
Volume 9 - Capítulo 808
Pet King
Como Liu Ying havia dito, sua cidade natal era uma vila de pescadores no litoral, localizada ao sul de Binhai.
Quando criança, seus pais trabalhavam o dia inteiro, seja pescando no mar ou vendendo peixe. A família tinha boas condições financeiras, mas isso custava a pouca convivência com os pais. Ela foi criada pela avó, o que a tornou tímida e introvertida. Após a faculdade e entrando para o mercado de trabalho, ela se esforçou para se tornar mais extrovertida, exigência de sua profissão.
Sua avó tinha pernas fracas e não se sentia segura em deixá-la brincar na rua com outras crianças. Naquela época, o tráfico de pessoas na vila vizinha era um grande problema. Boatos diziam que traficantes de outras regiões já haviam chegado e sequestrado algumas crianças na vila vizinha. As histórias circulavam, e ninguém conseguia confirmar se eram verdadeiras ou não. Mas a avó acreditava. A mantinha em casa e não a deixava sair.
A pequena Liu Ying sentia que sua avó, de alguma forma, demonstrava preferência por meninos. Talvez, se fosse menino, a avó a deixaria brincar lá fora, mesmo com suas pernas fracas.
Em casa não havia nada para brincar. Não tinha TV a cabo, e só conseguiam sintonizar poucos canais com um receptor de satélite adaptado. Havia canais estrangeiros, mas o sinal era péssimo. Muitas vezes só recebiam estática.
Liu Ying se entediava em casa. Ficava grudada na avó, pedindo para ela contar histórias e brincar.
Sua avó, provavelmente, se irritava com isso. Interrompia seus afazeres domésticos. Além disso, era viciada em mahjong e jogava com outras mulheres mais velhas da vila todas as tardes, chovesse ou fizesse sol. Um dia, a avó trouxe alguns peixinhos para ela e pediu que os criasse como bichinhos de estimação. Então trancou o portão do quintal e foi para a mesa de mahjong, preocupada em perder seu lugar se chegasse atrasada.
Os tais peixinhos eram, na verdade, carpas e barbos. A avó provavelmente os havia pescado no rio perto da vila.
Naquela época, era fácil pescar no rio. Bastava enrolar uma rede em formato de bolso, colocar arroz ou migalhas de pão dentro e afundá-la no rio. Depois de alguns minutos, algumas carpas desavisadas caiam na rede.
Mais tarde, o método deixou de funcionar. Com o agravamento da poluição industrial perto da vila, quase não se pescava mais no rio.
Pescar no rio sempre foi privilégio dos meninos da vila. Ao ganhar os peixinhos, Liu Ying ficou muito feliz. Tinha novos amiguinhos, o que tornava as tardes menos solitárias quando a avó não estava em casa.
Havia uma pequena tina vazia no quintal. A pequena Liu Ying encheu-a com água e colocou as carpas e os barbos lá dentro.
Carpas e barbos são bem resistentes. A menos que se fizesse muito esforço, era difícil matá-los. Alguns grãos de arroz e migalhas de pão a cada poucos dias eram suficientes para mantê-los vivos.
“Hoje, olhando para trás, eu não os tratava como animais de estimação. Eram apenas ferramentas para me fazer menos sozinha. Fiz coisas horríveis a eles por tédio...” disse Liu Ying com arrependimento.
Na pequena mercearia da vila, vendiam anzóis por 20 centavos cada. Ela inventou que estava com vontade de comer picolé e pediu dinheiro à avó para comprar um anzol. Em seguida, amarrou o anzol na ponta de um fio de algodão da máquina de costura e prendeu um grão de arroz na ponta. Começou a pescar, imitando os outros.
Era fácil fisgar carpas e barbos. Eles disputavam os grãos de arroz como se estivessem morrendo de fome. Logo, uma carpa mordeu a isca.
A pequena Liu Ying puxou o fio de algodão animada, mas a carpa lutou ferozmente – muito mais do que ela esperava. Rompeu o fio de algodão e caiu na terra amarela.
Ao se debater, ficou coberta de terra, como um peixe empanado antes de ir para a frigideira.
