Busca pela Verdade

Volume 3 - Capítulo 422

Busca pela Verdade

— Eu não entendo por que o patriarca o escolheu! Ele é tão covarde quanto o Ahu! Já estamos andando há dez dias nessa floresta! 

Mais cinco dias se passaram, e Su Ming finalmente tirou a garota e o garoto da floresta. Durante todo o caminho, eles não enfrentaram nenhum tipo de perigo. Nos últimos dias, Su Ming aumentou bastante a velocidade, o que fez a irritação da garota diminuir um pouco, mas ainda assim permanecia intensa.

— Não tem perigo nenhum aqui, e desperdiçamos dez dias. Aqueles que passaram na nossa frente já devem ter chegado à Cidade dos Xamãs, e nós só conseguimos percorrer essa distância ridícula…

A garota estava extremamente furiosa, e a atitude apática de Su Ming diante de tudo fazia com que ela se sentisse ainda mais frustrada, como se não tivesse onde extravasar sua raiva, tornando tudo ainda pior. 

Por isso, o garoto acabou se tornando seu saco de pancadas e era constantemente repreendido por ela durante aqueles dias. No entanto, nunca se via nem um traço de desagrado em seu rosto. Toda vez, ele apenas tentava consolá-la e acalmá-la.

Mesmo depois de saírem da floresta e darem de cara com uma planície sem fim, a garota ainda não sabia que havia muitas árvores na floresta atrás dela, e nelas estavam numerosos cadáveres. Esses corpos estavam empalados por galhos infindáveis, e um líquido escorria de seus corpos, alimentando as árvores. 

Os corpos estavam secando um por um, e com o passar do tempo, acabariam se tornando parte das árvores… 

Su Ming virou a cabeça e lançou um olhar calmo para a floresta estranha. Na maior parte do tempo, ele percebia os corpos sendo absorvidos pela floresta por algum método desconhecido.

— Como esperado do Mundo dos Nove Yins, já é tão perigoso mesmo sendo apenas território dos Xamãs… Mas os Xamãs já ocupam esse lugar há muitos anos. Eles deveriam conhecer os perigos do seu território como a palma da mão. Se é assim, por que agem com tanta imprudência ao entrar aqui?

Essa era uma questão que Su Ming ainda não compreendia. 

Era até compreensível que a Tribo do Touro Branco não soubesse dos perigos daquele local. Afinal, era uma tribo praticamente isolada do mundo, localizada numa região remota. Seria difícil para eles saberem os detalhes daquele lugar. Mas não havia como o mesmo se aplicar às outras tribos… 

Enquanto Su Ming se perdia em pensamentos, sua expressão mudou levemente, e seu olhar recaiu sobre a floresta. Sons de passos e farfalhar surgiram de dentro dela, e logo um homem de meia-idade surgiu, exausto.

Atrás dele estava um garoto. Seu rosto estava pálido, e seu braço direito, atrofiado! 

Su Ming já tinha visto aquele homem antes. Era o sujeito reservado que cruzara os céus com quatro jovens atrás de si, dez dias antes!

E não foi só Su Ming quem o reconheceu. Ahu e Lan Lan também o reconheceram à primeira vista. As pupilas de Ahu se contraíram, e Lan Lan ficou momentaneamente surpresa. 

O homem de meia-idade também viu Su Ming e os dois jovens atrás dele. Um olhar de surpresa surgiu em seu rosto. Claramente, ele também havia reconhecido Su Ming. Ainda lembrava vagamente de ter visto aqueles três naquela floresta estranha dez dias atrás. 

Na ocasião, ele estava calmo e não se importou muito com quem não estava relacionado com ele. Só notou o trio porque estavam andando pela floresta em vez de atravessá-la correndo. Essa atitude incomum chamou sua atenção por um instante, mas foi só isso.

Contudo, ao ver Su Ming ali, o homem de meia-idade ficou surpreso, e uma leve admiração surgiu em seus olhos. Ele percebeu que não havia um único sinal de ferimento ou desgaste em Su Ming — e isso não era tudo. O estranho claramente também havia sido encarregado de proteger aquelas crianças, mas… 

Nem o garoto nem a garota mostravam qualquer sinal de machucado ou sofrimento. Isso deixou o homem de meia-idade ainda mais surpreso. 

