“Eu também sou de um assentamento oriental, até onde sei, mas nunca conheci Maureen antes.” refletiu Satie.
“É verdade.” concordou Maureen. “Nunca pensei que uma veterana da mesma região que eu morasse tão perto. É chocante, de verdade.”
“Se for um assentamento diferente vocês não vão se encontrar, né? Também não conheço todo mundo no oeste.” argumentou Marguerite.
Satie, Maureen e Marguerite estavam conversando. Por alguma razão, há um clima realmente majestoso sempre que você tem três elfas juntas, pensou Angeline. Ela se viu em transe.
Era raro ver tal visão nas terras humanas. Todas as três tinham características bastante atraentes, como cabelos prateados e pele clara. Os olhos de Angeline estavam tão focados nelas que por um momento se perguntou se de alguma forma havia acabado em território élfico.
Porém este era um quarto de uma pousada. Belgrieve e os outros homens mais velhos partiram e levaram Touya junto, e então as meninas se reuniram. A mesa estava posta com chá e lanches leves, enquanto as gêmeas brincavam com brinquedos de madeira. Foi divertido colocar todos em um espaço tão apertado.
“O território élfico é um lugar vasto. Contudo, Maureen, você já conheceu Graham antes, não é?” Miriam perguntou.
Maureen assentiu.
“Certo, certo. Acho que já contei antes, na verdade já conheci a Senhorita Marguerite antes também.”
“Hey, Satie, nunca pensou em conhecer o Sr. Graham também?” Anessa perguntou.
“Ugh.” Satie gemeu antes de colocar um dedo em sua bochecha. “Bem, é claro, o admirava muito… No entanto, mais do que tudo, queria conhecer novos lugares. Se fosse ver Graham, bom, ainda estaria em território élfico.”
“Hmm, entendi.”
“É só que… Sabe como é… Muitas pessoas vieram ver meu tio-avô porque o admiravam, entretanto não vi nenhum deles de fato trabalhando como aventureiros aqui.” disse Marguerite.
É verdade, pensando agora… Angeline cruzou os braços.
“Maggie está certa… Tenho a sensação de que deveria haver mais alguns elfos aventureiros por aqui.”
“Oh, há um número surpreendente de nós. É só que o estilo de vida de um aventureiro vai contra o bom senso dos elfos. Quando ficam enjoados e cansados da realidade, eles finalmente voltam para casa. É o que acontece com a maioria. Diria que noventa por cento percebem que é impossível para eles apenas se misturarem com humanos na fronteira.” explicou Maureen. Ela passou a descrever como os dois grupos viviam e pensavam sobre o mundo de maneiras diferentes. Depois houve a questão de alguma discriminação contra os elfos para dissuadir os possíveis aventureiros. Ela riu e depois começou a encher o rosto de doces.
É tão diferente? Angeline se perguntou. Pelo menos pelo que ela percebeu ao sentar-se e conversar com elas, Satie, Maureen e (especialmente) Marguerite dificilmente eram diferentes dos humanos. Claro, Graham tinha um ar um tanto místico, porém não era difícil se dar bem com ele. Se eu conhecesse um elfo diferente deles, seria capaz de ter uma conversa adequada? Angeline tentou imaginar, contudo não conseguia nem começar a entender o que os elfos conversavam entre si.
No entanto tenho certeza de que o pai conseguiria se sair bem, concluiu Angeline. A garota apenas sabia que ele seria educado, ouviria bem e avaliaria com cuidado suas respostas. De fato seu comportamento também seria apreciado em território élfico.
Nesse caso, talvez tivessem que ir juntos para o território élfico algum dia. Aquelas florestas das quais tinha ouvido falar, os bosques de árvores cobertos de prata — talvez fossem ainda mais incríveis do que a floresta de Turnera. Se pudesse passar por eles de mãos dadas com Belgrieve e Satie, com certeza seria um momento maravilhoso. Angeline riu daquela imagem em sua mente.
“Do que está rindo?” Marguerite perguntou antes de dar uma mordida em um doce.
“Hmm… Estava pensando que queria visitar o território élfico um dia desses.”
Assim que Angeline disse isso, as expressões das três elfas mudaram. Marguerite parecia bastante desagradada e Satie olhou fixa para Angeline, enquanto Maureen ria.
“Eu não quero ir para casa.”
“Não é um lugar muito interessante, Ange. Quero dizer, o cenário pode ser bonito, porém…”
“Mas pode ser divertido ver como Angeline interage com os elfos em casa. Posso imaginar que as conversas não se conectaram nem um pouco.”
Ao que parecia, nem tudo era sol e arco-íris. De qualquer forma, todas as três consideravam o território élfico chato. Acharam-no tão triste que fugiram para se tornarem aventureiras, então talvez essa resposta fosse natural.
“Contudo quero vê-lo uma vez na vida. Há muitas árvores ohma crescendo lá, certo?” Miriam perguntou.
“Tenho a sensação de que também haverá outros animais selvagens raros.” continuou Anessa, “Embora imagino que seja muito frio, já que fica ainda mais ao norte do que Turnera.”
Angeline assentiu.
“É uma terra de mistério para nós… E é emocionante partir para o desconhecido.”
“Hehehe.” Satie riu. “Lembro-me de Bell ter dito algo assim antes — que era um lugar distante para ele, então queria visitá-lo. No entanto para nós, o mundo humano é muito mais atraente.”
“Ainda pensa assim, mesmo agora?” Angeline a perguntou.
Satie pensou por um momento, seus olhos vagando.
“Bom… Já vi muitas coisas terríveis, admito. Mesmo assim, gosto daqui. Tem Bell, Percy e Kasim — e eu também tenho minha filha, hehe…” Satie cutucou a bochecha de Angeline.
“Heehee…” Angeline coçou a cabeça timidamente. Não havia como não ficar muito feliz depois de ouvir isso.
De repente, o corredor foi preenchido com o som de vários passos e houve uma batida na porta. Quando esta se abriu, Belgrieve enfiou a cabeça para dentro.
“Desculpe, estamos muito atrasados. Vocês já tomaram café da manhã?”
“Não, ainda não. E vocês?”
“Não, acabamos de terminar nossas compras e voltamos. Achei que seria bom comer alguma coisa com todo mundo… Do que estavam falando?”
“Hehehe… Contarei tudo mais tarde. Certo, Ange?”
“Isso mesmo, mãe. Hehehe…”
Vendo as duas sorrindo de orelha a orelha, Belgrieve inclinou a cabeça com curiosidade.
A paisagem urbana da capital pode ser completamente diferente de um distrito para outro. Embora a área perto do palácio imperial (alinhada pelas mansões dos nobres) fosse limpa e ordenada, os locais onde as pessoas comuns viviam podiam ser miseráveis, ostentando as marcas de extensões aleatórias colocadas em edifícios existentes. Era como um labirinto ali. Estas eram as partes da cidade com as quais os aventureiros estavam mais familiarizados. Algumas áreas eram perigosas, todavia tais problemas também eram o pão com manteiga dos aventureiros.
