
Volume 3 - Capítulo 7
Sword Art Online
Foi a velocidade que originalmente chamou a atenção de Leafa, e agora ela percebeu tardiamente o dano incrível que ele estava infligindo. Aqueles dois salamanders não estavam com o HP cheio para começar, mas ainda tinham uma boa parte de sua vida restante. Um único golpe eliminando-os era simplesmente anormal.
A equação para calcular o dano em ALO não era muito complicada. Levava em consideração apenas o poder da arma, o local do acerto, a velocidade do ataque e a armadura do alvo. Neste caso, o dano da arma seria mínimo, e a armadura dos salamanders era formidável. O que significava, por processo de eliminação, que a precisão e a velocidade deste garoto tinham que ser fora de série.
Ele se levantou facilmente de novo e mirou no líder dos salamanders, que ainda pairava no ar. Descansou a espada em seu ombro e perguntou: — E aí? Quer tentar a sorte?
O salamander atordoado recuperou a compostura e respondeu ao desafio direto do garoto com um sorriso de escárnio.
— Não, obrigado. Sei que não posso vencer. Se quiser meus itens, eu os deixarei para você. Minha habilidade de magia está quase em novecentos — prefiro não sofrer a penalidade por morrer.
— Pelo menos você é honesto. — O garoto sorriu. Ele se virou para Leafa. — E você, moça? Se quiser lutar com aquele cara, não vou interferir.
Ela teve que rir dessa demonstração de contenção, dada a sua total falta dela antes. De repente, sua determinação de levar pelo menos um dos salamanders com ela pareceu um pouco sem sentido.
— Vou passar. Mas da próxima vez, eu vou te vencer, salamander.
— Bem, duvido que eu conseguiria te vencer no mano a mano de qualquer maneira — disse o guerreiro vermelho, abrindo suas asas. Com um brilho de poeira de fada, ele voou. Um breve farfalhar de galhos soou acima, e ele desapareceu no céu noturno escuro. Apenas Leafa, o garoto vestido de preto e duas Remain Lights vermelhas restaram. Em um minuto, ambas as chamas se foram.
Ela se virou para o garoto, um pouco nervosa novamente.
— Então... o que eu deveria fazer agora? Agradecer? Fugir? Ou sacar minha lâmina?
Ele brandiu sua espada rapidamente antes de guardá-la de volta na bainha em suas costas.
— Pessoalmente, dado que eu sou meio que o cavaleiro heroico que salvou a princesa do vilão nesta pequena cena — ele sorriu de canto — eu aceitaria um abraço caloroso e cheio de lágrimas da princesa agradecida...
— O quê? Você está louco?! — Leafa gritou, seu rosto de repente quente. — Prefiro lutar com você!
— Ha-ha-ha, estou apenas brincando.
Ela rangeu os dentes com nojo de sua alegria óbvia, mas antes que pudesse pensar em uma resposta rápida, uma terceira voz surgiu do nada.
— I-isso mesmo! Ela não pode fazer isso!
Parecia uma garota jovem. Leafa olhou ao redor da clareira, mas não viu ninguém. O garoto se apressou em responder.
— Ei, eu te disse para não sair!
Olhando mais de perto, ela viu algo brilhando, tentando escapar do bolso da túnica do garoto. Aquilo se soltou e dançou ao redor de seu rosto, fazendo pequenos sons de sinos o tempo todo.
— Os únicos que podem abraçar o Papai são a Mamãe e eu!
— P-Papai?
Leafa teve que dar vários passos para mais perto para ver que era uma pequena fada, pequena o suficiente para pousar na palma de sua mão — uma Pixie de Navegação, do tipo que poderia ser invocada pela janela de ajuda. Mas elas deveriam apenas dar respostas prontas para perguntas básicas do jogo.
Ela esqueceu sua suspeita do garoto por um momento e encarou a fada que circulava.
— Uh, não, não é o que você...
Ele apressadamente tentou cobrir a pixie com as duas mãos, sorrindo nervosamente. Leafa espiou por entre suas mãos. — Ei, essa é uma daquelas pixies particulares?
— Eh?
— Sabe! Do tipo que foi distribuído por sorteio para aqueles que fizeram a pré-compra do jogo... Uau! Eu nunca vi uma antes.
— Não, eu não sou uma— mghf! — a pixie falou antes que o garoto a cobrisse de novo.
— S-sim, isso. Tive sorte no sorteio.
— Hmmm...
Leafa deu ao garoto outro olhar avaliador, este da cabeça aos pés.
— O-o quê?
— Só pensando... você é bem estranho. Para alguém que está no jogo desde antes do lançamento, seu equipamento parece de iniciante. E, no entanto, você foi super forte lá atrás.
— B-bem, eu criei a conta há muito tempo... mas só comecei a jogar recentemente. Eu estava ocupado com... outro VRMMO.
— Oh?
Isso não respondeu totalmente à sua suspeita, mas se ele tivesse se acostumado com o AmuSphere em outro jogo, isso pelo menos explicaria seus reflexos incríveis.
— Mas o que um spriggan está fazendo tão longe por aqui? Seu território deveria ser bem, bem a leste.
— P-porque... eu me perdi...
— Perdido?! — Leafa não pôde deixar de cair na gargalhada com sua desculpa patética. — Qual é! O senso de direção de ninguém é tão ruim! Você é uma figura!
Agora uma gargalhada genuína surgiu com a expressão ofendida dele. Depois de rir um pouco às custas dele, Leafa guardou sua longa katana na bainha.
