
Capítulo 220
A Única Coisa que Posso Melhorar é a Força
Não demorou muito até que voltássemos para a estrada com a caravana de Mike. Havíamos fornecido um relatório detalhado para a guilda, e assim a responsabilidade pela masmorra passou para eles. Não houve notícias de outros ataques na área, então parecia que havíamos chegado na hora certa. Bem, nenhum de nós ficou exatamente surpreso com isso.
A estrada se tornou um pouco mais difícil conforme nos aproximávamos de Astrurg. Claro, isso fazia sentido, já que estávamos subindo para um terreno montanhoso. Felizmente, não encontramos mais monstros antes de chegar à fronteira. Não que esperássemos mais de um único incidente de problemas em uma viagem, mas, por outro lado, nosso grupo em particular não podia saber o que esperar.
As portas na fronteira estavam abertas – embora, claro, ainda houvesse guardas. Mesmo assim, era um sinal de que Astrurg e Othya estavam em bons termos. Era bem diferente de Fepresil, onde Khyrmin basicamente teve que intimidá-los para conseguirmos passar pela fronteira. Claro, o fato de que tínhamos passaportes adequados desta vez ajudou, mas em Fepresil eu poderia imaginar que estariam bastante irritados mesmo que tivéssemos os documentos certos.
Não demorou muito para chegarmos na primeira cidade, Dhar Boldohr. Foi lá que nos separamos de Mike e sua caravana. Estávamos indo para Kagdihr, a cidade mais próxima da masmorra que planejávamos visitar. Dhar Boldohr estava muito mais próxima de uma cidade humana do que as cidades élficas. No entanto, em vez de edifícios predominantemente de madeira, a pedra era o material principal.
Isso fazia sentido – eles viviam nas montanhas, então fontes de pedra boa não estavam longe. Como as paredes eram uma necessidade para as cidades, poder construir com pedra, mesmo em cidades menores, era uma vantagem. Em contraste, o terreno não era tão bom para a agricultura, então provavelmente precisavam negociar grande parte de sua comida.
Dito isso, talvez houvesse coelhos com chifres suficientes para ajudar a compensar isso. Também ouvi dizer que alguns monstros parecidos com vegetais existiam entre os monstros do tipo planta… Mas não pareciam ser numerosos o suficiente para fornecer uma dieta adequada para toda uma área.
No caminho para Kagdihr, não encontramos monstros do tipo planta nem lobos, mesmo após vários dias de viagem. Ao contrário de Fepresil, muitas das pessoas em Astrurg falavam Othyan. Mais do que em Escait, até – e Escait ainda era predominantemente humana.
Depois de alguns dias em Astrurg, percebemos o motivo pelo qual os anões poderiam preferir viver lá. Ou melhor, por que outros poderiam preferir não viver. Era frio. Não era a parte mais fria do ano ainda, mas estava quase tão frio quanto o inverno no centro de Othya. Os anões, em geral, tinham barbas, pelos corporais e um pouco mais de gordura do que os humanos… Então não se importavam tanto com o frio. Claro, sempre há exceções – e havia muitos não-anões nas cidades.
Quando chegamos em Kagdihr, nos reportamos à guilda de aventureiros. Iríamos explorar uma masmorra próxima, então era útil que soubessem onde estávamos, para que pudessem nos rastrear – o que era para nos vigiar, mas também para o nosso benefício.
Depois de encontrarmos uma pousada para ficar, voltei para a guilda. Thrandath entraria em contato conosco em algum momento, mas eu tinha algo mais a fazer. Se deveríamos ser iscas, precisava fazer minha presença ser notada por mais pessoas do que apenas os representantes da guilda. Embora ninguém fosse necessariamente me reconhecer neste país, eu ainda poderia fazer com que os locais soubessem de mim.
Olhei pela sala comum da guilda, observando aqueles que estavam relaxando. Me fixei em um sujeito grande e largo. Caminhei até ele e coloquei uma moeda de prata na mesa.
“Vamos fazer uma queda de braço.”
