
Capítulo 306
Casamento Predatório
Lentamente, Mel afundou-se de joelhos. Então, abaixou a cabeça até que a testa tocou o chão, em uma completa humilhação. Quando ergueu a cabeça, seus olhos estavam desfocados, olhando para frente como se estivesse morto.
“Sou apenas um humilde escravo”, sussurrou ele, com a voz quebrada e os lábios tremendo. “Nunca mais me rebelarei. Sou um escravo. Serei obediente aos domador.”
Isha mordeu o lábio até sentir o gosto do sangue enquanto o domador batia no ombro de Mel, o rosto cheio de satisfação. E então ele riu, o som ecoando nos ouvidos de Isha.
O domador acabou por ir embora, deixando Mel para trás em um silêncio constrangedor. Nenhum dos Kurkans ousou se aproximar dele, mas Isha finalmente foi até ele.
“Mel.”
Por um longo momento, não houve resposta. Seus olhos permaneceram fixos no chão. Quando finalmente se desviaram para cima, ainda estavam desfocados e sem expressão.
“Quero ir para casa”, sussurrou ele.
Isha não tinha o que dizer. Queria dizer ao amigo que sim, que um dia voltariam para o deserto Kurkan, mas sabia que era quase impossível. Não podia mentir, mas agarrou a mão de Mel, tentando confortá-lo.
O outro menino soluçava.
“Desculpa”, disse ele, apertando a mão de Isha.
Naquela noite, Mel se enforcou.
Isha foi quem descobriu seu corpo sem vida.
…
O corpo estava imóvel na penumbra vacilante da tocha. Isha olhava, em branco e descrente, mas os olhos de Mel não se abriram. Não importava quanto tempo Isha esperasse, ele nunca mais abriria os olhos.
Isha não tentou chamá-lo, nem sacudi-lo para acordá-lo. Não tentou aquecer aquele corpo frio, nem trazer de volta o batimento cardíaco que havia parado. Ele sabia que tudo isso seria inútil. Já havia tentado tantas vezes antes, com tantas outras pessoas.
De repente, ele se lembrou da criança sem nome que havia morrido em seu lugar, e se lembrou da oração.
“Que você…” Sua voz tremeu, quebrando-se. “Que você descanse como a areia do deserto…”
Era muito difícil. Ele rangeu os dentes enquanto a dor da perda o atingia, queimando em seu peito. Parecia que chamas iriam explodir dele se ele tentasse falar.
Quando as outras crianças Kurkan descobriram o corpo de Mel, gritaram por ele.
“Aghhh!”
“Mel… Mel…!”
Isha observava o corpo de Mel pendurado entre todas as crianças chorando, impassível. Ele ouviu a porta de ferro se abrir e os domadores entraram, gritando.
“Saiam! Saiam da frente!”
Os Kurkans contiveram as lágrimas diante dos gritos furiosos, forçando as pernas a se moverem para sair do caminho. Mas Isha não se moveu. Ele ficou onde estava, ouvindo a discussão rápida dos domadores sobre o que fariam com o corpo.
“Ele teria sido vendido por um bom preço, que azar.”
“Bem, temos que fazer alguma coisa antes que ele comece a cheirar mal.”
“Por que não jogá-lo para os cachorros?”
Ouvindo em silêncio, o olhar de Isha se desviou para um canto, onde uma barra de ferro jazia sobre um braseiro apagado. As pontas da barra eram rombas, mas era o suficiente para fazer o serviço.
Ao pensar no que iria fazer, ele soube que era loucura. Não devia fazer isso. Mas sua fúria era maior do que tudo isso.
“Quem diria que o pequeno bastardo se mataria por orgulho?”
“Selvagens, por isso são bestas. É o que bárbaros fazem.”
Nem tudo deve ser feito com base na fria racionalidade.
“Domador”, disse Isha suavemente.
O domador, que estava reclamando em voz alta sobre uma bronca do negociante de escravos, virou a cabeça, e Isha se moveu antes que ele pudesse reagir.
A longa barra de ferro com sua ponta romba atravessou seu pescoço, e o sangue do domador respingou nas mãos de Isha. Ele sorriu.
“…Agghhh!” O domador gritou, os olhos esbugalhados, vermelhos e inchados.
“Este é um Kurkan”, sussurrou Isha.