Casamento Predatório

Capítulo 314

Casamento Predatório

Quanto mais Cerdina repetia aquela palavra, mais fragmentada a mente de Leah ficava. Seus olhos ardiam. Sua cabeça latejava. E, uma a uma, suas memórias desapareciam, como se tivessem se dissolvido em uma névoa.

Por mais que tentasse, Leah não conseguia se segurar a elas. Por um instante, a visão de olhos dourados encheu sua mente.

Ele me pediu para me lembrar dele…

Era uma promessa que ela não conseguia cumprir.

Logo, não sobrou nada. Cerdina olhou para seus olhos violetas desfocados.

“Que estranho”, murmurou ela, frustrada. “Ela não deveria ser capaz de resistir nem um pouco, a essa altura.”

“Vou levá-la de volta ao palácio”, disse Blain, agarrando o pulso de Leah.

Os olhos de Cerdina se estreitaram enquanto ela o observava. Era possível que alguém mais tivesse visto seu cabelo quando era loiro-dourado. Talvez fosse melhor apagar as memórias de todos no palácio. Ela tinha o poder para resolver até um problema tão complexo, e ainda havia problemas mais imediatos que estavam totalmente fora de seu controle.

Ela não podia acreditar que a ausência de Leah tinha abalado tanto seu filho. Ele não só tinha se esquecido de tomar sua poção, como tinha sido completamente indigno, procurando por ela. Blain não podia se dar ao luxo de deixar suas emoções o controlarem. Ele não deveria amar Leah. Se algo, ele deveria tratá-la como se ela lhe pertencesse.

Cerdina sorriu, escondendo esses pensamentos.

“Faça como quiser. Mas não fique muito chateado”, sussurrou ela, acariciando a bochecha do filho. “Tudo será seu.”


Algum tempo depois…

A guerra civil em Kurkan já durava muito tempo. Por mais forte que fosse o Rei, ele havia dividido seu povo. Ele declarou que somente aqueles de sangue puro eram de Kurkan, e se recusou a reconhecer quaisquer mestiços como parte da tribo.

Isso havia dividido a tribo em facções: alguns obedientes à vontade do Rei, outros na oposição, e um terceiro grupo que permaneceu neutro.

Morga, o chefe da tribo das serpentes, não concordava com a agressividade do Rei. Ele observou enquanto o Rei fazia guerra contra aqueles que se recusavam a obedecê-lo, e ficou de fora porque não queria sua tribo envolvida.

O Rei havia repetidamente pedido a Morga, um proeminente feiticeiro, para se juntar ao seu lado. Era formulado como um pedido, mas na verdade era uma ameaça. Na última vez que o Rei viera oferecer seu convite, fora com um exército.

“Não posso ficar inventando desculpas para sempre…”

Suspirando, Morga mexeu uma panela. Ele não podia mais adiar. Chegara a hora de tomar uma decisão e acabar com sua neutralidade.

Ele não queria seguir o Rei, mas também não conseguia pensar em uma maneira de derrotá-lo. Se fosse apenas sua própria segurança em questão, ele teria agido contra o Rei sozinho e depois fugido. Mas Morga era o chefe da tribo das serpentes. O destino deles dependia de sua decisão.

Ele tinha que escolher com muito cuidado.

Morga respirou fundo. Assim que estava examinando as ervas ao seu lado, enrijeceu com uma dor repentina, e sangue se acumulou em sua boca. Alguém havia quebrado seu feitiço de detecção de intrusos.

Agarrando sua adaga, ele engoliu o sangue e se virou para a porta.

“Quem é você?”

Lentamente, a porta se abriu, e o intruso entrou. Os olhos de Morga se arregalaram de descrença.

“Você… você é tão… jovem…”

Aquele garoto nem mesmo havia feito sua cerimônia de maioridade, e ainda assim ele havia quebrado o feitiço de Morga. Morga o observou se aproximar, perplexo. Os olhos dourados do garoto brilhavam mesmo na escuridão, iluminando traços bonitos e regulares. Ele seria um homem espetacularmente bonito quando crescesse.

“Ahn.”

Atrasado, Morga percebeu que estava o encarando e tossiu. Ele não podia acreditar que havia sido pego tão de surpresa pela aparição de seu intruso. Os outros Kurkans teriam rido dele.

“Ouvi dizer que você é o melhor feiticeiro de Kurkan”, disse o garoto para Morga, envergonhado.

Isso era verdade.

“Por favor, me ajude com minha cerimônia de maioridade”, pediu o garoto, inclinando a cabeça para solicitar o favor adequadamente.

Morga franziu a testa. Era claro pela sua aparência que ele ainda não havia atingido a maioridade, e ele tinha ouvido dizer que, ocasionalmente, mestiços escapavam de escravistas e voltavam para o deserto. A maioria deles era pega e morta por kurkans de sangue puro, que concordavam com a crença do Rei na pureza do sangue.

O Rei até mesmo ameaçara qualquer um que abrigasse um mestiço. Era um crime aceitar um mestiço em sua tribo ou ajudá-lo de alguma forma. Se alguém fosse pego, seria punido pelo crime.

Morga não queria obedecer a tais ordens desprezíveis. Mas ele não via razão para arriscar sua vida ajudando esse mestiço também.

“Por que eu deveria ajudá-lo?”, perguntou Morga.

“Eu serei o novo Rei de Kurkan”, respondeu o garoto calmamente.

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