Sword Art Online

Volume 3 - Capítulo 1

Sword Art Online

Três luzes, de um azul profundo, dispostas como uma constelação sussurrante.

Suguha Kirigaya estendeu a mão para traçar aquelas luzes com a ponta dos dedos.

Os LEDs na borda frontal do capacete de VR, o NerveGear, indicavam seu status atual.

Da direita para a esquerda, representavam energia, conexão de rede e interface cerebral. Se aquela luz mais à esquerda mudasse para vermelho, significava que o cérebro do usuário tinha deixado de funcionar.

O portador do NerveGear repousava em uma cama de gel grande e macia no meio de um quarto de hospital de cor esbranquiçada, em um sono profundo e sem despertar. Mas não, isso não estava totalmente certo. Sua alma estava, na verdade, em um mundo distante, lutando dia e noite. Lutando para libertar a si mesmo e a milhares de outros jogadores mantidos prisioneiros.

— Irmão... — Suguha chamou suavemente por Kazuto. — Já se passaram dois anos. Eu vou para o ensino médio em breve... Se você não voltar para nós, vou te ultrapassar...

Ela baixou os dedos para traçar a bochecha dele. Sua carne havia afundado ao longo deste estado comatoso, como se tivesse sido esculpida. O perfil facial de Kazuto já era suave e andrógino para começar, e agora parecia mais feminino do que nunca. A mãe deles até o chamara de brincadeira de “nossa Bela Adormecida”.

Não era apenas seu rosto que estava magro; seu corpo inteiro estava dolorosamente fino. A atlética Suguha, que treinava ativamente kendo desde tenra idade, quase certamente pesava mais do que ele neste momento. Ultimamente, ela era dominada pelo pensamento terrível de que ele poderia simplesmente definhar até não sobrar nada.

Mas, no último ano, ela se certificou de não chorar enquanto estava no quarto do hospital com ele. Não desde que ouviu a notícia do membro da equipe do Ministério de Assuntos Internos encarregado de lidar com o “Incidente SAO”. O homem com franja comprida e óculos de armação preta falou com uma nota de respeito em sua voz: seu irmão estava atualmente entre os melhores jogadores do jogo quando medido por nível — um dos poucos capazes de impulsionar o progresso do jogo, apesar do considerável perigo pessoal.

Mesmo agora, ele provavelmente estava enfrentando a morte no outro mundo. O que significava que Suguha não podia ficar ali chorando por ele. Ela tinha que pegar sua mão e dar-lhe todo o seu apoio.

— Aguente firme... Você consegue, irmão.

Ela segurou a mão ossuda de Kazuto com as duas mãos, rezando fervorosamente, quando uma voz atrás dela a pegou de surpresa.

— Ah, você já está aqui, Suguha.

Ela se virou apressadamente. — M-Mãe...

Era a mãe deles, Midori. As portas de correr do quarto do hospital eram tão silenciosas que ela não havia percebido que não estavam mais sozinhas.

Midori colocou o buquê de cosmos no vaso ao lado da cama e sentou-se ao lado de Suguha. Ela deve ter vindo do trabalho, pois usava uma blusa de couro rústico sobre uma camisa de algodão e jeans justos. Sua maquiagem leve e o rabo de cavalo amarrado descuidadamente não sugeriam uma mulher que faria quarenta anos no próximo ano. Ela tinha a energia de uma mulher muito mais jovem, talvez devido ao seu trabalho como editora de uma revista de tecnologia. Suguha muitas vezes pensava nela mais como uma irmã mais velha do que como uma mãe.

— Estou surpresa que você teve tempo de visitar, mãe. O prazo de impressão não está chegando?

Midori lhe deu um sorriso em resposta.

— Eu dei uma escapada dessa vez. Não costumo conseguir visitar, então quis arranjar um tempo hoje.

— É verdade. Hoje é o... aniversário... dele...

As duas olharam em silêncio para a cama e seu Kazuto adormecido. A brisa do pôr do sol empurrou as cortinas, trazendo o cheiro dos cosmos até suas narinas.

— Kazuto já tem dezesseis anos — Midori murmurou. — Eu me lembro como se fosse ontem. Minetaka e eu estávamos assistindo a um filme na sala de estar, e Kazuto se aproximou de nós sorrateiramente e disse: ‘Contem-me sobre meus pais’.

Suguha viu um sorriso breve e nostálgico brincar em seus lábios levemente corados.

— Ele me pegou completamente de surpresa. Ele tinha apenas dez anos. Nós íamos manter o segredo até você estar no ensino médio, Suguha... mais sete anos. Mas de alguma forma ele percebeu que certas partes de seu registro de cidadão haviam sido apagadas.

Ela nunca tinha ouvido essa história antes. A reação inicial de Suguha não foi de choque, no entanto, mas o mesmo sorriso irônico no rosto de sua mãe.

— Nossa... isso é tão a cara dele.

— Ele nos pegou tão desprevenidos que não conseguimos negar de forma muito convincente. Isso deve ter sido de propósito. Minetaka até concordou que ele nos pegou direitinho.

Elas riram alto juntas, apenas para voltar a observar o Kazuto adormecido em silêncio.

