
Volume 2 - Capítulo 151
Pet King
Um cheiro fétido surgiu do nada.
O odor de podre, de morte, vinha de um beco silencioso adiante.
Gato Velho Tempo sabia que havia chegado ao seu destino.
Uma onda de calor subiu do peito até a garganta.
Sabia que estava ficando velho, não tão forte quanto antes, exatamente como dizia a música:
[O vento sorri
Me deixa solitário
Mas ainda há grandes pensamentos em minha mente.——]
Não era hora de ficar triste. Gato Velho Tempo tentou expelir o excesso de calor respirando ofegantemente, o que também fez sua frequência cardíaca voltar ao normal.
Gato Velho Tempo não entrou no beco pelo chão. Sendo um gato, andar pela parede era muito mais seguro.
Em cima do muro, Gato Velho Tempo observou atentamente o beco.
Lixo e sujeira por toda parte. O forte mau cheiro era, na verdade, uma proteção natural do beco contra estranhos. Uma pessoa normal não se aproximaria.
Não havia postes de luz.
Ele levantou a cabeça e descobriu que, sim, havia postes, todos propositalmente quebrados.
O beco estava escuro, mas a escuridão não detinha Gato Velho Tempo.
Com a visão aguçada que só os gatos possuem, Gato Velho Tempo detectou sinais de urina fresca de gato no beco. Um lugar abandonado pelos humanos podia ser, às vezes, o paraíso dos felinos.
Um rato grande e gordo saiu do esgoto. Ele piava e farejava antes de decidir que aquele era um local seguro para encontrar comida. Imediatamente, correu em direção ao monte de lixo no canto, rasgou os sacos plásticos e começou a procurar o jantar.
Gato Velho Tempo estava prestes a avançar quando, de repente, um leve ruído, como de atrito, chamou sua atenção. Ele parou.
Um gato preto se esgueirou silenciosamente de outro canto, olhando para o rato. Aparentemente, esperava a chegada de sua presa havia algum tempo.
Erguendo as patas levemente e aproximando-se sorrateiramente do rato, o gato preto não fez o menor barulho. Chegava cada vez mais perto, por trás. No entanto, o rato não o ouvia, com metade da cabeça enfiada no saco de lixo, saboreando seu delicioso jantar.
Quando o gato preto ficou próximo o suficiente, pulou com as duas patas dianteiras, caindo sobre a cabeça e o corpo do rato.
O rato se assustou, gritando e chicoteando o rabo. Mas o destino havia decidido que aquela noite seria o fim para ele.
Após observar a cena, Gato Velho Tempo pulou novamente e entrou no beco.
O gato preto se assustou com o movimento de Gato Velho Tempo. Pensando que era um competidor, suas garras afrouxaram. O rato agarrou a chance de escapar, mas o gato preto não o deixaria ir. Ele foi arremessado contra a parede e desmaiou.
Gato Velho Tempo passou de uma corrida rápida para saltos lentos, para observar cuidadosamente o ambiente enquanto prosseguia.
Havia pessoas morando naquele beco. Luzes fracas saíam de algumas casas. Por que eles viviam ali? Por motivos financeiros ou outros?
Um pequeno prédio de três andares, que parecia muito com uma torre de observação, surgiu diante de Gato Velho Tempo. Ao redor do prédio, havia casas térreas de um lado e do outro.
Era a Consultoria Qing Ren.
O prédio estava escuro e silencioso como um túmulo. Gato Velho Tempo escutou atentamente, mas não ouviu nada.
Gato Velho Tempo pulou do muro e caminhou ao redor da porta da frente.
Ele cheirou cuidadosamente.
Era isso!
O cheiro de ratos podres do esgoto persistia.
A porta da frente era um portão de metal. Gato Velho Tempo esticou a pata e tentou abri-la. A porta estava firmemente fechada.
Não importava muito, pois Gato Velho Tempo tinha outras opções para entrar em um prédio.
Se uma pessoa quisesse entrar no prédio, teria que puxar a porta por fora. Gato Velho Tempo pensou por um segundo e encontrou um pedaço de madeira com cerca de 90 centímetros de comprimento, provavelmente um pedaço de material sobrando de algum móvel.
Gato Velho Tempo cravou suas garras afiadas na madeira para pegá-la e voltou até a porta. Tentou alguns ângulos diferentes e utilizou um pequeno buraco no chão para apoiar a madeira contra a maçaneta. Então, Gato Velho Tempo levantou e chutou, de forma que a madeira ficasse firmemente presa na porta, mantendo-a fechada.
Assim, se alguém dentro do prédio tentasse escapar, não conseguiria sair pela porta da frente.
Quando Gato Velho Tempo empurrou a madeira contra a porta, fez um barulho alto.
Gato Velho Tempo escutou novamente. Ainda havia silêncio mortal lá dentro.
Então, ele pulou para o muro e caminhou até a lateral do prédio.
Canos de esgoto corriam do nível superior até o chão.
Os canos de plástico eram presos à parede por alguns anéis de metal enferrujados.
Gato Velho Tempo pulou, agarrou um cano e subiu até o nível superior em segundos.
Havia todo tipo de lixo e restos de comida no nível superior. Uma pequena porta levava ao telhado.
Os telhados entre aquele prédio e o vizinho eram próximos o suficiente para que, se alguém corresse para escapar, pudesse pular diretamente de um para o outro.
A porta era de metal e estava trancada por dentro.
Gato Velho Tempo fez a mesma coisa, usando alguns pedaços de lixo para travar a fechadura, impedindo que alguém saísse.
Ele tinha que eliminar todas as possíveis saídas.
Em cima do prédio, Gato Velho Tempo olhava para o beco e repensava tudo.
