
Capítulo 60
A Única Coisa que Posso Melhorar é a Força
O mago inimigo ainda estava em um canto da sala. Na entrada próxima ao outro canto mais distante, onde estavam os membros mais feridos do outro grupo, apareceu um novo homem empunhando um par de espadas curtas. Kantrilla se moveu para impedi-lo de alcançar os feridos… Mas isso me preocupou, já que ela definitivamente era a mais fraca em combate individual. Eu comecei a me mover nessa direção, na esperança de poder ajudar.
Meias ainda estava em combate com o clérigo, mordendo e arranhando enquanto ele a acertava com sua maça. Eu podia ver algumas manchas escuras no pelo de Meias, mas havia também muito sangue em seus dentes, o que indicava que ela estava se saindo bem sozinha.
Alhorn avançou em direção ao mago, sendo acompanhado por uma flecha disparada por trás de mim. Ao mesmo tempo, o cheiro de carne queimada e a gargalhada de Kasner indicavam que esses problemas tinham sido resolvidos.
Eu vi o homem recém chegado atacar Kantrilla, mirando seus olhos com a ponta de uma de suas espadas curtas. Instintivamente, eu usei Transe Marcial, o que fez tudo desacelerar. Ela estava balançando sua maça, e embora parecesse que ela acertaria um bom golpe sólido nele… Eu ainda não havia visto nenhuma tentativa dela de tentar proteger a própria cabeça. Quando o homem terminou de dar o seu passo adiante, ele iria pegar impulso e…
Ia prender o dedo do pé em uma rachadura invisível no chão que estava em um dos tijolos que absorviam a luz.
Eu não previ essa última parte, mas foi o que aconteceu. Isso o fez cambalear para frente, sua espada curta perfurando o peitoral de Kantrilla em vez de seu olho. Em troca, a maça dela acabou o acertando no rosto, a força do golpe sendo somada com a força do próprio peso dele. Mesmo com um capacete, eu vi o jato de sangue de seu nariz e seu rosto se quebrando.
A espada curta do homem, com o seu impulso e peso por trás, ainda conseguiu perfurar a armadura de Kantrilla. Ela recuou, segurando a ferida… Mas o homem caiu no chão. Eu cheguei até ela quase ao mesmo tempo em que Meias uivou em triunfo e Alhorn gritou:
“Peguei ele!”
“Você está bem?” Perguntei a Kantrilla.
O rosto dela estava visivelmente tenso, mas ela não me respondeu. Em vez disso, ela se virou para o aventureiro ferido mais próximo. A essa distância, pude ver que era a clériga que havia se juntado a eles em vez de nós. Com a espada ainda ficada em si, ela usou sua magia de cura na pessoa que estava caída ali… Mas até eu podia dizer pela poça de sangue que isso não ajudaria. Eu me abaixei e a virei gentilmente, só por precaução… Mas apenas olhos mortos me olharam.
Kantrilla tremeu, mas não disse nada. Em vez disso, ela foi até os três restantes, parando o sangramento com alguma magia antes de se voltar para mim.
“Você está bem, Llyr?”
“Eu estou bem.” Quando ela começou a se afastar em direção aos outros, eu segurei o seu braço “Cuide de si mesma agora, okay?”
Ela olhou para a espada curta em sua barriga. A arma não estava funda, talvez um pouco mais de dois centímetros tenham atravessado a armadura, mas ela estava bem presa.
“Okay… Hm…”
“Prepare sua magia, e eu vou arrancar isso.”
Kantrilla assentiu. Ela se concentrou, então assentiu novamente. Ela fez uma careta de dor quando eu puxei a espada de uma vez, mas puxar apenas suavemente não teria sido bom. Houve um pequeno jorro de sangue, mas depois do suave brilho dourado da magia de cura de Kantrilla, o sangramento parou. Então ela foi cuidar dos outros. Bem, mesmo que ela desmaiasse de exaustão, enquanto ela não estivesse sangrando, eu poderia carregá-la de volta.
