A Única Coisa que Posso Melhorar é a Força

Capítulo 104

A Única Coisa que Posso Melhorar é a Força

Eu me vi na viagem mais longa que já fiz desde que vim para este mundo. Isso se deve principalmente ao fato de que eu não tinha realmente viajado muito longe. No máximo, alguns dias de um lugar para outro. Eu não vi muito do mundo, mas por outro lado… A maioria das pessoas também não. 

A maioria vive nas mesmas poucas cidades durante toda a vida, ou até mesmo em uma única cidade. Eu podia entender o porquê, já que viajar não era exatamente relaxante. As pessoas podiam andar em uma carroça esburacada de seu povoado murado até uma cidade maior, também murada. 

Isso ficou mais claro para mim enquanto viajávamos em direção à fronteira entre Othya e Fepresil. Quase todas as cidades tinham grandes muralhas de pedra. Algumas tinham muros menores ou de madeira… Mas essas só se encontravam nos lugares mais pacíficos. Mesmo que ataques de monstros a cidades não fossem frequentes, eles eram frequentes o suficiente para justificar as muralhas. As muralhas também impediam que monstros isolados causassem problemas para aqueles que não podiam lutar. 

Nos lugares com poucos monstros, haviam fazendas. Até elas tinham muros baixos e guardas, porque poderia haver coisas piores do que apenas coelhos com chifres tentando invadir seus campos. Em caso de ataques de monstros em grande escala, eles teriam que abandonar seus campos e torcer para não serem devorados ou pisoteados.  

Era uma situação infeliz, mas é apenas como a vida era. 

“Existe algum lugar que não tenha monstros?” perguntei a Kantrilla. 

Ela inclinou a cabeça, reflexiva. 

“Cidades?” Então, ela deu de ombros “As pessoas trabalham para manter os monstros afastados de certas áreas, mas nenhum lugar está completamente livre deles… E se estivesse, algo novo provavelmente surgiria no local. O único lugar que não haveria monstros seria um onde não teria nada vivo, nada para eles comerem. Embora isso não impeça os mortos-vivos de estarem por lá.” 

