
Volume 2 - Capítulo 208
O Grande Sistema Demoníaco
Moby olhou de volta para Ray e acenou antes de chamar Jayden, que estava ao lado de Alex, para que ele pudesse mexer no relógio dela.
Sem hesitar nem por um instante, Jayden começou a andar em direção ao Moby e Ray.
Ela encarou Ray nos olhos, e então diversos pensamentos passaram pela sua mente, antes de estender o braço que estava com o relógio.
”Então, você consegue arrumar?” perguntou, em um tom firme, completamente diferente de seu jeito alegre e animada de sempre.
”Não posso garantir que eu vá consiga logo de primeira, já que essa vai ser a minha primeira tentativa… mas deve ser possível, senhorita Jayden…” respondeu Ray, com um leve nervosismo na voz, os olhos fechados por um motivo que ela não conseguia entender.
”Ótimo, sem pressa. É melhor fazer com calma do que estragar tudo.. Não estou nem um por afim de morrer por causa dessa merda de barreira e não poder salvar a Abby.. Isso não está nos meus planos.” disse Jayden, fazendo com que Ray apenas balançasse sua cabeça antes de abrir os olhos e se inclinar para examinar o relógio com mais cuidado, sem sequer encará-la diretamente.
Ray ainda tinha dificuldade em acreditar que os boatos sobre o Moby namorar a única filha da Família Griffith eram verdadeiros. E, além disso, a filha mais nova dos Reids também fazia parte do grupo dele.
As duas eram herdeiras de algumas das famílias mais influentes do país, famílias pelas quais Ray sonhava em trabalhar quando crescesse. Por isso, com essa diferença de status e o fato de nunca terem conversado antes, ele não conseguia evitar ficar tenso ao falar com ela. Não tinha nada a ver com sua beleza, até porque sabia que seria loucura tentar se aproximar da garota do “Lorde dos demônios”.
Era a segunda vez naquele dia que seus pensamentos sobre Moby mudavam.
Até pouco tempo atrás, ele só o via como um jovem determinado e trabalhador, cheio de ambições. Mas agora sua visão mudaria: Moby ainda era justo, mas muito mais impiedoso do que imaginava, o todo-poderoso senhor dos demônios, com a vida de Ray presa na ponta de seus dedos. Ray temia que essa diferença de status pudesse criar uma distância entre eles, sem saber se Moby realmente gostava dele ou se todo esse tempo apenas fingia enquanto escondia suas verdadeiras intensões.
Ainda assim, Ray não queria perder as esperanças. Queria provar seu valor não apenas para Moby, mas para todo o mundo. E esses pensamentos só o impulsionavam ainda mais a trabalhar cada vez mais e buscar a verdade com seus próprios méritos.
”Certo, tudo parece em ordem… vou começar.” disse Ray, recuando um pouco do braço dela e se sentando novamente.
Ele respirou fundo, fechou os olhos mais uma vez e abriu os braços, enquanto Jayden e Moby o observavam com expectativas.
De repente, quando Ray abriu lentamente seus olhos, ambos perceberam que ele não era mais humano: um brilho azul-claro emanava, sendo preenchido por números binários que desciam e subiam como uma tela de computador
Seus braços, ainda estendidos à frente, começaram a se contorcer e estalar, ossos se rearranjando com sons perturbadores, suas mãos inchando. O barulho de metal batendo ecoava enquanto sua carne e ossos se deformavam e se fundiam em algo diferente: braços mecânicos, repletos de partes metálicas, a pele agora mais parecendo aço do que carne.
Pequenos mecanismos em suas mãos se moviam como engrenagem, cada movimento emitia sons sutis, enquanto se conectavam ao relógio de Jayden, liberando faíscas azuladas, que não machucavam Jayden nem um pouco. Os números em seus olhos se moviam cada vez mais rápido, sua respiração acelerada, o suor escorrendo pelo rosto.
Todos no ambiente pararam o que estavam fazendo, sem acreditar na cena diante deles, incapazes de acreditar no que viam. Todos, exceto Jason, que continuava treinando, tentando dominar seus poderes demoníacos.
Avilia já havia explicado que algo assim poderia acontecer, mas Moby ainda se impressionava vendo com os próprios olhos.
Na época de Avilia, a tecnologia demoníaca e tecnologias semelhantes até existiam, mas eram raríssimas. Ninguém cogitava em usar tecnologia no lugar da magia. Num mundo movido pela magia como o Submundo, a tecnologia era motivo de piada, considerada inútil, inferior e descartável.
Mas, em um planeta como a Terra, regido tanto por máquinas quanto por habilidades, esse poder se mostrava incrivelmente útil.
Os braços metálicos de Ray começaram a se conectar ao relógio, enquanto a pressão em seu rosto aumentava. Os dentes cerrados, o suor cada vez mais intenso, sua mente tomada por uma enxurrada de informações. A dor mental e física era tanta que parecia que ele seria despedaçado por dentro.
Ainda assim, ele não cedeu. Avançou. Não era mais o fracassado desmotivado de antes. Já havia sofrido muito, então, o que mais poderia fazer com mais um pouco de dorzinha?
Moby, ao ver o sofrimento de Ray, sentiu que deveria interromper. Mas conteve-se. Ela percebeu a determinação do mesmo, sua vontade inabalável, e sabia que esse era o único caminho.
E então, tudo terminou. Todo o processo duraria apenas alguns minutos, mas para Ray pareceu uma eternidade.
Os números em seus olhos começaram a sumir, substituídos pelo azul-claro que também logo se dissipou, revelando de volta o branco, a pupila e a íris azul-acinzentada.
Os braços metálicos sumiram e voltaram a sua forma humana.
Exausto, Ray caiu para trás, incapaz de mover um único músculo. Não tinha mais energia ou forças para nada, apenas a satisfação de seu esforço, encarando o teto iluminado com olhos semiabertos, até deixar escapar um leve sorriso e murmurar algumas palavras antes de desmaiar de cansaço:
”Eu consegui, pessoal…”
Com orgulho e satisfação no rosto, Moby olhou para o corpo exausto de Ray, e o carregou com cuidado para a cama.
As habilidades de cura não podiam restaurar fadiga, muito menos a mental. A única coisa que restava para Ray agora era dormir e descansar.