O irmão de Suguha, Kazuto Kirigaya, vivia com ela desde que ela se lembrava, mas na realidade ele não era seu irmão — ele era seu primo.

Midori e Minetaka Kirigaya eram os pais de Suguha, mas Kazuto era filho da irmã de Midori, tia de Suguha. Os pais de Kazuto morreram em um trágico acidente quando ele não tinha nem um ano de idade. Ele sobreviveu, embora com ferimentos significativos. Midori então acolheu seu sobrinho como se fosse seu.

Suguha só soube da verdade nos últimos dois anos — desde o inverno depois que Kazuto foi feito prisioneiro pelo mundo virtual chamado Sword Art Online. Já traumatizada pelas circunstâncias terríveis, ela se voltou contra a mãe, exigindo saber por que a verdade havia sido escondida dela por tanto tempo.

Mesmo agora, dois anos depois, ela ainda sentia um descontentamento profundo e latente por ter sido a única excluída do conhecimento. Foi apenas recentemente que ela finalmente começou a entender a linha de pensamento de seus pais.

A razão pela qual eles adiantaram seu cronograma e contaram a verdade a Suguha antes que ela entrasse no ensino médio foi amarga: eles queriam garantir que ela soubesse enquanto Kazuto ainda estava vivo. O Incidente SAO resultou em um número alarmante de mortes — mais de duas mil apenas no primeiro mês. Nessas circunstâncias, seus pais não tiveram escolha a não ser encarar a possibilidade muito provável de que Kazuto morreria. Eles queriam garantir que Suguha não se arrependesse de algo que nunca soube até que fosse tarde demais.

Suguha visitava o quarto de hospital de Kazuto com frequência, buscando algum tipo de resposta, em conflito com uma série de emoções conflitantes. Se seu irmão não era realmente seu irmão, o que ela estava perdendo?

A resposta a que ela chegou foi: nada.

Nada estava mudando. Nada foi danificado ou perdido. Antes e depois da verdade, o único curso de ação de Suguha era rezar pela vida e pelo retorno seguro de Kazuto.

Dois anos depois, uma dessas duas orações ainda estava funcionando.

— Ei, mãe — disse Suguha suavemente, ainda observando o rosto dele.

— Sim?

— Você acha que isso tem algo a ver... com o porquê de ele ter se interessado tanto por jogos online na época em que começou o ensino fundamental?

Ela não disse a parte sobre não ser um membro real da família, mas Midori entendeu e balançou a cabeça imediatamente.

— Não, isso não teve nada a ver com isso. Ele montou seu próprio computador com algumas peças sobressalentes que eu tinha deixado por aí quando ele tinha seis anos. Você sabia disso? Se alguma coisa, ele conseguiu herdar remotamente minha obsessão por computadores.

Suguha riu e deu uma cotovelada no braço da mãe. — A vovó me disse uma vez que você era viciada em videogames quando era criança.

— É verdade. Eu jogava jogos online quando estava no ensino fundamental. Kazuto não era páreo para mim.

Elas riram juntas mais uma vez, e Midori lançou um olhar amoroso para a figura na cama.

— Mas eu nunca fui uma das melhores jogadoras em nenhum dos jogos que joguei. Eu não tinha força de vontade ou paciência para isso. Essa é a parte que ele compartilha com você, não comigo. Kazuto está vivo agora porque tem o mesmo sangue que o seu, que o manteve nas aulas de kendo nos últimos oito anos. Ele voltará um dia, pode acreditar no que digo.

Midori deu um tapinha na cabeça da filha e se levantou. — Eu vou para casa agora. Não fique até muito tarde.

— Não se preocupe, não vou — ela respondeu.

Midori olhou novamente para Kazuto e murmurou: — Feliz aniversário. — Depois de piscar rapidamente algumas vezes, ela se virou e saiu rapidamente do quarto do hospital.

Suguha colocou as mãos no colo, respirou fundo e olhou para os LEDs na superfície do capacete que cobria a cabeça de seu irmão.

As estrelas azuis que representavam a conexão de rede e o status do cérebro piscavam rapidamente. Em algum lugar além daquela conexão, a mente de Kazuto estava dentro do mundo de SAO, enviando e recebendo inúmeros pequenos sinais através do NerveGear.

Onde ele estava agora? Vagando por uma masmorra escura com um mapa na mão? Procurando itens em uma loja? Ou balançando sua espada bravamente contra algum monstro horrível?

Ela estendeu a mão e segurou sua mão pálida e branca novamente.

O NerveGear bloqueava as sensações na pele real de Kazuto na espinha, e os sentimentos não chegavam ao seu cérebro. Mas Suguha acreditava que o apoio fervoroso que ela lhe enviava através da pele chegaria até ele.

Ela podia sentir. A alma de seu irmão — a alma de seu primo — emitia um calor poderoso. Um sinal de vontade absoluta de sobreviver e retornar ao mundo real.

A luz dourada que se filtrava pelas cortinas brancas tornou-se vermelho escuro e depois roxo. O quarto do hospital mergulhou na penumbra da noite, mas Suguha não se moveu. Ela ficou perfeitamente imóvel, ouvindo cada frágil respiração que seu irmão dava.

Ela recebeu a notícia do hospital de que Kazuto havia despertado um mês depois, em 7 de novembro de 2024.

Comentários