— Bem, suponho que você mereça algum reconhecimento. Obrigada por me salvar. Meu nome é Leafa.
— Sou Kirito, e esta é Yui. — Ele abriu as mãos para revelar a pixie. Ela fez uma reverência e voou para pousar em seu ombro.
Leafa ficou um pouco surpresa ao perceber que realmente queria sentar e conversar com esse garoto chamado Kirito. Era especialmente raro para ela — ela não era particularmente tímida, mas não fazia amigos facilmente neste jogo. Ele não parecia ser uma má pessoa, então ela reuniu coragem e perguntou: — O que você vai fazer depois disso?
— Uh, nada em particular...
— Oh. Nesse caso... por que não me deixa pagar um jantar para você?
O garoto chamado Kirito deu a ela um sorriso de orelha a orelha. Leafa ficou impressionada por dentro. Os jogos de VR ainda não tinham conseguido uma simulação emocional fina muito bem, e poucas pessoas conseguiam fazer um sorriso parecer tão natural.
— Seria ótimo. Estou procurando alguém para me ensinar coisas.
— Sobre o quê?
— Sobre este mundo. Especialmente — ele parou de sorrir e se virou para o nordeste — aquela árvore.
— A Árvore do Mundo? Claro. Acredite ou não, eu mesma sou veterana por aqui. Vai ser uma pequena viagem, mas eu recomendaria ir para a cidade neutra ao norte.
— Tem certeza? Não há uma cidade chamada Swilvane que é mais perto?
Leafa olhou para ele, exasperada. — É verdade, tem sim. Mas você realmente não sabe de nada, não é? Aquele é território dos sylphs.
— E isso é ruim? — ele perguntou inocentemente.
Ela ficou atônita. — Bem, você não pode atacar nenhum sylph dentro de uma cidade sylph, mas eles podem atacar você.
— Ah, entendi... Mas eles não vão sair correndo para me atacar todos de uma vez, vão? Você estará comigo, Senhorita Leafa. Além disso, eu gostaria de ver a terra dos sylphs; ouvi dizer que é linda.
— Só 'Leafa' está bom. Você realmente é estranho. Bem, se você insiste, não me importo, mas... não posso garantir que você sairá vivo — disse ela, dando de ombros. Ela mesma amava o território natal dos sylphs, então não doeu ouvi-lo elogiá-lo. Ela também se sentiu atraída pela ideia de chocar todos os seus conhecidos ao escoltar um raro spriggan pela cidade.
— Certo, vou te levar voando para Swilvane. De qualquer forma, está na hora de todo mundo entrar no jogo.
Ela verificou a janela para confirmar que passava um pouco das quatro da tarde. Ela ainda tinha um tempinho para jogar.
O poder de voo de Leafa estava quase todo recarregado; ela bateu suas asas brilhantes uma ou duas vezes. Kirito falou, curioso.
— Espera, você pode voar sem um controle?
— Claro que posso. E você?
— Mal aprendi a usar essa coisa. — Kirito fez o gesto de agarrar com a mão esquerda.
— Ah. Bem, há um jeito para usar o Voo Voluntário. Algumas pessoas pegam o jeito na hora; outras nunca conseguem. Vamos tentar, que tal? Vire-se e não puxe o controle.
— Uh, ok.
Kirito deu meia-volta, e ela estendeu os dedos indicadores para tocar logo acima das omoplatas de suas costas esbeltas. A pixie em seu ombro olhava com uma curiosidade fascinada.
— Consegue dizer onde estou tocando?
— Sim.
— Chamam de Voo Voluntário, mas você não começa a voar só com a imaginação. Você tem que assumir que há ossos e músculos virtuais saindo deste ponto e movê-los.
— Ossos e músculos virtuais...
Ele repetiu as palavras vagamente e contraiu as omoplatas. Em resposta, as asas cinzentas e intangíveis que brotavam através de sua roupa preta começaram a tremer com seu movimento.
— Sim, é isso. Primeiro, você só precisa mover todos os músculos dos ombros e das costas até pegar o jeito de quais estão conectados às suas asas!
Assim que ela disse isso, as costas do garoto se contraíram para dentro. A vibração de suas asas aumentou de tom até atingir um zumbido agudo.
— Sim, é isso aí! Tente de novo, mas com mais força!
Kirito encolheu os braços, grunhindo com o esforço. Assim que ela sentiu que ele havia acumulado impulso suficiente, Leafa deu um tapa vigoroso em suas costas.
— O qu...?
De repente, o spriggan disparou para cima como um foguete.
— Aaaaahhh...
O lamento de Kirito ficou distante enquanto seu corpo ficava cada vez menor. Um breve farfalhar de folhas acima, e ele já estava além da copa da floresta.
— ...
Leafa e a pixie que havia caído do ombro de Kirito se entreolharam.
— Uh-oh.
— Papai!!
As duas rapidamente alçaram voo atrás dele. Uma vez fora da floresta, elas vasculharam o céu noturno até notarem uma figura instável ziguezagueando contra o fundo da lua dourada.
— Aaaaaahhh... me deixem saiiiir...
O lamento lastimoso ecoou pelo céu vasto e aberto.
— Pfft!
Leafa e Yui trocaram outro olhar e caíram na gargalhada juntas.
— Ha-ha-ha-ha-ha!
— D-desculpe, Papai, mas isso é engraçado demais!
Elas pairaram lado a lado, segurando a barriga de tanto rir. Quando o riso diminuiu, um novo lamento de Kirito veio flutuando ao vento, e elas voltaram a rir.
