
Capítulo 273
A Única Coisa que Posso Melhorar é a Força
A arqueologia envolvia muito mais registro de dados do que eu imaginava inicialmente. Apesar de este não ser um sítio arqueológico de uma civilização antiga, também não era algo exatamente recente. Só porque não se passaram cinco séculos ou um ou dois milênios não significava que não havia informações interessantes a serem obtidas.
Mas o que exatamente era interessante ou importante? Isso era quase impossível de determinar, então tudo era registrado. A localização de cada pequeno pedaço de cerâmica era cuidadosamente documentada. Não que eu tivesse muito a ver com essa parte do trabalho. Eu basicamente só movia terra e pedras. E era muita terra e pedra.
Por causa disso, minha proficiência em Magia Elemental estava aumentando. Como simples trabalho braçal com magia poderia melhorar isso, você pode perguntar? Bem, na verdade fazia sentido de várias maneiras.
Primeiro, havia o simples fato de praticar magia constantemente. Tanto que deixava de ser algo mágico e se tornava trabalho repetitivo, que calhava de ser relacionado a magia. Eu já havia treinado magia ao longo dos anos, mas nunca tinha usado o dia inteiro por semanas seguidas.
Segundo, o que eu estava fazendo não era tão simples ou superficial como “vejo a terra, movo a terra”. Bem, também não era muito mais complicado do que isso. Só que havia mais complexidade por baixo da superfície. Não era apenas mover um bloco sólido. Uma área inteira de terra se comportava mais como água fluindo… E eu podia até intensificar esse comportamento, se quisesse.
Terra estava apenas tangencialmente conectada à eletricidade, no sentido de que a eletricidade sempre buscava o chão e fluía através dele. Mas isso era apenas uma interação entre os dois, não uma similaridade. Em teoria, o único momento em que seriam semelhantes era durante um terremoto. Uma grande quantidade de energia liberada de uma vez… Mas terremotos estavam em uma escala completamente diferente. Com a quantidade de energia de apenas um raio, a terra mal se moveria.
Fogo e gelo… Principalmente descreviam as temperaturas que a terra e as pedras poderiam ter. Era um pouco mais fácil mover terra quente, aquecida pelo sol. Isso era apenas porque ela era menos compacta? Parecia ser o caso, exceto que as camadas abaixo do solo superficial também eram mais fáceis de mover quando aquecidas.
Eu me dei conta de que estava subconscientemente absorvendo a energia do calor para usá-la como fonte de poder. De certa forma, era como quando Kasner transformava eletricidade acumulada em mana, embora, nesse caso, não fosse algo que retornasse para mim.
Apesar de ser uma revelação interessante, isso não faria de mim um lançador de feitiços incrível da noite para o dia. Dito isso, se eu conseguisse treinar meus atributos mentais um pouco mais, poderia ser bem eficiente. Do jeito que estava, eu carecia de muito poder e velocidade para usar magia em combate, pelo menos de forma direta. Encantar minhas armas era mais fácil, provavelmente porque eu estava familiarizado com aquele estilo particular de usar magia, além do meu treinamento com as próprias armas.
Desenterrar uma cidade inteira poderia levar uma eternidade. Talvez literalmente. Não éramos muitos, e nem todos estavam aptos para esse tipo de trabalho. Contudo, o a rua principal de Namoth havia sido encontrada, e nossos esforços estavam concentrados ali. Estávamos escavando até o nível da rua e desenterrando os edifícios ao longo dela, do jeito que estavam. Nada estava em boas condições, incluindo a estrada.
Estar enterrada sob o solo pode ter contribuído para isso, mas os terremotos mencionados claramente não ajudaram os paralelepípedos. A estrada não estava mais no mesmo nível, com partes deslocadas para os lados devido às forças cortantes que haviam movimentado a própria terra em camadas.
