
Volume 1 - Capítulo 77
Trash of the Count’s Family
Todos os membros do grupo acomodados na caverna tinham expressões estranhas em seus rostos enquanto observavam Cale, que lentamente se aproximava para se sentar perto da fogueira.
— Obrigado por me darem um lugar para ficar hoje à noite…
Suas falas foram ditas num tom suave e respeitoso.
Já perante a elas, Litana apenas balançou a cabeça, e abriu a boca.
— É algo normal entre viajantes. E você parece estar com frio por causa da chuva, portanto, por favor, apenas se aqueça perto do fogo.
Mesmo que estivesse dizendo isso, ela e seus subordinados permaneceram cautelosos sobre aquele indivíduo. Afinal, ainda que apresentasse um mau estado por causa da chuva, não deixava de ser um estranho.
— Que frio o quê! Eu deixei a água morna!
Mentalmente, Raon reclamava das suposições de Litana.
Anteriormente, ao se aproximar da caverna, Kim havia rasgado sua própria capa de chuva enquanto o Dragão Negro usava magia para deixar a temperatura dos chuviscos ao redor deles morna…
Tap.
Cale deu uma tapinha nas costas de On por estar fingindo ter frio muito bem.
— Meeeow…
A gatinha prateada parecia ansiosa enquanto lhe olhava… Provavelmente sentia que continuavam sendo observados, mesmo furtivamente.
“Ele não parece ser uma pessoa normal…”
Litana não havia notado quando seu subordinado apontou sua lança para o ruivo mais cedo, mas olhando agora, essa mesma pessoa passava uma sensação diferente de um viajante, ou aventureiro.
Tal indivíduo era saudável, mas sua postura e seu andar deixavam claro que não praticava nenhum tipo de arte marcial; também não parecia ser um mago ou qualquer outro tipo de indivíduo forte…
Contudo, sua intuição era afiada, e ela sentia algo incomum vindo dele.
— Você parece tão forte quanto a ponta da minha garra de novo.
O corpo de Kim estava cercado pelo Domínio de Aura atualmente. Já enquanto estava sendo observado, ele também observava seus arredores de canto de olho…
“Todos têm características naturais vindas da selva.”
O povo da Selva do Sul, ou apenas sulistas, eram conhecidos por suas peles bronzeadas e físico firme; e em outras palavras, eram muito próximos da natureza.
“Próximos da natureza…”
Tal proximidade era um tipo de cultura bem diferente caso fosse comparada com a dos cidadãos do Reino Whipper, que desenvolveram um senso de “sobrevivência dos mais aptos” e de “luta”, enquanto eles desenvolveram o senso de “ganho-ganho” e de “líder e seguidores”.
— …
Um silêncio incômodo preenchia toda caverna.
— A chuva parece estar ficando mais forte.
Foi a voz casual de Cale que quebrou-o.
— Devemos deixar essa floresta amanhã, certo, On?
A expressão em seu rosto enquanto gentilmente falava com On era tão quente quanto o fogo… Por outro lado, a gatinha prateada apenas lhe olhava com descrença.
— Por que está agindo assim…?
O Dragão Negro também estava confuso.
Já agora, todas as pessoas restantes na caverna olhavam para o ruivo com expressões rígidas.
— E-Er… Senhor…
Litana foi capaz de perceber algo baseado no que havia acabado de ouvir.
— Você pode me chamar de Cale.
— Certo, Sr. Cale…
Ela observou sua figura que, além de um saco de couro mágico, não portava uma espada ou qualquer outra coisa… Era como se tivesse entrado na floresta para um passeio.
— !
De repente, Litana pensou em algo diferente ao observar a aura estranha ao seu redor.
“Ele é… o dragão?”
Ela se lembrou da lenda sobre o dragão que concedia desejos; mesmo que sua aparência, ou como ele dava as caras, fosse conhecida.
Mas claro, Litana sabia que seus pensamentos provavelmente estavam errados, porém não podia deixar de ficar cheia de dúvidas…
Foi naquele momento, que fez contato visual com o homem chamado Cale, que pôde vê-lo começar a sorrir.
— Eu não sou o dragão…
— Ah.
Ela vacilou enquanto soltava uma exclamação.
Litana podia ver Kim escovando para trás seu cabelo vermelho molhado que havia caído sobre seu rosto.
— No entanto, sei o caminho daqui de dentro.
— Como…?
As pessoas da caverna, que não tinham problemas com a complicada e irracional selva de onde vieram, agora estavam perdidas nesta floresta… Por outro lado, aquele indivíduo desconhecido a frente conhecia o caminho?
Ao ver a confusão de Litana em seu rosto, Cale começou a sorrir, e respondeu de volta.