Ele conhecia bem os terrores daquela floresta. Podia-se dizer que escapara da morte por pouco. Teve que usar artefatos encantados e habilidades divinas apenas para conseguir sair com vida e salvar um único jovem — que ainda assim teve seu braço inutilizado.

Por conhecer as mudanças e horrores da floresta, ele se espantou ao ver o estado atual dos três. 

Imediatamente, lembrou-se de Su Ming andando calmamente pela floresta dez dias antes. Se não o encontrasse ali naquele momento, provavelmente não teria pensado muito sobre isso. Mas agora, lembrava-se de uma descoberta feita enquanto fugia do perigo: quanto mais rápido se movia pela floresta, mais perigosa ela se tornava. Mas, se andasse devagar, os riscos diminuíam pela metade. Além das habilidades divinas, esse detalhe foi crucial para conseguir sair com vida com seu discípulo. 

Ao lembrar que o homem vinha caminhando tranquilamente daquele jeito desde dez dias atrás, o sujeito ficou chocado. Mas, ao mesmo tempo, passou a ficar em alerta em relação a Su Ming. De forma alguma acreditava que tudo se tratava de sorte. Esse tipo de coisa não tem nada a ver com sorte!

— Eu sou Nan Gong Hen. Temo ter me envergonhado diante de você, estando nesse estado tão deplorável em comparação com dez dias atrás. — Nan Gong Hen sorriu de forma amarga, juntou os punhos respeitosamente diante de Su Ming e se curvou. Sua atitude para com Su Ming era extremamente cortês.

— Não há vergonha alguma. Eu sou Mo Su. — Su Ming retribuiu o gesto com os punhos e respondeu sem alterar o tom.

— Companheiro de tribo Nan Gong, lembro de vê-lo voando pelos céus há alguns dias. Por que saiu a pé da floresta agora?

— Irmão Su, por que perguntar algo que já sabe? A floresta mudou de repente e me pegou desprevenido. Fiquei surpreso ao ver você andando por ela há alguns dias. Pelo visto, você já previa o que viria. — Nan Gong Hen balançou a cabeça e riu, amargamente.

— Só achei essa floresta um tanto estranha. Saí de lá por pura sorte. Se estivéssemos em posições trocadas, talvez eu não tivesse saído com vida. — disse Su Ming com calma.

— Irmão Mo, não precisa ser modesto… — Nan Gong Hen balançou a cabeça, mas já estava com uma boa impressão de Su Ming. Lançou um olhar para Lan Lan e Ahu ao lado dele antes de perguntar: — Irmão Mo, qual tribo você está protegendo?

— Apenas uma tribo pequena e remota. Você provavelmente nunca ouviu falar, irmão Nan Gong. — Su Ming sorriu levemente e desviou do assunto.

— Nós viemos da Tribo do Touro Branco! — Mas ao ver aquele homem de meia-idade, a garota se animou e respondeu rapidamente.

Su Ming franziu o cenho, e Nan Gong Hen também ficou um pouco surpreso, mas logo sorriu e ignorou a garota. Ele havia feito a pergunta apenas por educação e não esperava que Mo Su realmente respondesse. A intromissão da garota já o fez perceber que havia algo estranho entre Mo Su e a Tribo do Touro Branco. 

— Irmão Mo, nossos destinos parecem ser a Cidade dos Xamãs — disse Nan Gong Hen, após hesitar por um momento e lançar um olhar para Su Ming. Ele então juntou as mãos em saudação respeitosa. — Ainda há uma boa distância até lá. Que tal viajarmos juntos? Assim poderemos cuidar uns dos outros.

Su Ming não respondeu de imediato. Primeiro, lançou um olhar gélido para a garota, carregado de advertência e um brilho cortante. A jovem, ao perceber que havia agido de forma impulsiva anteriormente, imediatamente abaixou a cabeça diante do olhar distante de Su Ming. 

Quanto ao garoto, mantinha os olhos fixos em Su Ming com sinceridade.

— Se fizer isso mais uma vez, não contará mais com a minha proteção. Fiz um acordo com o seu Patriarca: apenas uma pessoa precisa completar essa jornada.

A voz de Su Ming ecoou na mente da garota. O fato de ele conseguir enviar sua voz diretamente para sua mente, sem que ninguém mais ouvisse, fez com que seu coração tremesse. 

Depois de resolver a situação com a garota, uma expressão incerta surgiu no rosto de Su Ming. Passado algum tempo, enquanto Nan Gong Hen aguardava pacientemente, Su Ming por fim assentiu com a cabeça. 