Os edifícios estavam em condições ainda piores, a maioria desmoronada e quebrada. No entanto, apesar de estarem em ruínas, havia muitos sinais do que tinham sido. Mesas, cadeiras, ferramentas… Nem tudo sobrevivia a cem anos enterrado, mas alguns vestígios permaneciam. Edifícios que não tinham sido feitos de pedra geralmente eram indicados por espaços vazios ao longo da rua, pois suas madeiras costumavam ter apodrecido.
Desenterrar estruturas de pedra também era difícil. Embora não tentássemos mover suas fundações, muitas delas haviam desmoronado antes ou depois de serem enterradas. Como a magia podia determinar onde os objetos estavam sob o solo, conseguíamos evitar desmoronamentos acidentais. Ainda assim, nem tudo se mantinha intacto, então anotávamos onde cada peça estava e desenterrávamos o máximo possível dos esqueletos das estruturas.
Os edifícios antigos e objetos eram as coisas mais agradáveis que encontrávamos. Junto a eles, havia ossos. Ossos de pessoas, monstros e animais – que podiam ou não ter sido monstros. A cidade havia caído em um ataque de monstros, afinal. Isso era o máximo que se sabia. Presume-se que algumas pessoas escaparam e contaram o que aconteceu. Não muitas, mas algumas. Uma cidade do tamanho que Namoth foi teria viajantes entrando e saindo, além de muitos aventureiros poderosos.
Esse era um pensamento preocupante. Não estava claro se Namoth era maior do que Ekralas é agora, mas o fato de algo ter acontecido… Algo para o qual aparentemente não estavam preparados… Eu balancei a cabeça. Não havia sentido em me preocupar com isso.
Se não houvesse aviso, então já havíamos feito tudo o que podíamos – uma academia para treinar aventureiros, dando a todos uma chance de se tornarem fortes… O que mais poderia ser feito?
Assim que eu comecei a pensar demais nisso, eu tive que me parar. Se houvesse um aviso, poderíamos fazer algo. Caso contrário, estaríamos tão preparados quanto possível. Nada dizia que os desastres precisavam se repetir.
Sábio Norwood parecia esperar que nossa escavação revelasse mais detalhes sobre o ataque à cidade e seu colapso. Talvez houvesse sinais de alerta. Se não, apenas ver como a cidade era já valeria a pena. Embora a cultura de alguns séculos atrás não fosse tão impactante para elfos que viviam mais, era bastante tempo para todos os outros.
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Nosso grupo ocasionalmente tinha a tarefa de explorar a masmorra. Não havia necessidade de ir muito fundo, mas era bom descer um ou dois andares para garantir que não houvesse muitos monstros se acumulando abaixo. Talvez não estivéssemos exatamente no nível da masmorra, mas enquanto não fôssemos muito fundo, a masmorra não se sentiria ameaçada.
Eu não tinha certeza se elas possuíam algum tipo de consciência real. Para mim, parecia mais instinto, mas, de qualquer forma, se fossem ameaçadas, mais irregularidades ocorreriam, e mudanças eram perigosas.
Dentro da masmorra, os monstros de pedra tinham formas um pouco mais variadas do que fora – todas vagamente humanoides. Alguns monstros eram apenas bolas de pedras rolando ou basicamente coleções planas de pedras que se mantinham juntas. Outros tinham formas mais animais, embora a única distinção real que pudesse ser feita entre os tipos fosse se eram bípedes ou quadrúpedes. Afinal, as pedras eram todas mais ou menos do mesmo tamanho, permitindo poucos detalhes.
Como não tínhamos interesse em trazer pedaços de pedra, tudo era deixado na masmorra, exceto as pedras mágicas. Não havia equipamentos que usassem, então não havia chance de conseguir equipamentos mágicos.
Quebrar pedras era basicamente tão fácil quanto sempre foi. Ou seja, depois que consegui fazer praticamente qualquer coisa com meu corpo. Eu me perguntava quantas vidas o Padre Thomas tinha mudado depois de mim. Kantrilla parecia estar tentando alcança-lo, mas ainda era limitada pelo quanto conseguia fazer. O mesmo também valia para o Padre Thomas, que também não podia curar a todos. Me ajudar o havia deixado fora de ação por mais de uma semana.