Chutando as pernas inutilmente, Leafa se perguntou quando foi a última vez que deu uma risada tão boa quanto esta. Certamente não aqui neste jogo.
Depois de se livrar das crises de riso, Leafa agarrou o colarinho de Kirito para parar sua trajetória de voo selvagem. Ela lhe deu outra lição sobre o jeito do Voo Voluntário, e após apenas uma aula de dez minutos, ele já conseguia voar instavelmente por conta própria.
— Uau... isso é... ótimo! — exclamou ele enquanto tentava fazer curvas abertas e loopings.
— Não é? — Leafa riu.
— É tão... não sei, emocionante. Eu queria poder continuar voando assim para sempre...
— Eu sei!
Em sua empolgação, Leafa bateu as asas para voar em paralelo ao lado de Kirito.
— Não é justo! Eu também! — a pixie piou, tomando um lugar entre eles.
— Quando você se acostumar, pratique esses movimentos de costas e omoplatas para que fiquem o menor possível. Se você for muito grande e desajeitado, não conseguirá balançar sua espada corretamente durante uma batalha aérea. Bem, você está pronto para voar para Swilvane? Siga-me!
Ela fez uma curva fechada e verificou suas direções antes de partir para o outro lado da floresta. Manteve a velocidade baixa, sabendo que era a primeira vez de Kirito, mas ele logo a alcançou.
— Você pode ir mais rápido, sabe.
— Ah, é? — Ela sorriu e dobrou as asas bruscamente, acelerando o passo. Ela foi cada vez mais rápido, esperando ouvir Kirito mudar de ideia. O ar açoitava todo o seu corpo, o vento uivando em seus ouvidos.
Mas, surpreendentemente, mesmo a 70 por cento de sua velocidade máxima, Kirito a acompanhava. Normalmente, uma pessoa diminuiria a velocidade bem antes da velocidade máxima de voo designada pelo sistema do jogo, devido à pura pressão mental. O fato de ele conseguir alcançar tal alcance em sua primeira tentativa de Voo Voluntário falava de uma força de vontade muito firme.
Leafa cerrou os dentes e atingiu sua aceleração máxima. Ela nunca tinha ido tão rápido com um parceiro antes — ninguém mais conseguia acompanhar.
A floresta abaixo dela era um borrão confuso. O zumbido agudo de violino do voo sylph se misturava harmoniosamente com o assobio do sopro de madeira das asas do spriggan.
— Aaah, eu não aguento mais...
Yui, a pixie, voltou rapidamente para o bolso da camisa de Kirito. Ele e Leafa trocaram um olhar e depois riram.
Logo a floresta rareou à frente, e um emaranhado de luzes de cores diferentes apareceu. No centro, erguia-se uma torre radiante, mais brilhante que o resto. Eles haviam chegado a Swilvane, capital da região sylph, e sua icônica Torre do Vento. À medida que se aproximavam, as ruas principais e uma variedade de jogadores cuidando de seus afazeres entraram em vista.
— Ei, ali está — gritou Kirito por cima do uivo do vento.
— Vamos pousar na base daquela torre no centro! Uh... espera... — O sorriso congelou no rosto de Leafa quando algo lhe ocorreu. — Kirito, você sabe como pousar...?
— ...
Ele também congelou.
— Não sei...
— Umm...
A enorme torre já ocupava metade do campo de visão deles.
— Desculpe, tarde demais agora. Boa sorte! — Leafa sorriu se desculpando e se preparou para diminuir a velocidade. Ela esticou as asas para pegar o ar e começou a descer para a praça, com as pernas esticadas à sua frente.
— O quê...? Você só pode estar brincando comigoooo...
O spriggan mergulhou direto em direção à parede externa da torre, ainda gritando. Leafa o observou ir e fez uma oração silenciosa em sua honra.
Vários segundos depois, o ar tremeu com um tremendo estrondo.
— Isso foi maldade, Leafa... Vou ficar com medo de voar agora.
Kirito a encarou vingativamente enquanto se sentava no canteiro de flores de cores vibrantes na base da torre verde-jade.
— Fiquei muito tonta! — exclamou a pixie em seu ombro, sua cabeça balançando em círculo. Leafa se inclinou, com as mãos na cintura, tentando não rir.
— É o que acontece quando você se empolga demais. Considere-se sortudo por ter sobrevivido. Eu tinha certeza de que você estava morto.
— Puxa, obrigado pelo voto de confiança.
Ele havia batido de cara na parede em alta velocidade, mas Kirito ainda tinha mais da metade de seu HP restante. Ele realmente era um novato misterioso. Ele teve apenas sorte ou sabia como se proteger do impacto?
— Não se preocupe, eu vou te curar — ela o tranquilizou, cantando o encantamento de cura com a mão direita estendida para ele. Gotas de orvalho azul brilhante saíram de sua palma e caíram sobre Kirito.
— Ah, legal. Então isso é magia, hein? — Kirito a observava com intenso interesse.
— Você não pode usar magia de cura de alto nível a menos que seja um undine. Mas as mais básicas são totalmente essenciais, então você deveria aprendê-las.
— Então as diferentes raças têm diferentes afinidades mágicas, hein? E os spriggans?
— Eles são bons em caça ao tesouro e magia de ilusão, eu acho. Nenhuma das duas é muito útil em batalha, o que significa que eles são na verdade a raça menos popular.
— Vixe... é por isso que se deve pesquisar primeiro — gemeu Kirito, levantando-se. Ele se espreguiçou amplamente e lançou um olhar ao redor da área. — Uau, então é assim que a cidade dos sylphs se parece! É realmente linda.
