
Volume 11 - Capítulo 2727
Escravo das Sombras
Traduzido usando Inteligência Artificial
O ser lembrou-se de seu nome.
Ela era Cassia, Canção dos Caídos. Uma vidente cega que estava destinada a testemunhar o destino…
Ou pelo menos, foi isso que ela havia sido.
O destino havia sido rasgado e mutilado, afinal. Ela o havia mutilado. O destino recebeu um ferimento mortal das próprias entidades que deveriam ser seus arautos, e agora estava se desfazendo à medida que o futuro prometido deixava de existir.
Canção dos Caídos não era mais uma mera testemunha. Em vez disso, ela era uma arquiteta do que estava por vir. Destruição, salvação… não importava qual fim os aguardasse no futuro, ela o teria construído com as próprias mãos frágeis.
‘Esse Nome Verdadeiro ainda combina comigo?’
O ser — Cassia — observou mais uma vez a vasta extensão sombria de memórias despedaçadas. Agora que sabia quem havia sido, conseguia discernir melhor quais eram realmente suas.
Mas ainda não o suficiente para obter clareza.
Ela foi uma existência estranha, ao que parecia. Alguém que viveu dezenas de vidas ao mesmo tempo, experimentando o mundo por meio de incontáveis condutos de seu Aspecto sutil. Os poderosos e os fracos; os que a serviam e os que não. Homens e mulheres, mundanos e Despertos, jovens e velhos…
As memórias de suas vidas estavam entrelaçadas às dela, inseparáveis. Mais do que isso, as memórias do passado estavam entrelaçadas às memórias do futuro — um futuro que não chegaria a acontecer, pelo menos não mais. Havia também memórias que ela não deveria possuir de forma alguma. Um vasto oceano delas, pressionando-a com o peso esmagador da eternidade… memórias de mundos que haviam perecido, de um passado antigo que fora apagado das páginas da história pela passagem do tempo.
‘O que aconteceu comigo?’
Ela sabia quem havia sido, mas quem era agora?
Como foi parar nesse oceano de memórias?
Qual era seu propósito ali?
Ela permaneceu ali até que uma súbita realização a atingiu.
‘Essas memórias… sou eu.’
Elas eram os blocos de construção do que havia feito Cassia ser quem era.
Ela foi despedaçada e agora precisava se remontar a partir dessas peças. Se a forma que criasse fosse verdadeira, uma mulher chamada Cassia continuaria a existir.
Caso contrário… algo diferente tomaria seu lugar.
Se não conseguisse encaixar completamente os fragmentos, sua existência seria espalhada pelo vento.
‘Que irônico…’
Parecia que ela precisava construir o Labirinto primeiro para então escapar dele.
Aquele homem, Asterion, a havia comparado a Ariadne. Mas ele estava errado… Canção dos Caídos não era apenas Ariadne, a princesa traidora de Creta.
Ela também era Minos, seu rei. Também era Dédalo, que construiu o Labirinto por sua ordem. Também era o Minotauro, aprisionado na escuridão e forçado a comer carne humana.
Ela também era Teseu, que matou tanto o irmão monstruoso quanto a irmã ingênua que lhe deu o fio salvador.
Era por isso que não tê-la matado naquele dia foi um erro fatal, impossível de ser desfeito. O Dreamspawn era um inimigo aterrador… tanto que mal existia algum ser capaz de superar sua malícia insaciável.
Assim, o que o condenaria no fim seria sua própria fome.
Tentáculos de Vontade se estenderam em direção ao mar de memórias, agarrando dezenas delas e puxando-as para perto.
Ela absorveu primeiro um fragmento pequeno e insignificante.
A memória podia ser tênue, mas era mais clara e vívida do que quase todas as outras. Suas bordas eram cruéis e afiadas.
Nessa memória, ela era uma garota jovem e assustada, deitada sobre pedra fria enquanto os sons de um mar sombrio a envolviam, enchendo seu coração de terror. O mundo era cruelmente escuro, desprovido de todas as formas e cores. Ela era cega, fraca e inútil. Só estava viva graças à benevolência dos outros e, mesmo que estivesse assustada demais para pensar nisso, sabia que o cálice dessa benevolência podia secar a qualquer momento.
Seus companheiros estavam atrás dela agora, tendo uma conversa em voz baixa. O som de suas vozes a havia despertado, e agora ela não conseguia voltar a dormir.
“Como você sabia que eu sou um Legado?”
Aquela era a voz de Neph. Nephis foi a pessoa que a salvou, quando Cassie estava perdida na escuridão, derramando lágrimas enquanto esperava por uma morte solitária e horrível. Mesmo agora, ouvi-la falar fazia Cassie se sentir aquecida… Nephis era como um único raio de sol na escuridão que envolvia seu mundo, oferecendo-lhe mais do que mero conforto.
Dando-lhe esperança.
“Simples. Eu ouvi o Caster mencionar isso. Ele estava repreendendo outros Adormecidos para fazê-los tratá-la com respeito.”
Aquela voz pertencia a Sunny, o novo companheiro deles.
Sunny era em grande parte um estranho… mas para Cassie, ele era especial.
Isso porque, em algum momento durante os dias na Academia, ela teve uma visão de seu passado. Nessa visão, ele comemorava silenciosamente seu aniversário no dia do solstício de inverno, escondendo-se do vento cortante e da fumaça tóxica dos arredores dentro de um contêiner de carga enferrujado.
Por causa dessa visão, ele era o único Adormecido cujo rosto Cassie conhecia. Ela já estava cega quando chegou à Academia, então todos os outros — até mesmo Nephis — eram como vozes desencarnadas que a chamavam da escuridão.
Mas Sunny tinha um rosto. Ouvi-lo e saber como ele era fazia Cassie se sentir humana novamente e, por isso, ela prezava muito sua voz.
“Posso fazer outra pergunta?”
Cassie desistiu de tentar voltar a dormir e abriu os olhos na escuridão, curiosa para ouvir o que ele iria perguntar. Sunny falou em um tom direto e indiferente:
“Por que você está se sobrecarregando com ela?”
Ela congelou.
Nephis pareceu sorrir levemente.
“Por quê? Você não faria o mesmo?”
A resposta dele veio após uma breve pausa, soando fria e irritada:
“Não.”
Não.
‘Ah…’
Doía.
Ela largou a memória, sentindo como se suas bordas tivessem cortado sua Vontade.
Era curioso como tantas coisas às vezes podiam depender de uma única palavra. Aquela palavra coloriu a impressão que ela tinha de Sunny com tons mais sombrios, e esse tom escuro, por sua vez, moldou muito do que aconteceria além daquela velha memória sem luz.
A história teria tomado um rumo diferente se Sunny tivesse dado a Neph uma resposta diferente naquela noite fria na Costa Esquecida? Se ele tivesse sido capaz de mentir?
Isso teria mudado para melhor ou para pior?
Ninguém sabia, e ninguém jamais saberia.
Nem mesmo ela.