O Grande Sistema Demoníaco

Volume 2 - Capítulo 206

O Grande Sistema Demoníaco

“Huuuaaaa.”  

Com um bocejo que ecoou pelo quarto inteiro, Ray abriu os olhos lentamente. A visão embaçada começou a sumir enquanto encarava a vista familiar do beliche acima dele e sentia o macio da cama e o travesseiro embaixo dele.  

Parecia que era os primeiros momentos de calma que teve em muitas semanas. Era quase como se tudo aquilo nunca tivesse acontecido, como se não passasse de um pesadelo, já que a última coisa de que se lembrava era de ter ido dormir após ser capturado mais uma vez.  

Mas vendo seu estado atual, todo curado e sem estar na enfermaria ou trancado numa dungeon para criar as capsulas, Ray só podia assumir que estava dentro de um sonho.  

Tentando mover seu corpo rígido e cansado, Ray sentou-se e esticou os braços, que pareciam mais leves do que o normal. E resultando da sua rigidez, ouviu vários estalos, como se nem estivesse acostumado com o seu corpo. O que era bem preocupante.  

“Ray! Você finalmente acordou! Que bom que está bem!” Uma voz familiar surgiu da sua direita, que transmitia uma alegria e calmaria que nunca poderia esquecer em nem um milhão de anos.  

Devagar e calmo, Ray virou o rosto na direção da voz e esfregou os olhos para clarear a visão, e com um tom carinhoso e natural respondeu à voz.  

“Sim, estou acordado, Alex. E você não vai acreditar no pesadelo que tive, er-…”  

Ray mordeu a língua no meio da frase, no mesmo momento em que sua visão ficou clara e conseguiu ver o quarto inteiro.  

Ele parecia estar em algum tipo de bolha verde, que começou a ficar amarelo, algo que soube na mesma hora que pertencia a Nags. De baixo dessa bolha, tinha várias poças de carne e sangue preto, e por algum motivo, sabia que era seu. Era quase como se fosse um coelho ou rato de laboratório.  

Quando olhou para cima, avistou a pior cena da sua vida…  

Moby, Alex e uma linda garota de cabelos azuis junto com os inimigos: Nags e Jason. Todos eles estavam sentados na mesa, com misturas de expressões em seus rostos enquanto o encaravam, com um brilho diabólico e quase selvagem nos olhos. Era quase como se fossem amigos, uma alcateia de lobos preparados para caçá-lo e matá-lo… 

Será que seu sonho não é um sonho? Será que foi traído, será que seus amigos se juntaram com a força dos inimigos? Ou será que estavam contra ele desde do começo? Por que mais estariam agindo de forma tão casual ao redor um do outro? Será que o usaram como algum tipo de experimento?  

Nada fazia sentindo enquanto encarava a cena com a boca e olhos trêmulos. Seu corpo inteiro parecia inquieto.  

Mas, apesar de tudo isso, ele não estava sentindo medo, nervosismo ou desespero como sempre. Na verdade, ele sentia uma adrenalina estranhamente familiar, porém obscura ao mesmo tempo. Um sorriso melancólico apareceu em seu rosto enquanto seu cérebro começou a rodar em círculos para chegar na melhor conclusão racional possível.  

“Ray, fique calmo. Eu prometo que não é o que parece. Você entendeu errado, eu derrotei esses dois aqui e agora eles são meus escravos leais.” Moby disse calmamente enquanto cruzava os braços na frente do corpo, com um leve indício de satisfação em seu rosto. Nags e Jason permaneceram imóveis mesmo com Moby os chamando de escravos.  

Os olhos trêmulos de Ray arregalaram-se ainda mais antes da sua mente começar a rodar em círculos. O Nags e o Jason que conhecia nunca teriam ficados calados em nenhuma circunstância se alguém os chamasse de escravos. Ele sabia que seus orgulhos não os permitiriam.  

E logo, uma memória de uma figura de olhos roxeados o confortando antes de perder a consciência, invadiu sua mente ao mesmo tempo que começou a perceber a verdade nas palavras de Moby.  

No entanto, isso ainda não aliviou a confusão e desconforto em sua alma; e o que era esse monte de sangue e carnes embaixo dele; junto com muitas outras perguntas sem respostas que percorriam em sua mente, o deixando com uma leve dor de cabeça.  

De repente, Moby desapareceu de onde estava na mesa, deixando para trás uma imagem residual, e Ray foi incapaz de acompanhar seus movimentos.  

Quando se deu conta, Moby já estava parado bem na sua frente, abaixando até o nível de seus olhos.  

Esticando seu braço direito e abrindo a mão, Moby chamou algum tipo de vórtex estranho roxo, direcionando para o sangue preto e os pedaços de carne no chão da bolha de Nags. O processo fez com que a bolha quebrasse como se fosse um vidro, fazendo Ray encarar Moby com admiração, como se ele fosse algum tipo de divindade com olhos roxos brilhantes. Ray estava absolutamente mudo, sem entender como aquilo fora possível sem um anel de armazenamento.  

Com o tom sério, mas ainda carinhoso, Moby concentrou seu olhar penetrante em Ray, que claramente estava confuso e perdido. Aquele olhar lhe causou calafrios, mas, ao mesmo tempo, o fez se sentir estranhamente confortado.  

“Eu posso te explicar tudo em um minuto, você só precisa olhar nos meus olhos e tudo fará sentindo.”  

Ray assentiu, sua boca estava aberta e suor escorria pelo rosto. Não tinha sentindo resistir, seria obrigado de qualquer jeito. Sem contar, que Ray confia em Moby como um amigo e sempre se sentia calmo na presença dele, agora sentindo-se mais do que nunca.  