— Não é? — Leafa examinou sua cidade natal familiar com ele.
Swilvane também era conhecida como a "Cidade de Jade". Torres delicadas eram conectadas por uma série de complexos caminhos aéreos, e tudo na cidade brilhava com um tom de verde-jade ou outro. Quando todo o lugar era iluminado pelas luzes brilhantes da noite em meio à escuridão, a visão era nada menos que pura fantasia. Em particular, Leafa acreditava que o esplendor da mansão do lorde atrás da Torre do Vento era incomparável a qualquer outro edifício em Alfheim.
Ambos ficaram em silêncio, observando as pessoas passarem pela cidade de luzes, quando uma voz de repente chamou da direita.
Ela se virou para ver um jovem sylph de cabelos verde-amarelados correndo e acenando freneticamente.
— Ah, Recon. Sim, estou bem.
Ele parou na frente de Leafa, seus olhos brilhando. — Isso é simplesmente incrível. Se alguém pudesse escapar de um grupo tão grande de inimigos, seria... uh...
Recon tardiamente notou a figura escura ao lado de Leafa, e ele congelou por vários segundos, com a boca aberta.
— O quê... v-você é um spriggan! O que está fazendo aqui? — Ele deu um salto para trás e colocou a mão em sua adaga, mas Leafa rapidamente interveio.
— Está tudo bem, Recon. Ele me salvou.
— Uh...
Ela apontou para Recon, que ainda estava confuso. — Este é Recon, um bom amigo. Ele foi derrotado por aqueles salamanders um pouco antes de eu te conhecer.
— Desculpe não ter chegado antes, então. Oi, sou Kirito.
— Hum, prazer em conhecê-lo. — Ele apertou a mão estendida de Kirito e curvou-se profundamente. — Espere, não! — Recon saltou para trás novamente. — Você tem certeza disso, Leafa? E se ele for um espião?
— Eu também tive minhas dúvidas no início. Mas ele parece um pouco avoado demais para ser um espião.
— Ei, isso é maldade!
Recon observou Leafa e Kirito rirem, com desconfiança em seus olhos, depois pigarreou para chamar a atenção deles.
— Sigurd e o resto já estão sentados no Daffodil Hall. Eles vão dividir os itens lá.
— Ah, entendi. Umm...
Quando morto por um jogador inimigo, qualquer personagem tinha 30% de chance de ter seu equipamento roubado. No entanto, quando em um grupo, havia espaços de seguro disponíveis para guardar itens de valor particular. Se o jogador fosse morto, esse item seria automaticamente transferido para outro membro do grupo para custódia.
Qualquer coisa de valor da caçada do dia foi marcada como seguro, o que significava que, como última sobrevivente do grupo, Leafa acabou com todos os espólios. Os salamanders sabiam disso, daí sua persistência em persegui-la. Graças a Kirito, no entanto, ela conseguiu trazer todo o saque de volta para Swilvane.
Normalmente, o grupo se encontraria de volta em uma taverna para que todos os membros, sobreviventes ou mortos, pudessem redistribuir o saque. Leafa ponderou por um momento antes de responder a Recon.
— Vou passar. Nenhum dos itens serve para minhas habilidades, de qualquer forma. Vou deixá-los com você para dividir entre os outros.
— Uh... você não vem?
— Não. Eu prometi ao Kirito uma refeição grátis.
— ...
Agora Recon deu a Kirito um olhar avaliador de um tipo totalmente diferente.
— Não tenha nenhuma ideia engraçada, ok? — Ela deu um chute nas pontas das botas de Recon e depois abriu uma janela de troca, despejando todos os espólios do dia no inventário dele. — Apenas me mande uma mensagem quando a próxima caçada for agendada, e eu participarei se o horário der. Até mais!
— Hum, Leafa...
Mas ela estava ficando desconfortável sob o escrutínio. Depois de forçar um fim prematuro à conversa, Leafa agarrou a manga de Kirito e o puxou para longe.
— Então, aquele cara era seu namorado?
— Ele era seu amante?
— Com licença?! — Leafa tropeçou nas pedras do pavimento com as perguntas simultâneas de Kirito e Yui. Suas asas se abriram enquanto ela recuperava o equilíbrio. — De jeito nenhum! Ele é apenas um membro do grupo!
— Vocês dois pareciam bem próximos para conhecidos de jogo.
— Bem, eu o conheço na vida real — ele é um colega de classe na escola. Mas é só isso.
— Jogar um VRMMO com seu colega de classe, hein? Isso parece divertido — disse Kirito com nostalgia, mas Leafa fez uma careta.
— Não é tudo de bom, na verdade. Às vezes te lembra da lição de casa que você precisa fazer.
— Ha-ha-ha, bom ponto.
Eles seguiram por um beco enquanto conversavam. O sylph ocasional que passava dava uma segunda olhada para o cabelo preto de Kirito, mas a visão de Leafa o acompanhando os impedia de expressar qualquer suspeita. Leafa não era a jogadora mais ativa do jogo, mas era bem conhecida na cidade por vencer os torneios de luta regulares de Swilvane em várias ocasiões.
Eventualmente, uma aconchegante taverna-pousada apareceu. Era o Lírio do Vale, um dos favoritos de Leafa por sua excelente seleção de sobremesas.
Ela empurrou a porta basculante e examinou a sala, descobrindo que não havia jogadores lá dentro. Em tempo real, era início da noite, então ainda levaria algum tempo até que as pessoas terminassem suas aventuras da noite e voltassem para comemorar com uma bebida.
