Embora a montanha perto de Turnera estivesse densamente coberta de árvores, havia alguns lugares rochosos aqui e ali onde as árvores altas não podiam crescer. A falta de árvores fez com que uma boa quantidade de luz solar chegasse à superfície e, portanto, essas áreas abrigavam arbustos e trepadeiras de baixo crescimento, que cobriam o solo. Essas plantas eram bastante resistentes ao frio e cresceriam livres em território élfico, mas se saíam muito pior em climas mais quentes e era raro serem vistas em qualquer lugar perto de Orphen.
Angeline apoiou o pai com um braço e carregou uma cesta no outro enquanto seguiam a trilha da montanha. A uma curta distância à frente, Charlotte e Mit lideravam com cestas semelhantes, enquanto Anessa e Miriam seguiam atrás.
“Ah, não por aí — precisamos passar por aquela pedra à esquerda.” Angeline gritou ao notar Charlotte olhando para uma trilha de animais que desviava na direção errada.
“Ok, por aqui.” Charlotte direcionou Mit pelo caminho correto. As duas crianças percorreram o caminho sinuoso em torno de pedras muito maiores do que elas. Aos poucos, as árvores ao seu redor foram ficando mais curtas e esparsas até que eles caminharam ao sol. Rochas escarpadas de tamanhos variados apareciam através do espesso tapete de folhas caídas. Quanto mais avançavam, mais acidentado se tornava o terreno.
Angeline já sentiu vontade de pular de alegria ao saber que os mirtilos-vermelhos estavam próximos e não conseguia tirar o sorriso do rosto. Suas pernas tentavam acelerar sozinhas, contudo se conteve — precisava ajudar o pai, pois ele ainda estava ferido. Devido à sua condição, estavam viajando mais devagar do que o normal, porém isso significava apenas que teriam tempo para conversar sobre todo tipo de coisas ao longo do caminho, e isso era divertido por si só.
Belgrieve não pôde deixar de rir da expressão alegre de Angeline.
“Você parece feliz.”
“Estou feliz…” Angeline disse, apertando seu braço.
“Ahh, é realmente bom e confortável aqui…” Miriam disse. Ela estava andando atrás da dupla de pai e filha, esticando os membros sem muita força enquanto caminhava.
Angeline assentiu.
“Sim, meus pulmões estão revigorados.”
O céu estava de um azul estonteante e, daquele alto, podiam ver o quão ocupado Turnera estava com um dia faltando para o festival de outono. Curiosamente, havia muito mais gente do que nunca, sem falar nas três irmãs Bordeaux, que ajudaram a animar o clima. A estátua de Viena já havia sido levada para a praça — se não soubessem com antecedência, poderia parecer que o festival já estava em andamento.
Angeline e suas amigas deixaram aquela cena barulhenta para ir colher mirtilos-vermelhos. O objetivo era oferecê-los no festival de amanhã, todavia, é claro, também queriam comer até se fartar — especialmente Angeline, que esperava por esse momento há anos. Depois de algum tempo, os seis chegaram a um lugar onde a luz do sol poente brilhando no céu acima parecia acertar na medida certa. Entre as folhas que cobriam o chão, um grande número de frutas vermelhas brilhantes reluzia como pedras preciosas. Charlotte e Mit gritaram de alegria.
“Encontrei!”
“Pai!” Angeline virou-se para Belgrieve com fogo nos olhos.
Belgrieve riu e sentou-se numa pedra próxima.
“Vá e pegue quantos quiser.”
Angeline saltou para o canteiro de mirtilos-vermelho, com a cesta pronta. Ela dançou entre as plantas com cautela, apesar de seu entusiasmo ilimitado, tomando cuidado para não pisar em nenhuma das frutas, e se abaixou para começar a colhê-las.