Alguns segundos depois, ele pulou do telhado!
Num piscar de olhos, estava no terceiro andar.
Gato Velho Tempo chicoteou o rabo, fortaleceu as costas, ajustou o corpo e a direção. Esticou as patas para agarrar a sacada do terceiro andar e se puxou para cima.
Sentado do lado de fora da janela, ele olhou para dentro do cômodo.
Estava completamente escuro lá dentro, mas isso não era problema para Gato Velho Tempo.
Se alguém estivesse observando de dentro, ficaria apavorado com os olhos amarelos de Gato Velho Tempo.
Parecia não haver nenhuma atividade lá dentro. As pessoas tinham ido embora.
Gato Velho Tempo levantou a pata e bateu rapidamente no vidro.
Bang!
O vidro quebrou. A maioria dos cacos caiu para dentro. Alguns caíram para fora, rolaram até o chão e se estilhaçaram.
Que barulho alto!
Se alguém estivesse dormindo lá dentro, já deveria ter acordado.
Gato Velho Tempo não se apressou em entrar. Em vez disso, ficou perto da janela para observar.
Os moradores do beco talvez estivessem acostumados a tais perturbações. Se ouvissem o vidro quebrando, ninguém sairia e todos fechariam as portas e as luzes.
O beco ficou ainda mais escuro.
Ainda havia silêncio dentro do prédio.
Gato Velho Tempo limpou alguns dos cacos da janela. Abaixou as mangas para cobrir as duas patas dianteiras, limpou o restante do vidro e pulou para dentro.
Na verdade, antes de quebrar o vidro, Gato Velho Tempo já sabia que ninguém estava lá, pois o cheiro humano era muito fraco, o que significava que as pessoas tinham partido havia algum tempo.
Parecia um escritório. A pessoa não saiu com pressa, então limpou o local. Varreu o chão, passou pano na mesa e tudo mais.
Vendo aquilo, Gato Velho Tempo entendeu duas coisas: primeiro, não conseguiria encontrar nenhuma pista ali; segundo, a pessoa era esperta como uma raposa.
Não era verdade que a pessoa não deixara nenhuma pista. No meio da mesa, havia uma pilha de documentos. Parecia que estava esperando alguém para lê-los. Gato Velho Tempo temia que fosse uma armadilha.
Gato Velho Tempo circulou o cômodo de fora para dentro, várias vezes, procurando por pistas. O sofá, embaixo da mesa, o cabideiro... ele não deixou nenhum canto sem vasculhar.
Quando Gato Velho Tempo procurava algo, costumava esticar a pata para bater no chão e ouvir o som resultante. Precisava ter certeza de que não havia uma armadilha embaixo.
Finalmente, ele havia revistado tudo, exceto a mesa.
Primeiro, ele verificou a parte de baixo da mesa para ver se havia armadilhas mortais.
Nenhuma. Tudo parecia normal.
Ele pulou para a superfície. Além daqueles documentos, não havia nem um papel sobrando no cômodo. Esticou uma pata e puxou levemente os documentos à sua frente.
Havia uma nota no papel de cima da pilha.
“Não sabia quem chegaria primeiro. Poderia ser a polícia ou alguém mais. Quando você ler este papel, já estarei fora da cidade. Não perca seu tempo me procurando. Não houve rancor pessoal entre nós. Meu negócio foi apenas um ato comercial. Alguém pagou e eu forneci o serviço. É só isso.”
“Sou apenas uma pequena batata tentando ganhar a vida com um negócio como este. Não vale a pena perder tempo me procurando. Há muitas pessoas como eu. Você não pode pegar todas. Um famoso ditado diz: onde há vontade, há um caminho. Eu digo que onde há demanda, há oferta.”
“Claro, minhas palavras não aliviarão sua dor. Eu entendo. Não falhei em muitas missões, mas esta não é a primeira vez. Os combatentes podem ser muito fracos ou você pode ser muito forte. Eu admiro você por nos vencer. Os documentos abaixo deste papel são sua lembrança. Espero que isso o faça se sentir melhor.”
“Se você insistir em me perseguir, eu lhe mostrarei problemas de verdade.”
Assinado – Qing Ren.
Gato Velho Tempo moveu o papel. Havia alguns documentos que pareciam registros de conversas. Além da pilha de documentos, havia também uma pequena coisa de plástico que parecia ser o pen drive de Zhang Zian. Poderia ser a mesma coisa.
Qing Ren pensou que essas coisas aliviariam a raiva do visitante. Gato Velho Tempo estava debatendo se queria ou não acreditar nele.
Do beco, veio a sirene.
Gato Velho Tempo pulou de volta para a janela e viu que alguns carros da polícia estavam bloqueando o beco.
Os policiais estavam ali!
Ele enrolou o primeiro papel em uma bola, colocou no bolso e ia sair pela janela. De repente, uma faixa na parede chamou sua atenção. Havia duas linhas na faixa, escritas em bela caligrafia chinesa:
Se um dia eu me tornar rei, haverá flores de pêssego por toda parte.
Gato Velho Tempo zombou. Que egomaníaco!
Ele pulou, esticou as patas e cortou a faixa ao meio como se estivesse fatiando um pedaço de tofu. O corte caiu sobre o caractere “Qing”. A parede atrás da faixa estava intacta.
O beco era muito estreito para carros. Estava escuro e os policiais correram para dentro.
Gato Velho Tempo pulou da janela e desceu até o chão por um cano. Chutou a madeira na porta para o lado, pulou de volta para o muro e estava pronto para voltar para a pet shop. Lá, um novo parceiro o esperava, exatamente como dizia a música:
[As pessoas riem,
Não mais solidão
Meus grandes pensamentos ainda estão lá——]