Ela e Kirito sentaram-se em uma mesa perto da janela nos fundos.
— É tudo por minha conta, então peça o que quiser.
— Nesse caso...
— Só não coma demais, ou vai ser difícil depois de deslogar — disse Leafa, olhando para o tentador menu de sobremesas.
Misteriosamente, a sensação virtual de saciedade depois de comer uma refeição em Alfheim não desaparecia por um tempo depois de sair do jogo. A capacidade de comer todos os doces que aguentasse sem se preocupar com calorias era uma das maiores atrações de um VRMMO para Leafa. A desvantagem era a bronca de sua mãe quando ela aparecia para o jantar sem apetite.
Não era incomum ver notícias sobre pessoas sofrendo de desnutrição porque usavam o sistema como um auxílio para dieta. Pior ainda eram os jogadores assíduos que passavam a vida inteira no jogo e morriam de fome porque a comida do jogo os enganava, fazendo-os esquecer de comer.
Leafa pediu um bavarois de frutas, Kirito uma torta de nozes e Yui um biscoito de queijo, para a surpresa de Leafa. Para beber, eles pediram uma garrafa de vinho com especiarias. A garçonete NPC colocou seus pedidos na mesa assim que eles os fizeram.
— Bem, vamos oficializar: obrigada por me salvar.
Eles brindaram com seus copos de estranho vinho verde, e Leafa jogou o líquido frio pela garganta seca. Kirito encheu seu copo novamente tão rápido quanto e sorriu para ela.
— Ah, aconteceu assim... Aqueles caras estavam com muita vontade de lutar, no entanto. Vocês têm muitas dessas gangues de PK por aqui?
— Bem, salamanders e sylphs já estão em conflito para começar. Nossos territórios são adjacentes, então há constantes confrontos nos campos de caça entre nós, e tem havido muita competição por poder. É só recentemente que tem havido PKs organizados assim, no entanto. Tenho quase certeza de que eles devem estar planejando um ataque à Árvore do Mundo em breve...
— Falando nisso, preciso que você me ensine sobre a Árvore do Mundo.
— É verdade, você mencionou isso. Mas por quê?
— Eu quero chegar ao topo dela.
Ela lhe deu um olhar exasperado. Mas ele não estava brincando — seus olhos negros brilhavam sinceramente.
— Bem... é o que todo jogador no jogo quer fazer. Na verdade, é a maior missão do jogo de ALfheim Online.
— Ou seja?
— Você sabe sobre os limites de voo, certo? Cada raça no jogo só pode voar por cerca de dez minutos de cada vez, no máximo. Mas a raça que chegar primeiro à cidade flutuante no topo da Árvore do Mundo — e encontrar o Rei das Fadas Oberon — renascerá como uma nova raça superior chamada alfs. Depois disso, você poderá voar o quanto e por quanto tempo quiser.
— Entendi — murmurou Kirito, dando uma mordida em sua torta de nozes. — É uma história tentadora. Alguém sabe o caminho para chegar ao topo da árvore?
— Dentro das raízes sob a árvore há uma cúpula gigante. Há uma entrada no teto da cúpula que permite subir pelo interior da árvore, mas os guardiões NPC que vigiam a cúpula são superpoderosos. Um monte de raças diferentes tentou desafiá-los, mas fomos aniquilados todas as vezes. Os salamanders são a raça mais poderosa no momento. Provavelmente estão reunindo forças agora, juntando dinheiro para equipamentos e itens, pensando que da próxima vez será a vez deles.
— Então esses guardiões são tão fortes assim, hein?
— É insano. ALO abriu há um ano. Que jogo tem uma missão que você não consegue vencer mesmo depois de um ano de jogo?
— Bom ponto...
— Bem, no outono passado, um dos principais sites de fãs de ALO iniciou uma petição para que a RCT reequilibrasse a missão.
— Ah, é mesmo? E...?
— Eles nos deram esta resposta pronta. 'O jogo está devidamente equilibrado de acordo com as especificações da equipe.' Ultimamente, muitas pessoas estão dizendo que nossa estratégia atual nunca vai funcionar.
— Será que uma missão principal da história foi perdida, ou que é simplesmente impossível para uma única raça conquistar por conta própria?
Leafa estava prestes a colocar outra colherada de bavarois na boca, mas parou para dar a Kirito um olhar surpreso. — Essa é uma ideia muito perspicaz. Acontece que é isso que estamos fazendo agora — verificando para ter certeza de que não perdemos nenhuma missão. Mas se for a segunda opção, isso nunca acontecerá.
— Nunca?
— Quer dizer, é uma contradição. A missão só pode ser vencida pela primeira raça a completá-la. Quem vai ajudar outra raça a completar a missão se isso significa apenas perder o prêmio?
— Então você está dizendo... que a Árvore do Mundo é essencialmente impossível de escalar...?
— Na minha opinião. Quer dizer, existem outras missões, e você sempre pode aumentar suas habilidades de criação... Mas é difícil desistir dela depois que você aprende como é divertido voar... Ainda assim, tenho certeza de que conseguiremos um dia, mesmo que leve cem anos...
— Isso será tarde demais! — Kirito murmurou sombriamente.
Leafa ergueu o olhar assustada e viu uma ruga profunda em sua testa, seus lábios torcidos enquanto ele rangia os dentes em frustração.
— Papai...? — A pixie largou o biscoito que estava segurando com as duas mãos e voou para pousar no ombro de Kirito. Ela esfregou uma mãozinha na bochecha do garoto para confortá-lo. Alguns momentos depois, ele se curvou em resignação.