Isso fez mais sentido quando percebi que alguns monstros eram apenas animais que cresceram e se tornaram assustadores. O problema era que os animais ‘normais’ eram mais perigosos aqui. As pessoas tinham níveis e coisas do tipo para se fortalecerem, mas também enfrentavam perigo com mais frequência durante suas vidas. 

~~~*~~~*~~~*~~~ 

Nós estávamos viajando em direção à fronteira com uma caravana. Eles continuariam para Fepresil, enquanto nós seguiríamos nosso próprio caminho. Para uma caravana, guardas eram essenciais para a sobrevivência – mas mais importantes do que isso eram os batedores. Afinal, evitar o perigo era uma habilidade vital. Eventualmente, algo que você não poderia superar em combate apareceria… E então estaria tudo acabado. 

Era quase como uma operação militar, com batedores avançados e até mesmo na retaguarda monitorando tudo ao redor das estradas ou que tivesse passado por elas recentemente. Na maioria das vezes, não víamos os batedores, exceto quando eles voltavam para relatar. Ver eles voltando em um horário irregular era preocupante, mas pelo menos não pareciam estar com pressa. 

Os batedores avançados falaram com o líder da caravana… Que então veio até Kantrilla e eu. A líder da caravana era uma mulher de meia-idade, e ela me examinou enquanto se aproximava. 

“Você é um aventureiro de Rank D, certo? É bom com esse arco?” 

“Razoável” Eu dei de ombros. 

“Há um troll à frente. Podemos lidar com ele sozinhos, mas para algo assim, mais ajuda é sempre melhor. Você será pago pelo esforço.” ela se virou para Kantrilla “Da mesma forma, ter mais um clérigo de prontidão seria útil.” 

“Claro, eu vou ajudar.” Assenti. 

Trolls eram um pouco mais difíceis que minotauros, mas não tanto. Além disso, eu não estaria sozinho. Kantrilla também concordou em ajudar, e nós dois avançamos para nos juntar aos guardas. 

Havia cerca de uma dúzia de guardas, metade equipada com arcos e a outra metade com piques. Os piques eram bons para usar fora de uma masmorra, porque tinham um alcance muito longo. Dentro dela, eles poderiam ter dificuldades em manobrar em corredores apertados – embora, como eram armas de estocada, ainda fossem funcionais. 

Todos poderiam ter arcos, mas percebi que a maioria das pessoas provavelmente não treinava em muitos tipos diferentes de armas. Eu estava feliz por ter uma classe que tornava isso fácil. 

Enquanto caminhávamos pela estrada, logo avistamos o troll. Ele era enorme. Talvez tendo mais de dois metros e meio de altura, mas ele tinha ombros mais largos do que um minotauro. Ele tinha pele esverdeada e grossa, com membros longos que terminavam em garras. Fiquei feliz por estarmos a pelo menos cinquenta metros de distância dele. No mesmo momento em que dobramos a curva e o avistamos, ele também nos viu. 

“Arqueiros, fogo!” 

Eu supus que isso me incluía também. Comecei a disparar flechas o mais rápido que podia sem perder poder de fogo. O Tiro Rápido reduzia um pouco a precisão, mas não era difícil acertar um troll. Ele estava se movendo, mas apenas direto na nossa direção, e era muitas vezes maior que um alvo de arco e flecha. 

Ele foi atingido por várias flechas, mas algumas ricochetearam em sua pele grossa e outras apenas penetraram levemente. Vi que algumas das flechas que penetraram um pouco caíam enquanto o troll avançava em disparada em nossa direção. Em vez de sangrar profusamente, ele praticamente não sangrava. A pele ao redor de cada pequena flecha parecia enrugar e empurrar as flechas para fora – até mesmo algumas das mais profundamente cravadas. 

Essa era parte da regeneração de um troll. Eles se curavam rapidamente – não tão rápido quanto parecia, mas os ferimentos neles não tinham tanto impacto quanto deveria. Ainda assim, tudo se acumulava. Quando o troll chegou a quinze metros de distância, os piqueiros se prepararam. 

Ao mesmo tempo, senti a magia de Kantrilla se espalhar por mim. Era uma sensação familiar de uma bênção de Força. Contra monstros menores, isso não era muito útil – se eles morressem com um único golpe, morriam com um único golpe. Contra algo grande como isso, porém, podia ser útil. Só não com meu arco, já que se eu puxasse com toda a Força, acabaria quebrando-o ao meio, a menos que a corda arrebentasse primeiro. 

Kantrilla sabia o que eu faria, porém. Quando o troll se aproximou, guardei meu arco e puxei minha lança. Eu estava um pouco mais ao lado, então mesmo que os lanceiros tivessem avançado, ainda tinha uma linha clara para lançar. O troll era um alvo fácil de acertar, com muito torso e órgãos vitais ali em algum lugar. Claro, haviam as costelas… Mas eu não tinha Força e Lança Perfurante à toa. 

Eu não tive tempo de me concentrar perfeitamente, mas controlei o que pude de mana e arremessei, com minha lança atingindo o alvo pouco antes de o troll alcançar a linha de piques. Os piqueiros todos atacaram, fazendo com que o troll cambaleasse e caísse de costas com um estrondo alto, e então eles abaixaram suas lanças e o perfuraram abaixo da sua caixa torácica. Trolls podiam ter grandes poderes de cura, mas ainda eram mortais. 

Órgãos vitais ainda eram necessários, e uma dúzia de piques rasgando todos eles ao mesmo tempo seriam o suficiente para derrubá-los. Provavelmente. Eu nunca tinha lutado contra eles antes… Mas parecia funcionar. O sangue que se espalhou por todo lado parecia indicar sucesso. O troll foi decapitado para garantir que estava morto, e então seguimos nosso caminho. 

Comentários