Certos tipos de cura poderiam ser feitos em etapas menores, mas, se tanta cura fosse dedicada a uma pessoa, talvez não estivesse disponível para outros. Era um problema difícil, mas, pelo menos, Kantrilla entendia que não podia curar todos o tempo todo. Embora, ocasionalmente, precisasse ser lembrada disso.
“Ahh…” Alhorn balançou a cabeça enquanto eu esmagava outro inimigo. “Deve ser bom ter uma bênção. E sim, eu estou um pouco com inveja.” Ele deu de ombros. “Não sei se isso me desqualifica de ganhar uma, se os deuses realmente estão assistindo, mas não consigo evitar. Sua Força é incrível, e Meias…”
Houve um som surdo que pontuou seu ponto. Meias tinha começado a permitir que fosse atingida para criar aberturas e treinar sua Resistência. A espada de Alhorn brilhou, perfurando o centro de um dos monstros de pedra, girando sua arma para sair dele e espalhar seus pedaços.
Halette conversou com Meias para garantir que ela não planejasse se expor a perigos reais… Embora a resposta tenha sido um pouco ambígua. Já tínhamos visto a disposição de Meias em se arriscar por nós, mas, pelo menos, sabíamos que ela era inteligente o suficiente para não se ferir sem necessidade.
Eu ainda me encolhia sempre que a ouvia ser atingida, mas Meias levava seu treinamento a sério. Embora eu estivesse treinando minha Resistência um pouco, não conseguia acompanhá-la. Não apenas em velocidade de treinamento – a bênção tornava isso impossível – mas também no esforço naquela categoria. Eu conseguia me esforçar bastante treinando Força, mas dor era… Difícil.
Alhorn continuou falando:
“De qualquer forma, vocês dois têm bênçãos invejáveis. Kantrilla…” Ele virou a cabeça para olhar para ela. “Bem, fico feliz que você goste da sua.”
Era verdade que Sorte nem sempre era o que você queria, especialmente no caso de Kantrilla, que atraía problemas. Embora isso geralmente significasse problemas para todo o nosso grupo, Alhorn também nunca teve alguém tentando matá-lo ou sequestrá-lo em particular.
Halette se juntou à conversa, embora tivesse sido basicamente só Alhorn falando:
“Se você ganhasse uma bênção, qual acha que seria? Destreza, já que você é meio-elfo?”
“Hmm…” Alhorn inclinou a cabeça. “Tenho quase certeza de que os elfos recebem tantos tipos diferentes de bênçãos quanto qualquer outra raça… Ou seja, não são tantas assim. Embora, no nosso caso, estamos meio a meio nesse quesito.”
“Isso só porque o Carlos não está por aqui,” observou Halette. “Pessoalmente, eu gostaria de ter a Força. Mas, se eu tivesse tanta quanto o Llyr, seria… Complicado achar um bom arco. Pelo menos flechas feitas de magia ainda podem ser disparadas por um arco.”
Kasner deu de ombros.
“Bênçãos parecem um problema. Todos esperariam que você fizesse algo importante.”
“Está dizendo que não fizemos nada importante?” Alhorn perguntou. “Eu diria que já fizemos algumas coisas. Somos aventureiros rank F agora, não se esqueça. E estamos trabalhando com o Grande Sábio.”
“Bem, quando você coloca dessa forma,” Kasner coçou a nuca “Você está fadado a inflar meu ego. Minha cabeça já é grande demais, não posso permitir mais isso.”
“Sua cabeça pode ser grande, mas-”
“-Mas meu corpo tem tamanho médio. Para um halfling. Só parece difícil evitar todos esses ataques com um tamanho tão desproporcional…”
A conversa continuou, mas eu não conseguia deixar de pensar. Com todas essas bênçãos, os deuses realmente esperavam algo de nós? Se sim, o que era? E, se não… Então, o que deveríamos fazer com o que tínhamos?