— Desculpe por te assustar — disse ele baixinho. — Eu preciso chegar ao topo daquela árvore.
Kirito olhou diretamente para ela, seus olhos tão afiados e brilhantes quanto uma lâmina finamente afiada. Leafa de repente percebeu que seu coração havia começado a bater muito mais rápido. Ela tomou um gole rápido de vinho para esconder seu nervosismo.
— Por que é... tão urgente?
— Estou... procurando por alguém.
— O que você quer dizer?
— É difícil de explicar...
Ele deu a ela um sorriso fraco. Mas seus olhos pareciam esconder um profundo poço de desespero. Eram olhos que ela já tinha visto em algum lugar antes.
— Bem... obrigada pela comida, Leafa. Agradeço todos os conselhos. Fico feliz que você foi a primeira pessoa que encontrei. — Ele fez menção de se levantar, mas Leafa inconscientemente estendeu a mão para agarrar seu braço.
— E-espere. Você está indo... para a Árvore do Mundo?
— Sim. Preciso ver por mim mesmo.
— Isso seria imprudente da sua parte... É tão incrivelmente longe, e há monstros difíceis no caminho. Posso ver que você é forte, mas... — E antes que pudesse se conter, as palavras saíram de sua boca. — Quer saber? Eu te levo até lá.
— Hã...? — Os olhos de Kirito se arregalaram. — Não, eu não poderia te pedir para fazer isso. Não quando acabamos de nos conhecer...
— Está tudo bem! Já me decidi!
Leafa virou o rosto para esconder o rubor que havia subido por suas bochechas. Como todos em ALO tinham asas, não havia sistema de viagem rápida. A viagem para Alne, a cidade no centro de Alfheim que ficava ao redor da Árvore do Mundo, era equivalente a uma jornada na vida real. A oferta que ela acabara de fazer, para este garoto que conhecera apenas algumas horas antes, era simplesmente insondável.
Mas... ela simplesmente não podia deixá-lo ir sozinho.
— Você vai estar online amanhã?
— Uh, sim.
— Me encontre aqui às três horas da tarde, então. Eu preciso ir agora. Vá para a pousada no andar de cima para deslogar. Até amanhã!
Antes mesmo de terminar de falar, Leafa estava acenando com a mão para abrir o menu do jogo. Ela podia deslogar instantaneamente em qualquer lugar do território sylph, então ela apertou o botão de uma vez.
— Ei, espere! — Kirito deixou escapar, e ela ergueu o olhar para vê-lo sorrindo para ela. — Obrigado.
Ela fez o seu melhor para sorrir de volta e depois assentiu antes de apertar o botão OK. O mundo brilhou em um arco-íris de luz e depois escureceu. As sensações do corpo de Leafa desapareceram, até que apenas o ardor de suas bochechas e o acelerar de seu coração permaneceram.
Seus olhos se abriram lentamente.
A primeira coisa que viu foi o teto familiar de seu quarto e o grande pôster que ela havia pregado nele. Era um pôster personalizado de uma captura de tela do jogo ampliada o máximo que pôde. A imagem era de uma fada voadora com um longo rabo de cavalo em meio a um bando de pássaros e um céu azul sem fim.
Suguha Kirigaya levantou as mãos e removeu lentamente o AmuSphere. O dispositivo eram dois anéis simples em uma estrutura semelhante a uma coroa: muito mais frágil que o NerveGear original, mas sem a mesma sensação de estar preso no lugar.
Mesmo de volta ao mundo real, suas bochechas ainda estavam em chamas. Ela se sentou na cama, deu um tapa no rosto e soltou um grito silencioso dentro do peito.
Aaaahhh!
Ondas de vergonha tardia a atingiram por sua ousadia. Recon (seu colega de classe Shinichi Nagata) disse uma vez que quando Suguha era Leafa, ela era pelo menos 50% mais ousada. A escapada de hoje estava bem acima dessa marca. Ela se contorceu em agonia, suas pernas batendo na cama.
Ele era um garoto tão estranho. Bem, não havia como dizer se o jogador era realmente um garoto, mas o instinto de Suguha lhe dizia que ele tinha uma idade bem próxima da dela. Mas entre seu comportamento relaxado e suas observações ocasionalmente travessas, era difícil ter certeza.
Sua personalidade não era o único mistério, no entanto. De onde vinha aquela força incrível? Em seu ano jogando ALO, ele foi a primeira pessoa que ela encontrou que não parecia vencível em um duelo. Ela pronunciou o nome dele em voz muito baixa.
— Kirito, hein...?
A primeira vez que Suguha sentiu o desejo de ver um mundo virtual por si mesma foi cerca de um ano após o início do Incidente de SAO.
Até então, o conceito de um VRMMO não era nada além de um alvo de aversão para ela, a ferramenta que havia literalmente roubado seu irmão. Mas quanto mais ela segurava a mão de Kazuto enquanto ele dormia em sua cama de hospital, quanto mais falava aos seus ouvidos surdos, mais ela começava a se perguntar como era o mundo dele. Cabia a ela preencher a distância que agora existia entre eles, ela pensou.
Midori a olhou longamente e com seriedade quando Suguha disse que queria um AmuSphere, mas ela finalmente atendeu ao pedido de sua filha, pedindo apenas que ela tivesse cuidado com o tempo e sua saúde.
No dia seguinte, no almoço, Suguha foi até a mesa de Shinichi Nagata, o maior jogador da classe — para o bem ou para o mal — e pediu que ele subisse ao telhado com ela para discutir um tópico sério. O silêncio absoluto e o frenesi subsequente da classe após essa cena ainda eram matéria de lenda.
