
Capítulo 189
A Única Coisa que Posso Melhorar é a Força
Antes que Kantrilla e eu pudéssemos nos casar, havia algumas coisas que precisávamos concordar. Claro, havia coisas básicas como quantos filhos queríamos ou quais seriam nossas responsabilidades. Essas eram importantes, mas podíamos discutir algumas delas conforme fossem relevantes. E discutimos, mas havia coisas que eram necessárias mesmo antes disso.
Ela era uma clériga, e não apenas por ter uma classe especializada em magia de cura. Isso também era sua profissão – uma dedicação em ajudar as pessoas –, e acontecia de ela ser mais capaz de ajudar algumas pessoas ao curá-las. Mas ela não era apenas uma trabalhadora de caridade. Havia também o componente religioso.
Quando vim para este mundo, evitei tocar no assunto para não me expor como sendo de outro mundo– embora minha ignorância sobre as coisas já tivesse me denunciado de qualquer forma. Depois disso… Era apenas um tema estranho. Na Terra, havia muitas, muitas religiões… E, se alguma delas fossem reais, quase certamente elas não eram aqui.
“Eu não vou acreditar em algo só por acreditar… Tem que ser verdade, sabe?”
Eu disse isso como se eusoubesse o que queria dizer, mas provavelmente não sabia. No entanto, Kantrilla ainda basicamente me entendeu.
Ela assentiu compreensivamente:
“É difícil, não é? Algo que eu sinto ser da deusa da Sorte, as pessoas podem atribuir à velha e enfadonha sorte com letra minúscula. É difícil dizer o que é completamente verdadeiro…Mas eles são reais. Os deuses, quero dizer. Algumas pessoas podem dizer que não são deuses…Mas é difícil negar que são reais. Eles até interagem com clérigos regularmente… Bem, mais ou menos.”
Seu sorriso característico desapareceu do rosto enquanto ela se concentrava em pensar nas palavras.
“Talvez seja mais fácil se você começar pelo começo. Eu não sei muito sobre eles, lembra? Não nasci aqui.”
“Certo,” ela assentiu firmemente. “Os nove atributos. Todo mundo sabe que eles existem… É difícil negar quando todo mundo tem janelas de atributos. Os deuses… Há algum debate sobre se eles chegaram à divindade antes ou depois que os atributos existiam. Eu não acho… Que realmente importa se eles são a fonte dos atributos ou não. De qualquer forma, eles eram humanos… Err… Pessoas que ascenderam à divindade. Destreza é certamente uma elfa, embora Força possa ser um humano, ou um orc, ou um anão… As pessoas não têm muita certeza.”
“Hum… Certo.”
Era um pouco difícil de acompanhar, mas eu já tinha percebido que cada um dos deuses era nomeado com base no atributo que representavam – ou que talvez fossem responsáveis por formar.
“Você disse que eles ascenderam à divindade?”
“Isso mesmo. Eles já foram pessoas normais uma vez… Bem, talvez normais não seja a palavra certa. De qualquer forma, eles não eram particularmente poderosos no começo.”
Aqui, Kantrilla começou a sorrir:
“Existem muitas versões da história, mas os detalhes importantes são encorajadores e o núcleo das minhas crenças. Eles trabalharam e cresceram em seus atributos, se destacando em sua própria área. Os detalhes não são certos, mas depois de muitas aventuras, eles ascenderam à divindade. Eles deixaram de ser mortais e agora vivem para sempre… Ou pelo menos viveram milhares de anos sem envelhecer.
“Eles promovem o crescimento, tanto pessoal quanto das comunidades… Embora seja importante mencionar que não são todo-poderosos. Se você acredita neles, e eu acredito, há um poder superior que criou o mundo. Eles apenas se tornaram capazes de agir como intermediários.”
“Hum… Como anjos?”
“Anjos são outra coisa…” Kantrilla balançou a cabeça. “Mas eles também existem.”
“Certo… Então eu acredito que eles existam…Mas certamente não vou acreditar imediatamente que sejam deuses.”
“Tudo bem,” Kantrilla inclinou a cabeça “A fé não surge do nada… E ações são o que importa. Eu realmente não pensei em entrar em detalhes sobre isso porque você já agia como se acreditasse neles. Trabalhar para se melhorar, ajudar os outros e assumir responsabilidade por suas ações… Isso é o núcleo da crença Atributista. Não é baseada em um código rígido, mas em um modo de viver correto.”
Essas conversas não aconteceram de uma só vez, mas ao longo de meses. No final, eu sabia que acreditava nos mesmos princípios…Mas talvez não nos deuses. Essa era até uma diferença entre minha Benção de Força e a Benção de Sorte de Kantrilla– e como interpretávamos isso.Ela pensava na Sorte como a deusa que compartilhava o mesmo nome, e eu pensava na Força como… Bem, poder muscular e tudo o que o atributo englobava.
No entanto, compartilhávamos os mesmos princípios gerais de moralidade e de como a vida deveria ser vivida. Eu até acreditava meio que em um poder superior… O que, claro, era meio sem convicção e patético. Como o universo veio a existir e o tecido de que ele era feito eram importantes, afinal, especialmente se o pós-vida estivesse envolvido.
“O paraíso existe,” Kantrilla explicou quando perguntei. “Embora as pessoas possam não concordar nos detalhes. De qualquer forma, as pessoas têm almas e não simplesmente deixam de existir quando morrem. O inferno é… Bem, não há muita palavra direta dos deuses sobre isso. Talvez seja um lugar horrível de punição ou talvez seja apenas não ir para o paraíso…” seu rosto parecia triste. “Tem sido teorizado que pode ser apenas separação eterna de… Tudo. A menos que você acredite em reencarnação.”
“Eu não, realmente. Embora eu não tenha certeza do que aconteceu comigo em particular. Quer dizer, tenho quase certeza de que morri, então ou meu corpo foi trazido para cá de alguma forma e trazido de volta à vida, ou algo estranho…”
“Bem, há histórias de pessoas conseguindo novos corpos e transferindo suas almas… Por necromancia ou coisas menos malignas. É possível que você tenha recebido um novo corpo igual aqui ou que tenha sido trazido…”
Kantrilla balançou a cabeça.
“O ponto é que não há prova de que as almas automaticamente habitem um novo corpo depois… Embora possa acontecer e as pessoas percam as memórias, caso em que é difícil provar, não é? De qualquer forma, não há muita informação de que eu tenha certeza sobre a vida após a morte, exceto que ela existe.”
No final, concordamos nos fundamentos sobre como as pessoas deveriam agir… E eu estava decidido a aprender e entender o melhor que pudesse se os deuses eram realmente deuses ou apenas… Pessoas com grande poder. Mais importante, o ser superior de que falavam era importante… Mas não é como se eu pudesse simplesmente ir falar com ele? Ela? Isso? E eu não o fiz.