Todos meio que se reuniram no meio da sala, embora Halette ainda estivesse observando todas as entradas.
“M-Muito obrigado!” Sera inclinou a cabeça em nossa direção.
A meia-orc cujo nome eu não conseguia lembrar – ou pronunciar – assentiu.
“Sim, obrigado.”
Ela meio que grunhiu isso, mas sua falta de entusiasmo podia ser facilmente explicada pelo fato de que ela ainda estava deitada de costas. O feiticeiro anão deles também assentiu.
“Muito obrigado.”
Dos três, ele era o que estava em melhores condições, mas ele não tinha muita mana sobrando. Eu me lembro de tê-lo visto lançar alguns feitiços durante a batalha, principalmente no mago inimigo.
“Então…” Alhorn perguntou “Alguma ideia do motivo desses homens terem atacado vocês?”
“Não.” Sera balançou a cabeça “Nós tínhamos visto eles algumas vezes, mas presumimos que fossem apenas outros aventureiros. Hoje, eles estavam esperando nesta sala. Eles fingiram estar descansando, mas então aquele ali-” ela apontou para o primeiro homem com as adagas “De repente esfaqueou Jessica, nossa clériga. Ao mesmo tempo, eles atacaram o resto de nós. Não estávamos preparados, mas mesmo se estivéssemos, não sei se teríamos nos saído muito melhor. Felizmente vocês apareceram na hora certa.”
“Isso mesmo!” Kantrilla assentiu e sorriu.
Porém, ao olhar para o corpo da clériga – Jessica – caído no chão, Kantrilla se entristeceu.
“A barreira de silêncio se foi.” Halette declarou ao voltar para a sala, embora eu não a tivesse visto sair. “Provavelmente lançada por aquele mago.” Ela acenou com a cabeça em direção ao corpo inconsciente dele. “Além disso, não há mais ninguém por aqui.”
“Ótimo… Então…” Kasner olhou ao redor para os corpos, “Como lidamos com essa bagunça? Poderíamos deixar os corpos aqui, mas alguns deles não estão mortos e… A guilda provavelmente vai querer vê-los. Isso não é um incidente pequeno…”
Nós estávamos em oito – nove contando com Meias –, e haviam sete corpos. Infelizmente, Kasner e Kantrilla não eram fortes o suficiente para carregar nem ao menos um, e o grupo de Sera estava ferido demais para fazer muita coisa. Mesmo que cada um de nós pudesse carregar um, teríamos os braços cheios, o que seria uma desvantagem se os goblins atacassem. Não tínhamos uma boa maneira de carregá-los também – sem macas ou algo do tipo. Isso me fez considerar trazer uma maca no futuro, caso alguém se machucasse. No entanto, era mais uma tralha com que eu teria que me preocupar.
Depois de um tempo pensando, chegamos a um método. Não era elegante, mas era alguma coisa. Sera e sua companheira meia-orc carregariam Jessica juntas. Isso era o que elas conseguiam com seus ferimentos. Ambos os grupos possuíam algumas cordas que podíamos usar. Elas foram trazidas caso alguém caísse em uma armadilha indo para um andar inferior. Elas também poderiam ser usadas para agrupar equipamentos… Ou corpos.
Alhorn e eu pegamos um grupo de três atacantes cada um, e iríamos arrastá-los pelo percurso. Não era algo muito digno para eles, mas não estávamos particularmente preocupados com isso. Cada um de nós tinha um daqueles que estavam apenas inconscientes amarrados ao topo da pilha triangular.
Nós consideramos fazer com que Meias puxasse dois em vez disso, mas, embora ela fosse forte o suficiente, seria um problema para ela se mover em combate se os amarrássemos a ela. Ela poderia arrastar uma corda, mas… Era um pouco demais para os dentes dela puxar duas pessoas. Além disso, precisávamos dela para explorar.
Com nosso plano resolvido, partimos, tropeçando lentamente pelos corredores da masmorra. Pelo menos estávamos apenas no segundo andar… Não era uma distância curta, mas também não era a parte mais longa ou perigosa da masmorra.