[N/T: E lá vamos nós com mais um capítulo de flashback…]
“Entendo seu problema, Grey, mas não tenho certeza se sou a melhor pessoa para ajudá-lo com isso.” Disse a diretora com um suspiro. “Não importa o quanto a sua reserva de ki seja diferente da maioria das crianças da sua idade, você ainda é uma criança com muito tempo para isso. No entanto, e digo isso como uma lição de vida geral, se você se encontrar sem recursos, use o que tem quando mais precisa.”
Eu ponderei sobre sua solução enigmática para o meu problema de ki.
“Obrigado, diretora Wilbeck.” Eu sorri antes de sair pela porta.
“Oh, além disso Grey…” A diretora chamou de trás de sua mesa.
Eu parei, espiando com minha cabeça para fora da porta. “Sim?”
“Cecília está se dando bem com você e Nico?”
“Bem.” Eu fiz uma pausa. “Além de seus pequenos acidentes, eu diria que estamos lentamente nos aproximando dela!”
“Ela não disse uma palavra para vocês dois, não é?” A diretora Wilbeck suspirou.
“Não!” Eu afirmei confiante. “Nem uma única.”
“Muito bem. Eu realmente espero que vocês dois continuem tentando tirá-la da concha. Se alguém pode fazer isso, são vocês dois.”
Voltei para o escritório dela. “Diretora?”
“Hmm?”
“Por que você está se esforçando tanto para sermos amigos de Cecília?” Perguntei.
Os lábios da diretora se curvaram em um sorriso gentil quando ela se levantou da cadeira. “Isso, meu filho, é uma história que eu espero que ela te conte por si mesma.”
“Bem, eu quero dizer, ela parece normal o suficiente, mas todo mundo está com medo dela por causa desses acidentes que acontecem de vez em quando.” Eu coei a minha cabeça. “Quero dizer, Nico e eu não estamos assustados ou qualquer coisa, mas há algumas crianças que foram enviadas para a enfermaria por causa dela, então eu pensei que seria melhor saber mais para ajudá-la.”
Andando em volta da mesa, a diretora Wilbeck despenteou meu cabelo. “Seu trabalho não é ajudá-la; é ser amigo dela. Deixe que eu a ajude.”
“Sim, mãe.” Eu saudei.
Os olhos gentis e revirados da diretora se arregalaram de surpresa com minhas palavras.
“É diretora Olivia ou diretora Wilbeck para você, Grey.” Sua voz era firme, mas seus olhos traíam suas palavras.
Eu não queria sair. Eu queria ficar em seu escritório e ajudá-la com a pilha de papéis que pareciam nunca diminuir, mas sabia que ela nunca me deixaria ajudar; como uma gravação quebrada, ela sempre dizia que era o trabalho dela, não o meu.
Arrastando meus pés para fora do pequeno escritório, eu caminhei pelo corredor em direção ao meu quarto.
Eu frequentemente imaginava minha vida como filho da diretora Wilbeck. Sua voz severa, porém amorosa, me repreendia toda vez que me metia em confusão. Eu faria o que pudesse para ajudá-la em casa: lavar a louça, tirar o lixo e cortar a grama. E quando ela chegasse em casa, eu massageava seus ombros que ela sempre parecia estar esfregando dolorosamente devido ao estresse.
Nico disse que era estranho para eu fazer tanto por minha mãe, dizendo que geralmente era tarefa de uma filha ajudar a mãe, mas eu não concordava. Se eu tivesse alguém como a diretora Wilbeck como mãe, eu me certificaria de cuidar dela. Eu ajudaria a tingir as mechas brancas de seu cabelo castanho e uma vez que tivesse idade suficiente, ganharia muito dinheiro e compraria roupas extravagantes e até mesmo um carro e uma casa para ela.
Talvez essa fosse a diferença entre alguém que conhecia seus pais como Nico e alguém como eu, que não tinha uma única lembrança de como seus pais eram. Ele odiava seus pais e qualquer menção ao sobrenome dele, Sever, o desligaria como um fusível.
Quanto a alguém como eu, que não tinha sobrenome, havia um estranho conforto imaginando ser Grey Wilbeck, filho de Olivia Wilbeck.
O rangido agudo da tábua do chão sob meus pés me tirou da minha fantasia, e suspirei derrotado.
Ajoelhei-me acima da tábua do assoalho desalinhada e a coloquei de volta em seu lugar. Testando o chão com os meus pés, deixei escapar um aceno satisfeito com o silêncio da prancha.
Olhando para cima, um grupo de crianças corria pelo corredor, perseguindo um ao outro.
“Grey! Eu vou te pegar!” Uma menininha chamada Theda deu uma risadinha quando se aproximou de mim com os braços esticados.
“Ah é?” Eu estendi minha língua. “Eu aposto que você não vai!”