Apoiada na cerca de arame ao redor do telhado, Suguha pediu ao desesperadamente expectante Nagata que lhe ensinasse sobre VRMMOs. Após vários segundos e todo um espectro emocional de expressões faciais, ele perguntou que tipo de jogo ela tinha em mente.
Quando Suguha lhe disse que não podia tirar tempo de seus estudos e da prática de kendo, Nagata empurrou os óculos para cima do nariz e murmurou algum jargão como: "Você vai querer uma entrada baseada em habilidade em vez de um devorador de tempo baseado em grind, então." No final, sua melhor recomendação foi ALfheim Online.
Ela não esperava que ele começasse a jogar ALO com ela, mas com a ajuda de seus tutoriais completos, Suguha descobriu que era surpreendentemente adequada para este jogo de mundo virtual. Havia duas razões principais.
Primeiro, os anos de estudo diligente de kendo de Suguha se traduziram extremamente bem no jogo.
Quando os jogadores se enfrentavam em batalha, a evasão era um conceito estranho. Era uma conclusão precipitada que ambos os lados acertariam o outro; contanto que seu dano total fosse maior, a batalha era vencida. Mas os reflexos e instintos bem treinados de Suguha significavam que ela podia evitar facilmente a maioria dos ataques. De certa forma, sua habilidade quase injusta no jogo era um resultado natural.
Se ALO tivesse sido um MMO baseado em nível como tantos outros, a falta de tempo para investir em seu personagem significaria que ela nunca alcançaria os jogadores principais. Na verdade, entre os veteranos de ALO, as estatísticas de Leafa estavam na verdade abaixo da média. Foi apenas porque ALO era um jogo tão baseado em habilidade que ela era poderosa o suficiente para ser considerada um dos Cinco Grandes Sylphs.
A segunda coisa que atraiu Suguha para o jogo foi algo inteiramente único de ALO: o sistema de voo.
Ela ainda conseguia se lembrar facilmente da sensação de alegria absoluta da primeira vez que pegou o jeito do Voo Voluntário e pôde voar por sua própria vontade.
Suguha era pequena. Sua falta de alcance nas lutas de kendo era uma constante pedra em seu sapato e, como resposta, ela aprendeu desde jovem a sempre ir mais rápido, mais longe. Então, a maneira como ALO a deixava usar aquela longa katana em uma postura suspensa — impossível quando uma mão segurava um controle de voo — e depois cortar inimigos a uma distância extremamente longa era uma felicidade incomparável. E além disso, havia os mergulhos acentuados que ameaçavam sacudi-la até os ossos; os longos e suaves cruzeiros em alta altitude entre os bandos de pássaros; e muito mais. Pelo ato de voar, Suguha estava profundamente apaixonada.
Então, enquanto o lento e desajeitado Recon a chamava de "maníaca por velocidade", Suguha não conseguia imaginar jogar ALO sem a alegria do voo.
Após um ano de experiência no jogo, Suguha era uma jogadora de VRMMO totalmente dedicada. Ela havia começado este experimento para se aproximar de seu irmão, e agora o amava pelo que era.
Várias vezes ao dia desde que Kazuto voltou, Suguha quis desesperadamente falar com ele sobre ALO — compartilhar as dores e os prazeres do mundo virtual que ela finalmente veio a entender com ele. Mas a visão das sombras por trás de seus olhos a impedia de sequer abordar o assunto.
Ela tinha certeza de que, mesmo após os horrores do Incidente de SAO, Kazuto ainda amava a ideia de um mundo virtual. Todos os NerveGears foram supostamente recolhidos, mas ele havia conseguido o dele de volta de alguma forma, e o cartão ROM de Sword Art Online estava preso no porta-retrato em sua mesa.
Mas o Incidente de SAO não havia acabado para Kazuto. Não até que ela acordasse.
O pensamento partia o coração de Suguha em pedaços. Ela nunca mais queria vê-lo chorar em um desespero tão terrível, como ele havia feito na noite anterior. Ela queria que ele tivesse um sorriso no rosto o tempo todo. E por essa razão, ela queria que seu amor perdido acordasse.
Mas ela sabia que quando isso acontecesse, o coração de Kazuto estaria para sempre fora de seu alcance.
Se ao menos eles fossem irmãos de verdade. Ela nunca teria chegado a se sentir assim. Ela nunca desejaria manter Kazuto só para si.
Enquanto se deitava na cama e olhava para o pôster do céu de Alfheim, Suguha se perguntou por que as pessoas não tinham asas. Ela desejava poder voar o quanto quisesse no céu real, até que a teia emaranhada em seu coração fosse soprada para longe.
Eu encarei o assento que havia abrigado a garota sylph chamada Leafa momentos antes, ainda um pouco abalado.
— Fico me perguntando o que deu nela — murmurei. No meu ombro, eu podia sentir Yui inclinando a cabeça em confusão.
— Não sei... eu não tenho mais minhas antigas funções de monitoramento mental.
— Faz sentido. Bem, é legal da parte dela se oferecer para me mostrar o caminho.
— Se o que você precisa é de um mapa, eu tenho um. Mas quanto mais gente do nosso lado, mais seguros estaremos. Por outro lado... — Yui se levantou para falar diretamente no meu ouvido. — Você não deveria trair a Mamãe, Papai.
— Eu não estou traindo, não estou traindo!
Eu balancei a cabeça furiosamente. Yui saltou do meu ombro com uma risadinha e pousou na mesa, retomando seu banquete de biscoito com as duas mãos.