— Essa criança é da Tribo dos Gatos…
Ele acariciou On com um olhar gentil; parecia semelhante ao olhar de um santo.
— Já faz muito tempo desde que encontrei-a numa favela, em um dia chuvoso como esse.
O ruivo recordava do passado, e parecia estar nostálgico com o dia em que se encontraram.
— …
On também se lembrou daquele dia, e sabia que não era um momento tão nostálgico. Entretanto, manteve a boca fechada enquanto sua cauda tremia de incerteza.
— Essa criança se chama “On”, e ela pode controlar a névoa.
— Que habilidade rara…
Litana logo pensou na neblina que cobria Oorim, e deixou transparecer sua admiração.
— Realmente. Ah, foi enquanto viajava para fora do meu território que li em um texto antigo, e fiquei sabendo que este lugar era controlado por névoa…
Litana tirou seu olhar de On, e moveu para Kim.
Ela sentia que, quanto mais tempo passava com sua figura, mais elegância suas ações emanavam; parecia, ao menos, um nobre.
— Foi por isso que decidi vir para cá com ela…
Os olhos de Cale começaram a cintilar junto à fogueira; Litana e seus subordinados podiam vê-los…
— Viemos porque pensamos que poderíamos usar essa habilidade para dar esperança às pessoas que se perderam aqui, assim como aos membros de suas famílias que os esperam com angústia.
Sua voz firme, mas gentil, preencheu toda a caverna.
— Não foi por isso…
O dragão murmurava para si mesmo enquanto a gatinha prateada abanava sua cauda em silêncio.
O ruivo esboçou um pequeno sorriso no rosto após ver o olhar de Litana começar a mudar, e continuou a falar.
— Felizmente, eu estava certo. On conseguiu usar sua habilidade, controlar a neblina, e encontrar o caminho.
Ele então rapidamente explicou o segredo da neblina; explicou como isso poderia fazer alguém alucinar e causar interferências na mana.
— Entendo…
Litana não conseguia esconder a amargura em seu coração.
— Então a lenda… provavelmente não existe.
Se tudo era por conta da neblina e sua interferência na mana, a lenda sobre o dragão que concedia desejos podia não passar de uma mentira.
A desilusão encheu Litana e os rostos de seus subordinados. No entanto, ao mesmo tempo, ela pensou que aquilo era o melhor.
Era uma situação muito melhor agora do que quando estava debatendo para si mesma se teria que incendiar a floresta para encontrar a saída…
— Se possível… eu posso pedir que também nos guie amanhã até a saída?
— Claro que sim. Temos que nos ajudar um ao outro em momentos de necessidade.
Gradualmente, o olhar de Litana se tornou mais gentil e caloroso em direção a Kim.
“Ele é uma pessoa tão boa quanto parece…”
Ela provavelmente também determinou que aquela aura estranha em seu entorno era por ser uma pessoa muito boa.
Já ao ver aquilo, Cale então não pôde deixar de pôr um olhar desapontado em seu rosto.
— Sinto muito… Tenho certeza de que você tinha um desejo.
— Não faz mal, bem, não há nada que eu possa fazer a respeito disso. Na verdade, estou até feliz por não precisar incendiar essa floresta.
Foi a palavra “Incendiar” que fez os olhos do ruivo cintilarem mais uma vez, antes de abrir a boca.
— “Incêndiar” é uma palavra muito assustadora… Posso sentir o quanto você deve ter sofrido, já que um sulista valoriza muito a natureza.
— Você sabe sobre o sul…?
— Não muito, mas já li em livros; gosto de viajar, adoro belos pontos turísticos.
— Oh, então é isso, humano fraco.
Kim sentiu os arrepios depois de ouvir a fala inesperada de Raon em sua mente, porém continuou a falar o mais brilhantemente possível.
— Li sobre como são bonitas as montanhas da selva, os lagos e tudo mais. Depois que deixar Oorim, planejo visitar lá.
— E-Entendi, mas…
Litana estava cheia de decepção, amargura e mágoa; ela não podia mentir ou fingir ignorância para essa pessoa que parecia ansiosa para ver as belas paisagens da selva.
Os rostos de seus subordinados também ficaram sombrios.
— Infelizmente, a selva que você verá quando sair de Oorim não será bela.
— O que você quer dizer…?
A selva estava a cerca de um dia de viagem de Oorim; era bastante ampla também, pois ocupava a maior parte do sul…
No entanto, por que Litana teria vindo para Oorim?
“Foi por estar perto do local do incêndio.”
— Há um incêndio na selva.
— Hã? Um incêndio!? Não deveriam apagá-lo imediatamente?