“Beleza, eu vou olhar, quero saber o que está acontecendo…” Ray disse, respirando fundo para se acalmar.  

“Ótimo, então concentre-se nos meus olhos e vai entender tudo, confie em mim…” Moby continuou com o mesmo tom. Seus olhos brilhavam mais do que antes, dando a sensação de que Ray não estava olhando para um ser humano. Mas, apesar de tudo, não estava sentindo nenhuma hostilidade vinda do olhar, apenas um sentimento carinhoso e seriedade.  

Quando Ray olhou nos vórtices vermelhos que eram as pupilas de Moby, sua mente começou a divagar em diversas direções antes de ficar tudo branco…  

Memorias estranhas e informações externas começaram a entrar aos poucos em sua mente como uma onda de informações, a verdade sendo revelada lentamente como se estivesse lendo um livro.  

Memorias do que exatamente aconteceu com ele, quem era agora e o porquê; o que Moby era e por que Nags e Jason estavam presentes; quem Abby Reid era e o que aconteceu quando tentaram salvar; que tipos de poder tinha ganhado e o que Moby estava planejando…  

Isso teria provavelmente teria sido muito coisa para digerir antes, mas, agora, com seu novo corpo, era o suficiente para poder processar tudo…  

Ray aos poucos abriu os olhos, ganhando seus sentidos novamente, apenas para ver Moby o encarando com o mesmo olhar de antes. Um olhar que, agora, entendia sobre o que era.  

“E aí, conseguiu entender tudo?” Moby perguntou, observando a expressão inexpressiva de Ray, que se Moby parasse para pensar, era algo completamente normal e que estava se preocupando por nada.  

Moby conseguiu descobrir que sua Manipulação de Memória não só se aplicava a mudança de memórias, mas também em transferir elas.  

Antes de falar com Ray, ele tinha pedido para Avilia uma explicação completa sobre os Demônios Mecânicos e sobre o que são capazes, e depois passou tudo para Ray junto com as outras informações. Claro, teve que mentir sobre o motivo de ter tido o transformado em demônio. 

“Acho…Acho que sim… Então, somos todos demônios, eu sou um Demônio Mecânico e você é o futuro Lorde Demônio. Foi você que transformou todos aqui, incluindo Nags e Jason e tem total controle sobre eles. Eu estava quase morrendo, então teve que me transformar em um também. Abby Reid da Família Reid faz parte do grupo e foi capturada tentando me salvar, e agora precisa da minha ajuda para trazê-la de volta, certo?” Ray disse rápida, com seu tom natural e com as mãos sobre a boca, como se estivesse pensando.  

Não importava quantas vezes passasse, Moby nunca parou de se surpreender em como todos levaram isso de uma forma tão normal? Ele achou que, quando as pessoas soubessem que tinham perdido sua humanidade, causaria um grande impacto em seus psicológicos. Mas, toda vez que transformava uma pessoa em demônio, sempre era provado ao contrário com a pessoa aceitando sua realidade de forma rápida.  

Isso provavelmente acontecia devido ao modo como a transformação demoníaca pode alterar a mente de alguém sem que ela se dê conta, e ao fato de não haver alterações imediatas em seus corpos, que permanecem de aparência humana. As únicas mudanças são as grandes melhorias: regeneração, estrutura óssea, visão noturna e sentidos aprimorados, e no caso de Ray: além de um cérebro e uma capacidade mental maior, um bônus de conhecimento sobre mecânicas demoníacas.  

O poder governava o mundo, e a demonização dava a impressão de ser um mero ganho de poder, o que era bem-vindo, visto que as pessoas continuavam se sentindo elas mesmas. Além disso, o fato de a religião estar quase extinta ajudava, pois os símbolos do diabo e dos demônios não eram mais tão proeminentes quanto antes.  

Enquanto ele escondesse o fato de que a transformação em demônio pode ter sérios efeitos mentais, tudo ficaria bem. Afinal, seus serventes não pareciam desconfiar de nada e sentiam-se a mesma pessoa antes e depois de terem sido demonizados.  

“É, bem isso.” Moby disse, concordando com as palavras de Ray.  

“Eu ainda estou processando tudo… Não conheço essa tal Abby Reid pessoalmente, mas entendi que ela tentou me salvar e que é alguém importante para você… Todos sofreram muito por causa de mim, e nunca pude fazer nada em retorno. Agora, isso vai mudar! Com esse novo poder, vou provar que não sou inútil e que posso ajudar! E quanto ao seu plano, sim! Bem provável que consigo fazer o que pediu se as informações sobre a mecânica demoníaca estiverem corretas. Tudo que preciso é de um pouco de treino!” Ray disse determinado, querendo provar a si mesmo. O garoto deu uma pequena espiada na direção de Jason e Nags, que não reagiram a nada mesmo com sua atitude.  

Com as coisas indo numa direção melhor, um largo sorriso apareceu no rosto de Moby, mesmo sabendo lá no fundo que seu plano tinha uma pequena chance de sucesso. Abby estava em grande perigo e uma chance ainda era uma chance, muito melhor do que ficarem sentados com as bundas no sofá sem fazerem nada, esperando o outro fazer um movimento. Além disso, mesmo se falhar, seria um grande experimento de qualquer forma.  

“Fico feliz que vê-lo animado e vivo, cara. Nunca vi você tão determinado assim. Se conseguir ajudar, significaria muito para. Fico feliz em saber que está bem e muito melhor que antes.” Alex comento, olhando para Ray com o seu primeiro sorriso sincero depois de dias. O garoto estava realmente aliviado em ver o amigo azulado e o fato de que ele prometeu que ajudaria com a situação, trouxe um pouco de esperança… 

“Não se preocupe, Alex. Nunca me senti tão vivo antes…” 

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