O anão me observou. Eu não era realmente mais baixo do que ele, mas certamente não era tão largo. No entanto, ele permaneceu cauteloso. Eu estava usando minha armadura, afinal, então estava claro que não seria extremamente fraco. Eu não tinha intenção de enganar ninguém, de qualquer forma.
“Tá bom… Pode ser.”
O anão colocou uma prata dele na mesa. Ele provavelmente suspeitava que eu tivesse um item que aumentasse a Força – mas, mesmo um item excepcional, só daria uns poucos pontos. Além disso, uma moeda de prata não era uma quantia muito grande, então uma competição poderia valer a pena.
Devo admitir que foi uma competição bastante injusta, não que eu tenha trapaceado… Mas eu sabia o quão forte ele era desde o início. Ele tinha uma força sólida de uns quatrocentos e poucos pontos, e, embora números não fossem tudo, a diferença era grande demais para ele superar. Não que eu não tivesse técnica, de qualquer forma.
Poucos olhares estavam em nós, mas a disputa terminou rapidamente. Quando acabou, o anão ficou olhando para a própria mão sobre a mesa por alguns momentos, depois deslizou a moeda para mim.
Felizmente, pessoas o suficiente estavam prestando atenção para fazer as coisas funcionarem. Alguns momentos depois, um par de outros anões apareceu.
“O que é isso, Barsum, você acabou de perder para um humano?”
Barsum deu de ombros.
“Tenta você então.”
“Hm… Talvez essas manoplas… Você está disposto a tirá-las?”
Eu acenei com a cabeça, colocando as manoplas debaixo da mesa aos meus pés.
“Claro.” Deixei uma das moedas de prata sobre a mesa e coloquei a outra na minha bolsa “Mesma aposta?”
O segundo anão não durou mais que Barsum – ele era um pouco mais fraco, afinal, e não estava usando equipamentos que aumentassem a Força. Quando o derrotei, alguns outros olhares se voltaram para nós.
Os anões eram um grupo teimoso que achava que sabia mais do que todo o resto… Então, basicamente, eles eram como os humanos. Além do fato de que as pessoas raramente tornavam públicos os detalhes exatos de seus atributos, mais e mais anões – e alguns outros – se reuniram ao redor para assistir ou para entrar na competição. Alguns sabiam claramente que iam perder, mas gostavam da ideia de uma competição. Outros achavam que isso ou aquilo devia estar ajudando minha Força, ou que poderiam usar técnica para me vencer… Mas eu também tinha técnica.
No fim, meu equipamento estava amontoado debaixo da mesa.
Embora meus braços não parecessem nem de longe o que minha Força poderia sugerir, eles eram musculosos. Provavelmente eles eram umas poucas vezes mais grossos do que quando eu tinha chegado a este mundo… Mas não eram enormes. Parte disso era pelos pontos bônus e outras melhorias, mas com a minha Força base sendo maior do que praticamente qualquer coisa que fosse vista na Terra, também devia ser porque meu corpo simplesmente não era do tipo que realmente ganharia muita massa.
Com o tempo, pessoas voltaram de suas aventuras ou talvez foram chamadas por amigos, e eu tive mais e mais oponentes. Nunca aumentei a aposta – uma prata não era muito para aventureiros, mas eu queria manter assim. Era uma competição amigável, e não queria que houvesse ressentimentos depois.
Então, ela apareceu. Uma mulher anã, até mais baixa do que a média… Mas com uma força óbvia por trás dela. Eu a vi se movendo pela multidão – não tinha dúvida de que ela poderia ter empurrado todos para o lado, mas ao invés disso, esperou que a notassem… Momento esse que todos se se afastaram para lhe dar passagem.
Eu não conseguia ter uma leitura exata dela sem vê-la em ação… Mas sabia que ela estava em outro nível, desde o jeito que as pessoas a tratavam, até sua armadura, e a sensação que ela passava. Ela não disse nada ao colocar uma prata na mesa e se sentar à minha frente.
E então, nossa partida começou.