Casamento Predatório

Capítulo 308

Casamento Predatório

Apesar de tudo, Isha resistiu. Era uma questão de honra, como um Kurkan. Ele tinha que ignorar a dor e a fome.

A porta de madeira ficou parada por muito tempo. Só quando ele teve certeza de que nunca sairia dali é que ela finalmente se abriu.

“Ainda inteiro?”

Isha não conseguiu evitar; por um momento, ele se perguntou se seu longo cativeiro havia terminado, e seus olhos brilharam de esperança, de uma excitação frenética. O domador sorriu e abaixou algo pela porta.

“Seu amigo queria te cumprimentar.”

“……!”

Isha não tinha forças para levantar um dedo, mas se retraiu automaticamente. O domador estava mostrando a cabeça de Mel.

“Era tudo o que sobrou depois que os cães o comeram”, acrescentou o domador com ar jovial. Todas as crianças Kurkan tinham assistido ao corpo sendo devorado e, por isso, ficaram muito mais obedientes.

Isha encarou o rosto de Mel e sentiu a malícia daquelas palavras. Aquele era o seu amigo, que tanto queria voltar para casa. Ele não tinha permissão para descansar nem na morte.

O domador riu da fúria óbvia de Isha.

“Talvez você precise de um pouco mais de tempo para pensar.”

A porta de madeira se fechou novamente. Depois que ele saiu, Isha ficou parado por um longo tempo.

Depois daquele dia, ele começou a ver coisas.

—Isha, Isha….

Mel soluçava enquanto sentava no chão ao lado dele. Mas quando Isha olhou para cima, o corpo de Mel havia desaparecido, devorado pelos cães, restando apenas a cabeça. Havia lágrimas de sangue em seu rosto.

—É sua culpa, eu estou morto por sua causa!!

Isha queria dizer que sentia muito. Mas ele não conseguia falar, não conseguia nem respirar. Além de Mel, as outras crianças Kurkan choravam, atormentadas.

—Salva a gente, Isha! Salva a gente…!

Elas se contorciam de dor enquanto eram espancadas, e Isha só conseguia assistir.

Ele acordou com o som de gritos, e depois disso, não conseguiu mais dormir. Ele vagava em um estado de atordoamento, sentindo a dor lancinante de suas feridas infeccionadas.

Finalmente, ele percebeu. Esse sofrimento não ia acabar. Era perfeitamente possível que ele vivesse assim para sempre.

Ele estava fraco. Não conseguia aguentar mais. Se um domador aparecesse agora, Isha imploraria para ele fazer aquilo parar, mesmo sabendo que era o que eles queriam. Ele gritaria que sentia muito se isso fizesse eles abrirem a porta. Seus olhos se fixaram na porta, com vontade de bater nela, não importando o quanto machucaria suas mãos.

Mas ele não podia fazer nada. Seu corpo inteiro estava acorrentado, e os únicos sons que escapavam pela mordaça eram gemidos de agonia. Sua respiração enfraqueceu. Ele não se importava mais com orgulho. Apenas um pensamento preenchia sua mente.

Quero morrer.

Ele queria que aquilo acabasse. Doía tanto. Angustiado, Isha orou a Deus, a quem não buscava há muito tempo.

Deus, por favor, por favor, deixe-me morrer.

Mas, como sempre, Deus não respondeu. Isha estava preso num inferno do qual não conseguia escapar, nem mesmo na morte, e estava enlouquecendo.

Um dia ele amaldiçoou o mundo. Outro dia ele se amaldiçoou. Mas até essa capacidade se perdeu, à medida que isso ia se prolongando, e ele não conseguia mais pensar o suficiente para amaldiçoar.

Só havia o desejo pela morte, quando a dor terminaria.

“……!”

A porta de madeira se abriu.

Um feixe de luz encheu aquele lugar escuro. Seus olhos, acostumados à escuridão, demoraram a se ajustar ao brilho repentino, e levou algum tempo antes que ele pudesse enxergar.

Isha piscou. Não conseguia acreditar no que estava vendo. Ele já havia alucinado muitas coisas, mas nunca nada parecido com aquilo.

Havia uma garota, brilhando de branco na luz. Seus cabelos prateados estavam despenteados, suas bochechas rosadas e seus olhos de um roxo vivo.

Seu rosto ainda era jovem, redondo e infantil, e Isha subitamente pensou ao olhar para aquela criatura adorável…

Ela parece um floco de neve…

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