O rosto de Nan Gong Hen se iluminou de alegria e ele soltou uma risada animada.

— Irmão Mo, sendo honesto, com você ao meu lado, me sinto mais confiante. Caso contrário, eu não saberia dizer se haveria mais mudanças repentinas nessa floresta.

— Essa floresta é realmente estranha. A tábua de madeira fornecida pelo Templo do Deus dos Xamãs não mencionava nada sobre os horrores desse lugar. E eu me lembro bem de que, da primeira vez que vim aqui com meus companheiros, não encontramos nenhum perigo ao atravessá-la…

— Irmão Nan Gong, poderia me mostrar essa tábua de madeira? Eu também não entendo as mudanças deste lugar — disse Su Ming, sem pressa. Ele havia concordado em viajar com os dois apenas porque não conhecia a região e também estava atento a essas possíveis “mudanças repentinas” na floresta.

Nan Gong Hen lançou um olhar para o garoto e a garota ao lado de Su Ming e, como se tivesse entendido algo, sorriu e tirou de seu peito uma tábua de madeira, estendendo-a a Su Ming.

Assim que Su Ming a pegou, a examinou com seu sentido divino. Havia um mapa completo gravado na tábua, cobrindo uma área de um milhão de lis. Bem no centro do mapa, havia uma cidade. 

O território dos Xamãs estava delineado com clareza. 

Era exatamente o que Su Ming precisava. Após gravar o mapa em sua mente, ele devolveu a tábua para Nan Gong Hen, mas naquele momento…

— Irmão Mo, considere isto um presente. Tenho outro mapa comigo — disse Nan Gong Hen com um sorriso.

— Sendo assim, muito obrigado — respondeu Su Ming, sorrindo e fazendo uma saudação com o punho fechado. Os dois se ergueram no ar ao mesmo tempo e avançaram velozmente pelos céus. Su Ming não sentia mais os olhares que antes se voltavam contra ele nesta região, então julgou que seria melhor seguirem viagem pelos céus. 

Os três jovens foram carregados pelos céus por meio das habilidades divinas de Su Ming e Nan Gong Hen, seguindo logo atrás deles.

Enquanto avançavam, Su Ming espalhava seu sentido divino pela área ao redor, observando tudo com atenção. Já Nan Gong Hen passou a mão direita sobre o centro das sobrancelhas, e imediatamente surgiu ali um par de olhos violetas. Os olhos piscaram sete vezes em sucessão, e então múltiplos espíritos saíram do corpo de Nan Gong Hen, formando um vórtice enquanto giravam pela área, cobrindo um espaço de dezenas de milhares de pés. 

Ficava claro que Nan Gong Hen era um Médium Espiritual.

Os três jovens que os acompanhavam mantinham-se em silêncio. O garoto que havia perdido o braço direito demonstrava determinação, mas franzia o cenho de tempos em tempos, revelando traços de dor. 

Ahu observava as costas de Su Ming, perdido em pensamentos.

Quanto a Lan Lan, embora não compreendesse por que o poderoso Nan Gong Hen, em sua concepção, tratava Su Ming com tanta cortesia, ainda acreditava que a sorte fora o principal motivo pelo qual Su Ming havia conseguido tirá-los da floresta. 

Como Su Ming e Nan Gong Hen tinham que levar os três jovens com eles, o grupo não podia avançar muito rápido pelos céus. Assim, viajaram por alguns dias até que, certo dia, enquanto ainda voavam, uma embarcação colossal rompeu as nuvens e surgiu em disparada de outra direção. 

Havia oito pessoas a bordo. Alguns estavam sentados de pernas cruzadas, outros observavam o horizonte junto às bordas, enquanto alguns conversavam entre si.

Num dos cantos da embarcação estava uma jovem. Seu rosto era comum, sem qualquer traço de destaque. O único aspecto que chamava atenção era a tranquilidade evidente em seu olhar. Vestida de branco, ela franziu o cenho naquele instante, imersa em seus próprios pensamentos. Passou os olhos pela área ao redor de forma casual, e quando viu Su Ming, seus olhos se arregalaram, mas logo ficaram tomados por incerteza, e uma expressão de conflito surgiu em seu rosto.

— Ele pode até estar nas terras dos Xamãs, mas não haveria chance de ele chegar aqui… Su Ming, onde você está…? — pensou a jovem em silêncio, suspirando.

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