Casamento Predatório

Capítulo 312

Casamento Predatório

A Princesa hesitou, mas não havia tempo nem para pensar direito. Não lhe restava outra opção senão aceitar o plano dele, e a obrigação que isso impunha. Os dois se olharam por um instante, em perfeita compreensão.

“……”

Isha não conseguia desviar o olhar dela e teve que engolir em seco no profundo silêncio. Algumas palavras estavam na ponta da língua, mas não era a hora de dizê-las. Não adiantava perguntar se ele a veria novamente. Seu único ponto de encontro se esvairiria assim que aquele momento passasse. Não havia razão para a Princesa de Estia ter qualquer envolvimento com um ex-escravo kurkan.

Mas ainda assim, ele sentiu o desejo de fazer alguma promessa a ela, um impulso estranhamente poderoso.

“Princesa”, disse ele, incapaz de se conter. “Meu nome é Isha.”

“Isha”, ela repetiu. Era bom ouvir o nome dele vindo dos lábios dela.

“Espero que você se lembre.” Isso soou um pouco desesperado, e ele acrescentou apressadamente: “Eu retribuirei o favor. E…”

Ele fez uma pausa, respirou fundo.

“…seus olhos também são lindos.”

Ela riu, uma risada tão encantadora quanto o canto de um rouxinol ao amanhecer. Seus olhos se curvaram em um sorriso.

“Obrigada. Vou me lembrar, Isha.”

Ele ficou olhando para as costas dela enquanto ela disparava, e quando teve certeza de que ela havia se afastado, correu o mais rápido que pôde pelo outro caminho. O latido dos cães de caça estava se aproximando.


Isha franziu a testa. Sua visão estava oscilando.

As palavras eram insuficientes para descrever o quão ruim era sua condição. O curativo que ele havia improvisado com um pano velho estava encharcado de sangue, tanto que ele estava tonto de tanto sangrar, e não sentia o braço esquerdo. Um dos cães o havia mordido feio.

Mas mesmo assim, ele se sentia tão leve, sua mente tão cheia de euforia que conseguia ignorar a dor do corpo.

Ele era livre.

Ele ansiara por isso por tanto tempo, mas nunca tinha pensado que conseguiria. Olhando para o horizonte, sorriu.

O sol estava se pondo. Tudo estava escarlate sob o céu de fogo. Se ele continuasse em frente, atravessaria o deserto, e se voltasse, poderia desaparecer nas profundezas do continente.

Ele se perguntou por onde os outros escravos kulkans tinham ido.

Todos queriam voltar para sua terra natal, mas naquele momento, o deserto só acolhia kulkans de sangue puro. Suas vidas estariam em perigo se eles tentassem voltar para casa. A opção de fugir para o continente parecia não ser uma escolha de fato.

Isha passou os dedos pelos cabelos, tentando adivinhar por onde seus amigos tinham ido. Uma rajada de vento agitou suas roupas esfarrapadas. Chegara a hora de escolher.

Ele sabia qual seria o caminho mais fácil. Longe dos kulkans obcecados por sangue puro, ele poderia viver uma vida tranquila em algum canto do continente.

Mas… ele não ficaria satisfeito assim.

Ele se lembrou de como os kulkans mestiços eram tratados pelos comerciantes de escravos, como meros objetos para venda, que precisavam ser domados para alcançar um bom preço. Ele pensou na morte de Mel. Embora tivesse sido abandonado por seu povo e vendido como escravo, Mel sempre se orgulhara de ter nascido kurkan.

Mas isso não lhe tinha feito nenhum bem.

Isha se lembrou da visão do cadáver do menino no centro de treinamento. E como todas as outras crianças kulkans haviam se atirado nos domador es, soluçando.

E ele pensou na Princesa de Estia.

“……”

Um leve sorriso surgiu em seus lábios. Ele achara que seria uma decisão difícil, mas era óbvio. Só havia uma conclusão possível.

Este seria o seu caminho.

Isha pôs o pé nele.

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