— É um incêndio que não se propaga, mas que também não podemos apagar…
Ao ver o olhar caótico de Cale, Litana começou a explicar sobre o incêndio na selva.
— Um dia, na Área 1 da Selva, a área mais próxima de Oorim, um incêndio repentino começou… Entretanto, nem água, magia, e feitiços pareciam funcionar contra ele. Ah, e mesmo que estivéssemos muito preocupados, ele simplesmente permaneceu na Área 1 sem se espalhar em outro lugar — Ela então suspirou e, com uma expressão amarga, complementou: — E agora não tenho certeza se isso é bom ou ruim.
Aquele definitivamente era um incêndio estranho.
— …
Por outro lado, o ruivo conhecia sua identidade; um fogo que não podia ser apagado através de água, magia e feitiços.
A resposta era simples…
“Alquimia.”
Algo mais científico do que magia.
E, por lá, havia apenas um império que era muito desenvolvido na alquimia…
“O Império Mogoru.”
O Império com a Torre do Sino dos Alquimistas foi aquele que causou o incêndio na selva.
“Sendo mais exato, o Príncipe Imperial de Mogoru.”
O Príncipe Imperial que estava preocupado com Litana, que conseguiu unificar as quinze áreas da selva, havia furtivamente causado o incêndio…
“Mas, nenhum segredo pode permanecer em segredo para sempre.”
No final do volume 4 da novel, Litana, que causou a fuga através de um incêndio em Oorim, descobre que o Príncipe Imperial é responsável pelo Incêndio da Selva, e assim faz parceria com Toonka, mesmo que suas filosofias não fossem compatíveis, para enfrentar o Império Mogoru.
“Com isso, a Rainha da Selva, que monta uma Pantera Negra ao invés de um cavalo, parte com seus guerreiros para a guerra… Mas isso não é problema meu.”
Kim não queria tomar parte nisso de forma alguma.
Apenas planejava apagar o incêndio e ser recompensado, antes de cuidar de algumas outras coisas rapidamente e retornar ao Território Henituse; ele não queria nem ao menos ver o Príncipe Imperial de Mogoru.
“Ele não é uma boa pessoa.”
O Príncipe Herdeiro Alberu e o Príncipe Imperial eram pessoas semelhantes… Mas não ao todo.
O Príncipe Herdeiro se importava com a justiça, e por isso era fácil para Cale falar com ele, e colocá-lo em uso.
Já o Príncipe Imperial não era assim.
“Ele só se importava com ele mesmo.”
E também era muito astuto e malicioso.
Em outras palavras, era parecido com o Lixo do conde também, mas não ao todo.
— …
O ruivo afastou seus pensamentos sobre o Príncipe Imperial, que queria assumir o controle de tudo no centro de Poente, e rapidamente moveu os músculos de seu rosto; se fazendo parecer preocupado.
— É um incêndio grande…?
— Nunca vi um incêndio como aquele em minha vida… Ele é tão grande que, seja de dia ou de noite, nos faz sentir como se houvesse ocorrido uma explosão todos os dias.
— E-Então deve ser difícil de se aproximar…
— Sim… Nem os animais, ou humanos, conseguem se aproximar.
— Que terrível… Haaa, isso é muito ruim.
Litana olhou para Kim, que parecia se sentir verdadeiramente decepcionado com aquilo, e se sentiu acolhida; era raro encontrar um cidadão do centro do continente que se preocupasse tanto com o sul ou com a natureza.
— Não se preocupe, faremos nosso melhor para cuidar do incêndio.
— Certo…
Ela podia ver Cale, que estava acenando com a cabeça, de repente cair em um estado profundo de ponderar… No entanto, não durou muito.
Litana pôde vê-lo erguer a cabeça novamente, e encontrou seus olhos cheios de determinação.
— Eu…
O ruivo apertou suas têmporas, antes de suspirar, e encará-la.
— Por favor, me leve para o incêndio.
— P-Perdão?
A Litana que Kim conhecia, era alguém que devolvia qualquer maldade dez vezes pior, enquanto tentava devolver qualquer bondade mil vezes mais do que recebeu.
— Eu acredito…
Cale tinha uma expressão muito genuína em seu rosto enquanto voltava a falar com uma voz propositalmente trêmula.
— Acredito que posso ser capaz de apagar o incêndio.
— O quê?
Ao mesmo tempo, o Dragão Negro começou a gritar mentalmente.
— Ei, Humano fraco! O que você está fazendo? Você está muito esquisito hoje! Você é fraco, esqueceu!? O que está planejando fazer?
No entanto, o ruivo não se importou, e manteve uma expressão determinada em seu rosto.
— Acredito que serei capaz de apagá-lo.