari olhou para Salem, mas seus olhos pareciam fitar a si mesmo muitos anos atrás. “Acompanhei meu pai ao deserto e servi como guia a um grupo de pessoas. Foi aí que me deparei com um terrível Karaburan...”

Era um passado insuportável de lembrar, e Nabari ainda sentia o coração palpitar ao recordá-lo.

Nunca em sua vida vira um Karaburan tão terrível. Ao meio-dia, mal conseguia ver a própria mão na frente do rosto. A tempestade era tão violenta que poderia arremessar pessoas ao longe. Os camelos entraram em pânico. Eles se esforçaram para controlar os animais, impedindo-os de fugir, e então os fizeram deitar em círculo, enquanto se escondiam atrás deles, como uma cerca improvisada, rezando para que a tempestade passasse rápido…

Mas a tempestade não os deixaria ir tão facilmente.

Pouco tempo depois, horrorizados, perceberam que a areia já cobria quase totalmente os camelos deitados. Se esperassem mais, todos seriam soterrados ali.

Nesse caso, só lhes restou puxar os camelos com força, sem se importar com os pertences, e seguir em frente, na direção que julgavam ser a saída do deserto, baseando-se em sua memória.

Mesmo com o melhor guia, eles se perderam. As violentas tempestades alteraram a paisagem ao redor; incontáveis dunas desapareceram, e outras surgiram do nada, movendo-se como feras vivas, encobrindo todos os pontos de referência familiares.

Quando a tempestade finalmente cessou, havia muito menos pessoas na equipe. Desapareceram no deserto assim, sem deixar rastros, e ninguém mais os viu.

Naquela noite, enquanto acendiam uma fogueira e comiam em silêncio os poucos alimentos que restavam, o jovem Nabari notou que a luz da chama destacava alguns olhos. Era algum tipo de animal.

Agarraram suas armas e encararam os olhos com horror, pensando que o diabo do deserto não estava disposto a desistir e enviara grupos de chacais para ceifar suas vidas.

Os animais se aproximaram, e então eles perceberam que os donos daqueles olhos não eram chacais ferozes, mas gatos como nunca tinham visto antes.

Esses gatos demonstravam um certo medo do fogo, mas também muita curiosidade pela luz e pelos humanos, mantendo-se nas bordas da claridade.

Os sobreviventes da equipe mantiveram-se vivos bebendo urina e sacrificando camelos, até finalmente conseguirem sair do deserto. Todos estavam tão magros que pareciam completamente diferentes e com a respiração ofegante quando foram resgatados.

Nabari, que experimentara a devastação, pareceu amadurecer de repente e se tornou um guia como seu pai. Ele viajou pelo deserto com turistas e equipes científicas. Lidava com calma com qualquer situação e nunca deixava ninguém morrer no deserto. Nenhuma situação seria pior do que aquela.

Ele foi ao deserto inúmeras vezes e acendeu fogueiras à noite. Às vezes, as fogueiras atraíam outros pequenos animais, mas ele nunca mais viu aqueles gatos semelhantes a duendes. Ele até duvidava de tê-los visto naquela noite.

Como não os observara de perto por muito tempo, não podia garantir se os gatos eram exatamente iguais à Fina. Apenas lembrava vagamente que sua pelagem era amarela como a areia, com listras e manchas escuras nas costas e membros, rabos longos e orelhas grandes. Não conseguia se lembrar de outros detalhes.

Zhang Zian compreendeu a fama da memória e observação dos beduínos. Era impressionante a nitidez com que ele guardava detalhes de uma noite de vinte ou trinta anos atrás.

Salem, totalmente absorto, disse chocado: “Tio Nabari, você nunca me contou essas coisas antes…”

“Por que eu contaria?” Nabari o olhou levemente. “Vocês, jovens, gostam de grandes cidades e não se interessam mais pelas lendas desses desertos. Vocês não conhecem o deserto, e não querem conhecê-lo. Sabem apenas um pouco e se gabam por aí. Não conhecem o verdadeiro perigo e o horror do deserto. Se vocês, jovens, encontrassem um Karaburan desses, certamente morreriam no deserto.”

Salem coçou a cabeça timidamente. “Eu estava errado no passado, Tio Nabari. Agora me interesso muito pelo deserto. Quero aprender tudo sobre ele com você…”

Afinal, tudo se resumia a ganhar dinheiro. Ele achava mais rápido e fácil ser guia turístico e ganhar dinheiro, além de receber o respeito dos turistas. Era muito melhor do que trabalhar na cidade e levar uns “olhares de reprovação” o tempo todo. Não era tarde demais para abrir uma lojinha numa cidade grande e aproveitar a vida quando fizesse dinheiro suficiente.

Nabari pareceu perceber seus pensamentos, sorriu e disse incisivamente: “Pessoas com mentes impuras não serão abençoadas por um verdadeiro deus ao entrar no deserto.”

Zhang Zian também sentiu um arrepio na espinha. Lembrou-se do desprezo de Fina pelo vento Harmatã, pois esse tipo de vento não era nem um pouco assustador no deserto.

No entanto, Nabari havia passado por um pesadelo vinte ou trinta anos atrás. Naquela época, o nível da ciência e da tecnologia não era tão desenvolvido quanto hoje. Desta vez, Wei Kang veio com muitos instrumentos de alta tecnologia. Além disso, uma tempestade forte provavelmente ocorria uma vez por século. Parecia desnecessário se preocupar.

Mais importante, Wei Kang ficaria encantado em finalmente encontrar vestígios do gato egípcio primitivo.

Quando a conversa entre tio e sobrinho chegou ao fim, Zhang Zian interveio: “Nabari, você se lembra onde encontrou aqueles gatos?”

A testa de Nabari franziu-se ainda mais. “Naquela época, eu era muito jovem e estava com muito medo. Saí do deserto seguindo as pegadas do meu pai, então só consigo me lembrar…”

Ele fez uma pausa, engoliu a segunda parte de suas palavras, balançando a cabeça, sem querer continuar.

“Então seu pai…” Zhang Zian olhou ao redor.

“Ele morreu”, disse Nabari.

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