— Claro, para você tudo é engraçado — resmunguei, tomando um gole diretamente da garrafa de vinho de ervas.
Ela tinha razão, no entanto. Não sobre "trair" ninguém, mas o simples fato de que Leafa não era apenas um personagem em um jogo. Havia um jogador do outro lado, um estranho com uma personalidade totalmente diferente.
Por muito tempo, o mundo virtual foi a minha realidade. Era inútil ponderar as diferenças entre jogador e personagem lá — toda emoção, fosse maliciosa ou amigável, era real. Era a única maneira de sobreviver.
Mas isso não se aplicava aqui, é claro. Todos os jogadores estavam interpretando uma persona; as únicas diferenças estavam no grau. Não havia estigma em jogar como um ladrão — atacar, roubar, matar; se alguma coisa, era recomendado.
— Esse negócio de VRMMO é complicado. — Suspirei, depois fiz uma careta com minhas palavras. Pousei a garrafa vazia e coloquei Yui — ainda desafiando o biscoito tão grande quanto ela — no meu ombro. Era hora de deixar este mundo por um tempo.
Os detalhes de deslogar em um MMORPG eram um equilíbrio delicado entre a conveniência do jogador e a justiça do jogo.
Por exemplo, havia muitas vezes em que alguém precisava sair abruptamente para resolver um assunto pessoal urgente ou atender a necessidades físicas, o que era bom. Mas se o logout fosse instantâneo em todos os casos, o que impediria um jogador de abusar do recurso no meio de uma batalha perdida ou durante uma perseguição após cometer um roubo? A maioria dos MMORPGs, portanto, impunha limites ao logout. ALO não era exceção: o logout instantâneo só era possível no próprio território. Em qualquer outro lugar, e o avatar sem alma do jogador era deixado no local por vários minutos, abertamente suscetível a ataques ou roubos.
Deslogar do jogo com segurança fora do território racial exigia o uso de um item especial de acampamento ou alugar um quarto em uma pousada, então decidi seguir o conselho de Leafa e sair do jogo pelo segundo andar do Lírio do Vale.
Fiz o check-in no balcão e subi as escadas. Atrás da porta com o número que me deram havia um quarto simples com apenas uma cama e uma mesa. Fui atingido por uma poderosa sensação de déjà vu. Até ter ganhado dinheiro suficiente para comprar meu próprio quarto em Aincrad, eu havia passado muitas noites em quartos como este.
Tudo o que eu precisava fazer era abrir minha janela e apertar o botão de logout, mas decidi remover meu equipamento e deitar na cama para tentar um "logout dormindo".
Havia outro problema com o logout, específico para jogos de VR de imersão total. Se os sinais dos sentidos virtuais do jogo e dos sentidos reais fossem muito diferentes no curto intervalo de deixar o jogo, uma tontura desagradável poderia resultar. Por exemplo, passar de uma posição em pé para sentado poderia causar uma breve tontura. Antes de jogar SAO, eu havia experimentado um jogo de voo e deslogado durante um mergulho severo. Mesmo depois de recuperar meus sentidos normais, fui atormentado pela sensação de queda por algum tempo, uma experiência que eu não tinha desejo de repetir.
A solução ideal para esse problema era chamada de "logout dormindo", que era entrar no sono dentro do mundo virtual, deslogar automaticamente e acordar do sono no mundo real.
Eu me esparramei preguiçosamente na cama e observei enquanto Yui terminava seu biscoito e vinha voando. Ela girou uma vez e pousou no chão em sua forma original. Seus longos cabelos e vestido branco ondularam, e um sopro de perfume flutuou no ar.
Yui colocou os braços atrás das costas, inclinou-se ligeiramente para a frente e disse: — Adeus até amanhã, Papai.
— Acho que você tem razão. Desculpe, Yui. Você esperou tanto para me ver de novo... Eu volto logo para você, ok?
— Umm...
Ela baixou os olhos, suas bochechas corando levemente. — Posso deitar na cama com você até você deslogar?
— Hã?
Um sorriso envergonhado surgiu em meu rosto. Eu não era nada além do "papai" de Yui, e ela era simplesmente uma IA buscando uma gama maior de dados de seus arredores, mas ela também assumia a forma de uma garota muito fofa, e suas palavras eram suficientes para me fazer sentir autoconsciente...
— Uh, sim. Claro.
Tive que suprimir minha timidez e rolar em direção à parede para dar espaço a Yui. Ela sorriu feliz e pulou na cama.
Enquanto ela esfregava a bochecha no meu peito e eu acariciava seus longos cabelos, murmurei: — Precisamos resgatar Asuna rapidamente para que possamos comprar outra casa em algum lugar. Você acha que existem casas de jogador neste jogo?
Yui pareceu surpresa por um momento, depois assentiu. — Elas parecem ser bem caras, mas estão disponíveis. — Ela fez uma pausa. — Seria como um sonho, não seria, você e eu e a Mamãe, vivermos como uma família de novo. Só nós três...
A nostalgia apertou meu peito como um torno enquanto eu me lembrava daqueles dias queridos. Foi apenas alguns meses atrás, mas parecia um produto de um passado muito distante, para nunca mais ser recuperado...
Eu abracei Yui com força e fechei os olhos.
— Não é um sonho... Eu vou torná-lo real em breve...
Fui subitamente atingido por um sono profundo, talvez após o rigor mental da minha primeira imersão em um bom tempo.
— Boa noite, Papai. — A voz de Yui soou como um sino delicado, acariciando minha mente enquanto eu afundava na escuridão quente do sono.