Theda aceitou o desafio enquanto acelerava o passo. Assim que ela estava dentro do alcance, ela bateu na minha cintura, na esperança de pegar minha camisa, mas eu facilmente girava, saindo do seu alcance.
Eu soltei uma risada vitoriosa. “Você vai ter que se esforçar mais do que…”
Eu balancei para a minha direita, bem a tempo de evitar a mão de Odo.
O resto das crianças com que Theda estava jogando juntaram-se a ele, decidindo que eles eram todos “ele” neste jogo improvisado de pega-pega.
Enquanto os garotos e garotas me enchiam de braços estendidos para cobrir mais terreno, mergulhei e passei facilmente por eles. Eles agitaram seus apêndices desesperadamente enquanto tentavam utilizar todas as partes de seus corpos na esperança de me marcar, mas era inútil.
Theda e seus amigos ficaram espertos e me cercaram, aproximando-se lentamente de mim enquanto riam animadamente.
Uma vez que eles chegaram perto o suficiente, as crianças ficaram impacientes e todas saltaram em mim.
Assim que suas mãos estavam prestes a me tocar, eu pulei e agarrei a corrente quebrada que costumava suportar um antigo lustre antes que ele tivesse que ser vendido. Usando o impulso do meu salto, eu balancei a corrente, agarrando com força para não escorregar.
Theda, Odo e seus amigos se atrapalharam por perder seu alvo.
Balançando na velha corrente, aterrissei a poucos metros de distância e plantei minhas mãos em meus quadris, rindo vitoriosamente. “Vocês estão cinco anos atrasados para poder tocar o poderoso Grey!”
“Não é justo!” Odo gemeu, esfregando a cabeça.
“Sim! Você é muito rápido!” Theda concordou, saindo do emaranhado de crianças.
“Xiu! Apenas os fracos reclamam quando enfrentam a derrota!” Eu disse, aprofundando minha voz. “Agora eu vou! Meus poderes heroicos são necessários em outro lugar!”
Eu corri para longe enquanto as crianças riam entre si.
“O poderoso Grey chegou!” Anunciei, abrindo a porta do meu quarto.
“Sim, Sim. Feche a porta quando entrar.” Nico respondeu, nem mesmo se virando para olhar para mim enquanto se atrapalhava com algo em sua cama bagunçada.
“As crianças são mais divertidas do que você.” Eu estalei minha língua. “O que você está fazendo afinal?”
Nico levantou a mão direita, coberta por uma luva preta felpuda, com um sorriso orgulhoso no rosto.
“Você está fazendo tricô agora?” Eu perguntei com um sorriso, pegando a luva.
Nico estendeu a mão enluvada, segurando meu antebraço.
De repente, uma onda de dor irradiava como uma intensa cãibra muscular vinda do toque de Nico.
Meu amigo e companheiro de quarto imediatamente soltou com um olhar presunçoso colado em seu rosto. “Nunca subestime o poder do tricô.”
“Que diabos?” Meu olhar se alternava entre sua luva e meu braço dolorido.
“Muito legal, certo?” Nico olhou para sua mão enluvada. “Depois de todo o confronto com esses bandidos, eu estava pesquisando uma maneira de me defender no caso de algo assim acontecer de novo. E depois de compilar minhas anotações, de um livro bastante interessante que encontrei no meio do material sobre condução de ki, consegui desenvolver essa luva!”
“Como funciona? Por que meu braço de repente cedeu quando você me agarrou?” Eu perguntei, meus dedos coçando para agarrar a mais nova criação de Nico.
“É muito legal, na verdade”, disse Nico, batendo minha mão para longe. “Existem essas microfibras na palma das luvas que podem conduzir o ki até certo ponto. As microfibras se alongam em reação ao meu ki e alcançam os músculos quando eu toco em alguém. Há uma pequena pedra condutora de ki no interior da luva que aproveita o ki que eu emito e dispara através das microfibras e no músculo do meu inimigo, que, neste caso, era o seu braço.”
“Isso é muito legal, mas por que você não aprende a lutar como eu?”
“Primeiro de tudo, você nunca aprendeu a lutar. E eu preciso ter brinquedos como esses, porque ao contrário de alguém—seus olhos se voltaram para mim—eu não tenho os reflexos de algum carnívoro primitivo. Se eu tivesse que dizer, meus reflexos variam entre uma preguiça e uma tartaruga.”
Eu não pude evitar uma risada com a comparação. “Bem, a luva parece útil e tudo, mas parece que você só vai ganhar algum tempo.” eu apontei, flexionando minha mão apertada.
“Sim. E outra desvantagem é que as microfibras, que eu tive que comprar com parte do dinheiro que recebemos de penhorar as joias, não duram muito tempo.” Suspirou Nico ao tirar a luva preta e felpuda.
Eu olhei para as pilhas de livros empilhados em todo o seu lado da sala. “Tenho certeza que você vai pensar em algo. A propósito, como você deu o dinheiro que recebemos para a diretora?”
