
Capítulo 75
Casamento Predatório
Os traficantes de escravos tinham suas próprias demonstrações de hospitalidade. Transmitir gentileza e boa vontade era crucial para eles, pois ajudava a ganhar a confiança de seus companheiros cautelosos.
O Conde Valtein, que testemunhava a cena, permaneceu impassível. Ficou ali, rígido, preocupado com a ideia de que Ishakan os observava nas sombras.
No entanto, ele sabia que Leah não poderia recusar o favor dos traficantes. E, para piorar as coisas, ela não podia se dar ao luxo de agir impulsivamente, pois estava sendo observada por todos ao redor.
Eles esquadrinhavam cada movimento dela. Qualquer ato impensado poderia dissolver instantaneamente a pouca confiança que ela havia conseguido gerar, um erro que Leah não podia cometer.
Com o passar do tempo, um escravo homem se aproximou para atender Leah. Assim como as escravas mulheres, ele estava vestido com roupas coloridas e segurava um cálice de vinho. No entanto, seu corpo delgado chamou sua atenção, pois tinha um tipo físico semelhante ao de Haban.
A diferença mais óbvia entre eles estava nos músculos; a construção de Haban pode ser considerada magra, mas ela parecia tonificada e forte. No entanto, o escravo homem parecia ter apenas pele e osso.
Ele possuía a quintessência[1] dos olhos claros e pele escura dos Kurkan, mas não tinha um único músculo. Se não fossem as tatuagens na nuca, Leah não teria percebido que ele era um Kurkan.
[1] Quintessência: qualidade mais pura de uma coisa.
Caminhando suavemente, o escravo se aproximou de Leah, sentando-se ao lado dela. Ele emanava um doce cheiro de pêssego. O perfume frutado a fez estremecer.
O traficante de escravos, que ainda acariciava a escrava Kurkan ao seu lado, olhou para Leah. "Você não gostou?", disse ele. "Ele é um escravo precioso, que estou te dando. Ou talvez prefira um mais atlético?"
Ele se preparou para chamar outro escravo, pronto para substituir o Kurkan fraco que estava ao lado dela. No entanto, ciente da situação delicada, ela não podia permitir que mais estranhos entrassem, então Leah o interrompeu imediatamente.
"Não, está tudo bem. Eu não esperava que isso acontecesse durante nossa reunião", respondeu ela, a voz embargada.
"Você não precisa ser tão formal. Apenas fique à vontade e relaxe. Divirta-se!", exclamou o traficante de escravos. Ele apertou a escrava Kurkan com mais força, puxando-a para perto, fazendo-a exclamar.
Leah franziu a testa. Ela se sentia como se estivesse sentada em uma cadeira de espinhos. O escravo serviu-lhe um copo de vinho doce de frutas.
"Por favor, tome um pouco, senhora."
No entanto, Leah não aceitou a bebida que ele ofereceu, e o traficante de escravos, ao perceber isso, franziu a testa com desânimo, os olhos semicerrados. Então ele perguntou: "Você não gosta do vinho?"
Com sua pergunta, Leah ergueu sua taça apenas para umedecer os lábios. O sabor intenso do vinho percorreu sua língua, e ela olhou para o homem, que agora sorria alegremente. Uma sensação estranha a invadiu, e ela não conseguia encontrar as palavras certas para expressá-la.
Era uma tarefa difícil escravizar os Kurkans, pois eram guerreiros natos. No entanto, quanto mais difícil a tarefa e quanto mais cobiçado o resultado, maior seu valor. Se os Kurkans também fossem particularmente bonitos, esse valor só aumentaria, tornando-se praticamente incalculável.
Como resultado, os traficantes de escravos se dedicavam essencialmente a escravizar essas mercadorias excepcionais, com a intenção de satisfazer seus clientes gananciosos. Mas isso levantava a questão: como tudo isso era possível se os Kurkans eram guerreiros tão orgulhosos? Certamente, os traficantes de escravos poderiam ser facilmente derrotados.
A resposta, então, estava na juventude vulnerável dos Kurkans.
Kurkans maduros eram lutadores fortes e experientes. Era quase impossível capturá-los, e ainda mais difícil domá-los. No caso de serem capturados, a probabilidade de fuga era muito alta. Portanto, os traficantes procuravam aqueles que ainda eram jovens e ingênuos, pois eram fundamentalmente incapazes de lutar contra seus sequestradores.
Era um ciclo repugnante. Um Kurkan jovem e inculto não era diferente de uma jovem fera. Eles eram fracos, careciam de treinamento e podiam ser facilmente treinados como escravos ao longo do tempo por meio de uma educação rigorosa.
No entanto, sua educação estaria longe de ser normal. Eles seriam espancados e abusados severamente até que suas identidades como Kurkan evaporassem, esquecendo o que um dia foram. Eles eram ensinados submissão e obediência por meio da violência implacável, até se tornarem escravos dóceis incapazes de se opor a seus senhores mesmo após atingirem a idade adulta.
Devido a esse processo exigente, escravos Kurkan eram negociados a preços extremamente altos. No entanto, embora os traficantes quisessem adotar essa prática com frequência, pois lhes rendia grandes somas, não conseguiam. Eles rapidamente ficavam sem esses escravos, já que escravos Kurkan eram uma raridade extraordinária.
Uma base de consumidores estava desesperada para obtê-los, o que deixava os traficantes de escravos e mercenários ansiosos. Seus olhos estavam vermelhos, envenenados pela ganância e pelo desejo.
Mais tarde, uma rota de comércio de escravos foi estabelecida, com Estia como base. Estia representava um lugar privilegiado para isso, pois fazia fronteira com o deserto ocidental, que era o lar dos Kurkans.