
Capítulo 37
A Única Coisa que Posso Melhorar é a Força
Mesmo que Kantrilla e eu fossemos uma boa equipe, nós não éramos uma equipe equilibrada ou completa por conta própria. Um lutador corpo a corpo e uma curandeira não eram adequados para qualquer situação. Mesmo se nós levássemos em conta a minha habilidade em usar armas de longo alcance, ainda assim não era o suficiente. Se eu levasse em consideração os grupos dos RPGs que eu havia jogado, nós iríamos querer ter pelo menos um tanque e um usuário de magia.
Um tanque era o tipo de pessoa que conseguia absorver grandes quantidades de dano. Isso era um pouco mais complicado de encontrar em algo real… Porque mesmo que houvesse estatísticas parecidas com jogos, isso não era um jogo. Não era garantido que o tanque iria conseguir fazer com que as pessoas o atacassem, embora houvesse algumas habilidades que ajudassem nisso.
Claro, eles também podiam se jogar fisicamente na frente dos ataques, embora isso significasse que eles tinham que ser capazes de resistir a quaisquer ataques que estivessem vindo. Se jogar na frente de um inimigo também significava se jogar no caminho de um aliado, o que poderia arruinar os ataques deles também. Além disso, se a única coisa que a pessoa conseguisse fazer fosse usar uma armadura e receber ataques, ninguém se incomodaria em atacá-la. Eles teriam que ser capazes de pelo menos perturbar os inimigos e fazê-los se preocuparem com o que aconteceria se eles o ignorassem.
Assim, a ideia de ‘tanque’ tornou-se mais um ‘lutador corpo a corpo fortemente armadurado’. Eles seriam capazes de levar alguns golpes de propósito e, com sorte, causar dano a um inimigo na oportunidade criada. Nós precisávamos de pelo menos outro lutador de linha de frente com quem eu pudesse trabalhar em conjunto para evitar que nós fossemos cercados. Eu também poderia usar uma armadura pesada – e eu faria isso assim que tivesse dinheiro –, mas sem poder distribuir pontos para Resistência ou Constituição, eu não gostaria de levar nenhum golpe, mesmo que fossem para criar uma oportunidade.
Um usuário de magia era útil por um motivo: um feitiço bem colocado poderia derrotar instantaneamente um inimigo ou grupo de inimigos. O único problema era que eles levavam tempo para conjurar feitiços poderosos e, até lá, os inimigos já estavam próximos demais para serem alvejados adequadamente sem ferir os aliados. Obviamente, havia feitiços que ainda eram úteis nessas situações, ou se a linha de frente pudesse bloquear um corredor lotado de um enxame de inimigos.
A outra opção era caso os conjuradores conseguissem começar a luta utilizando magia, o que algumas vezes marcava o fim da batalha. Para isso, eles precisariam de batedores para informá-los sobre as localizações dos inimigos… E outra ajuda para eliminar qualquer inimigo que sobrevivesse ao ataque. Após usar um feitiço grande, eles poderiam precisar de descansar por alguns minutos antes de poderem conjurar novamente. Geralmente, a força deles era reservada para lutas importantes ou mais difíceis.
Pensar nisso me trouxe à mente outra posição que seria útil: um batedor. Saber quais monstros estavam chegando era muito útil, especialmente porque eles poderiam ser completamente evitados se fossem muito perigosos. Afinal, se minha vida estivesse em jogo, eu não me importaria em perder um pouco de lucro por uma chance significativamente reduzida de ser ferido ou morrer. Um batedor também desempenharia algum outro papel, geralmente como lutador corpo a corpo ou à distância. Embora eu tivesse Vigilância, eu não me qualificava realmente como um batedor, exceto em casos de emergência.
Enquanto tínhamos alguns requisitos para os membros do grupo, eu não achava que seria eles seriam muito difíceis de serem alcançados. Kantrilla era uma Clériga – e curandeiros eram muito valorizados. Nós provavelmente poderíamos encontrar um grupo já existente e nos juntar a eles. Ninguém se importaria em ter mais lutadores na linha de frente, e como eu vinha com uma Clériga, pelo menos me dariam uma chance de provar o meu valor – porque eu ainda não parecia forte.
Kantrilla e eu olhamos os quadros de recrutamento de grupos. Eles eram uma maneira mais fácil de encontrar pessoas do que simplesmente gritar em uma sala ou perguntar por aí. Nós poderíamos encontrar um grupo de classificação B ou possivelmente C para nos juntarmos, ou colocar algo indicando quem éramos e que tipo de grupo gostaríamos de participar.
Geralmente, quanto mais pessoas no grupo melhor, porque o risco reduzido e a velocidade de combate aumentada por conta de mais membros no grupo resultariam em lucros maiores no geral. O único limite acontecia quando não havia monstros suficientes para caçar na natureza ou o grupo era grande demais para viajar confortavelmente em uma masmorra. Obviamente, os membros também tinham que ter a força mais ou menos parecidas. De qualquer forma, mesmo um grupo que não necessariamente precisava de mais membros poderia decidir ver se queríamos nos juntar a eles.
Meus olhos percorreram o quadro de recrutamento. Primeiro, percebi uma grande quantia de classificação D e acima. Porém, isso não significava que não houvesse pessoas do nosso nível, é só que é sempre mais fácil achar coisas quando você não as procura. É como as situações em que você acha o que perdeu literalmente no último lugar que sonharia em procurar. É como um ciclo, caso não ache o que perdeu sempre haverá mais um lugar para procurar, mas caso ache se encerrará ali.
Finalmente, meus olhos começaram a encontrar alguns grupos do nível certo. Eles estavam procurando por batedores, usuários de magia, curandeiros… Haviam alguns procurando por pessoas como eu, mas não eram muitos.
Havia uma boa quantidade de pessoas em toda a guilda pela manhã, então eu realmente não notei mais uma pessoa próxima até que ele começou a falar com Kantrilla. “Olá, senhorita. Você é uma clériga?” Kantrilla estava usando vestes Clerigais tradicionais, então não era realmente uma pergunta, mas sim uma formalidade.
“Ah, sim!” Kantrilla assentiu.
O homem sorriu, “Isso é maravilhoso. Eu lidero um grupo de classificação D alta, e seria bom ter mais uma clériga. Você estaria interessada em se juntar?” Apesar do comportamento agradável do homem, eu não gostei dele. Talvez eu estivesse apenas com ciúmes. Talvez fosse porque eu estava sendo ignorado… Ou talvez fosse porque ele era consideravelmente mais velho que nós, o que tornava a situação meia estranha. Ele estava na casa dos 30 anos, e embora diferenças de idade não fossem muito incomuns em grupos de aventureiros, 10 anos ou mais de diferença era um tanto demais.
Kantrilla sorriu, “Obrigada pela oferta, mas eu sou classificação B. Eu preferiria me juntar a um grupo do meu nível.”
“Tem certeza? Seria realmente bom para nós termos você.”
Kantrilla olhou para mim, e eu balancei a cabeça. “Não, obrigado.”
O homem franzira a testa, e sua voz assumiu um tom diferente. “Escute aqui-” Ele estendeu a mão e a colocou no ombro de Kantrilla. Ela pareceu imediatamente desconfortável.
Antes que o homem pudesse terminar o que estava dizendo, agarrei o pulso dele e o afastei, “Tira a mão.”
O homem se virou para mim. “Esta é uma conversa particular, parceiro. Não se meta.”
Olhei para cima, diretamente nos olhos dele. Era difícil ser intimidador com minha altura, mas eu tentei o meu melhor. “Essa é minha amiga. Tira a mão.”