Ela entrou em pânico e tentou pegar a carpa e colocá-la de volta na tina, mas as escamas eram escorregadias e o peixe moribundo lutava muito. Não conseguiu segurar o peixe firmemente. Em vez disso, o anzol a furou no dedo. Foi fundo. Sangue vermelho jorrou imediatamente.
Ela chorou muito de dor. Ao soltar as mãos, a carpa caiu no chão e parou de se mexer depois de alguns solavancos.
Não havia mais ninguém em casa. Depois de chorar por dez minutos, ninguém veio consolá-la.
A carpa já estava morta no chão. Seu dedo também parou de sangrar.
Ela parou de soluçar lentamente.
Ela mentiu sobre comprar picolés e comprou o anzol com o dinheiro. Portanto, não ousou contar aos pais e à avó o que aconteceu. Eles poderiam castigá-la por ser travessa. Escondeu tudo em segredo, alegando que um peixe tinha morrido.
Mas a verdade não era tão simples.
Depois de alguns dias, ela começou a ter dor de cabeça, tontura e febre. Seus pais acharam que ela havia pegado um resfriado, mas o remédio não funcionou. Ela piorou e piorou, e até começou a ter convulsões.
Seus pais a levaram às pressas para o hospital da cidade durante a noite. O médico disse que ela tinha tétano. Se a tivessem levado meia hora depois, sua vida teria corrido perigo. O médico também perguntou se ela havia se machucado recentemente.
Após ser interrogada pelos pais, ela finalmente contou em lágrimas que seu dedo havia sido perfurado por um anzol de pesca.
Se não estivesse tão doente, seus pais certamente teriam dado uma surra nela.
Mais tarde, ela se recuperou. Ao voltar para casa do hospital, descobriu que a tina estava vazia. Os peixes e a água haviam sumido.
Ela não ousou perguntar aos pais, pois eles já estavam bravos com ela e haviam gastado muito dinheiro com sua doença.
Para sua surpresa, após o incidente, sua avó pareceu arrependida, pensando que sua negligência a havia feito ficar muito doente. Alguns dias depois de sua alta do hospital, sua avó comprou para ela um aquário na feira da cidade. Era um aquário de verdade, com cerca de 40 cm de comprimento, e cristalino. Tinha até uma mini casinha dentro.
Desde então, sua avó parou de jogar mahjong e se livrou do vício de anos assim, de repente. Embora as antigas companheiras de mahjong frequentemente a tentassem, ela recusou todas, mesmo quando faltava apenas uma jogadora.
“Ying Ying, vamos criar peixes juntos?”, perguntou sua avó com um sorriso, acariciando sua cabeça. Incontáveis rugas profundas floresceram em seu rosto.
A pequena Liu Ying ficou surpresa com a mudança repentina de atitude da avó. Assentiu, sem saber o que dizer.
Por algum tempo depois de sua alta do hospital, ela teve medo de objetos pontiagudos. Sua avó preparou tudo para os peixes.
Sua avó carregou o balde até a praia para pegar água salgada, e então empurrou uma carriola para pegar areia. Recolheu algumas pedras e as colocou no aquário. Um aquário simples foi tomando forma aos poucos.
Sua avó não comprou apenas um aquário; também comprou uma bomba de oxigênio e um casal de peixes-palhaço.
Comparados às carpas e barbos cinzentos, os peixes-palhaço eram muito mais bonitos; eram como cisnes perto de patinhos feios. A pequena Liu Ying ficou encantada.
Ela começou a criar peixes com a avó, pensando a cada dia no que os peixes-palhaço comiam. Todos os dias, ela apoiava o queixo nos braços ao lado do aquário, admirando a dança graciosa dos peixes-palhaço nadando.
Esses foram os dias mais felizes de Liu Ying. Pela primeira vez, ela se sentiu tão próxima de sua avó. Ela não era mais a avó ranzinza que a impedia de brincar, como no passado.
No entanto, os problemas vieram de qualquer maneira. Os peixes-palhaço acabaram ficando doentes e cobertos por uma película branca por todo o corpo.
Sua avó e ela não puderam fazer nada a respeito.