
Volume 3 - Capítulo 223
A Virtude do Demônio
Agora que todo o foco foi colocado em Gobo, desde que ele era o único que ainda precisava alcançar o nível 100 para que conseguisse começar sua evolução. Ele continuou lutando contra muitos monstros diferentes durante o dia, enquanto Eiro fazia o seu melhor para que ele conseguisse se concentrar em diferentes coisas de uma vez.
Pelo menos era isso que Eiro estava tentando alcançar. Na realidade, não chegou nem perto de como o Demônio queria. No fim, Gobo continuava concentrado no único inimigo com que lutava e se tivesse que prestar atenção em algo mais, mudaria todo seu foco na direção desse ‘algo mais’ e então esqueceria sobre o inimigo com que lutava antes.
Ao ver como esse era o caso, apesar de Eito tentar mudar a situação para que isso não ocorresse, o Diabrete percebeu algo mais.
— Isso é um tanto parecido com a habilidade de classe de Arc, não é…? — Eiro murmurou. Se pensasse sobre isso, era possível que usasse isso como uma vantagem, em vez de tentar se livrar desse traço. Claro, ainda tinha alguns usos, vendo quão bem Arc conseguia se aproveitar disso, mas também era óbvio que tinha desvantagens. Assim que Eiro percebeu que isso poderia não ser tão mal, parou de tentar distrair Gobo para testar algo mais.
Gobo estava lutando contra um único inimigo. Não havia mais nada ao redor, nada que ele precisasse prestar atenção além desse único inimigo. Eiro observou as ações do Hobgoblin enquanto ele lutava contra os monstros e logo percebeu os benefícios disso. Gobo via tudo o que seu inimigo fazia, cada pequeno movimento, cada contração, cada decisão física que ele tomava, e era por isso que conseguia dominar seu inimigo com tanta facilidade.
Eiro pensou sobre isso por um tempo, tentando decidir se Gobo deveria focar em fortalecer a força da sua ‘visão de túnel’, ou se deveria se livrar disso de uma vez por todas.
E para decidir isso, Eiro tentou fazer algo quando percebeu que Gobo parou de prestar atenção ao inimigo agora morto. Ele pegou uma pedra e, em um ângulo cego de Gobo, a arremessou.
Assim que Gobo escutou o som, descobriu o que deveria prestar atenção a seguir e a encarou, embora tenha percebido que era uma pedra e ignorou de novo.
—Oh… Então é assim. — Eiro murmurou. — Essa visão de túnel é forte, afinal, não é? — O Demônio apontou com um sorriso enquanto caminhava na direção do Hobgoblin e colocava a mão no ombro dele.
— Vamos praticar um pouco? Irei arremessar três coisas de uma vez no ar e você tem que me dizer onde cada uma delas pousará, certo?
O Hobgoblin olhou para Eiro, nervoso, mas, no fim, assentiu. Ele escutava tudo o que Eiro dizia há um tempo, então se acostumou com o fato de que o Diabrete tentava aprimorar Gobo de uma forma ou de outra. Sabia que ele deveria escutar Eiro se quisesse se tornar um Gobo melhor, então era por isso que tentou escutá-lo, mesmo que nem sempre conseguisse executar com perfeição.
Assim, Eiro jogou três rochas que segurava no ar e Gobo tentou seguir as três. Por causa da forma como Eiro as arremessou, elas pousaram no chão uma depois da outra e não ao mesmo tempo.
Gobo estalou o pescoço na direção da primeira pedra assim que ela caiu e tentou se recordar onde ela estava, depois focou nos arredores de novo. Então, a segunda pedra atingiu o solo e Gobo repetiu o mesmo processo.
Agora, Gobo só tinha que ver a última pedra. Para isso, olhou ao redor e deu um passo para trás, depois de olhar para cima por um instante. Pois a última rocha estava logo acima dele. Imediatamente, Gobo conseguiu desviar da pedra e então olhou para Eiro para contar a ele as posições de todas as rochas, mas percebeu que o Diabrete parecia bastante feliz com algo.
— Certo, então era isso! — Eiro exclamou e o núcleo do slime na garrafa que ele segurava estava um pouco confuso.
— O que foi? Você ficou feliz que ele conseguiu desviar de uma das rochas que você arremessou?
— Uhum, é por isso que estou feliz. — O Demônio comentou sem pestanejar, embora isso tenha sido algo que Bavet tenha dito de brincadeira. Portanto, recebeu uma explicação do porquê Eiro estava feliz. — Gobo é horrível em se concentrar em duas coisas de uma vez, mas quando se concentra em uma coisa, vai com tudo. Ele reúne todas as informações que precisa, faz tudo o que precisa ser feito e não desperdiça tempo algum. A princípio, pensei que ele continuaria focando na primeira rocha que caía, para ser atingido pela terceira, mas não. Eu disse para ele se lembrar de onde as rochas pousariam e essa era toda a informação que ele precisava reunir delas para tentar se focar na próxima. — Eiro comentou. — Parece que Gobo é ótimo distinguindo entre informações brutas que recebe no seu entorno e, em seguida, classificá-las para ver no que ele deveria focar de forma mais instintiva. Isso pode ser muito bom. — O Demônio disse com um sorriso grande e animado. — Estou feliz de ver que você não é inútil como um líder, Gobo.
O Hobgoblin o encarou de volta com uma expressão confusa, inclinando a cabeça para o lado.
— Obrigado… Mestre? — Ele adicionou, pois não tinha certeza se isso era um elogio ou não e Eiro começou a pensar em como deveria usar Gobo.
— De qualquer forma, você não conseguiria trabalhar sozinho. Precisamos de algo ou alguém que pode te ajudar com qualquer coisa que você não consiga fazer. Algo que te diga quando desviar sua atenção para outra coisa, que tenha em vista tudo o que te rodeia… — Eiro murmurou, tendo uma boa ideia. — Heh, acho que devemos conseguir um familiar para você, Gobo.
Foi essa a conclusão a que Eiro chegou. Havia muitos tipos diferentes de familiares, na verdade. O tipo que seria útil em combate por ser forte, o tipo que era capaz de fornecer apoio fora de combate em tarefas do cotidiano, ou o tipo que conseguia preencher as lacunas. Parecia que Gobo precisava de um que poderia assumir todas essas posições, um verdadeiro parceiro em quem Gobo poderia confiar sem hesitação, para que conseguisse escutar as palavras dele em combate.
Eiro pensou sobre isso por um tempo com mais intensidade, mas, no fim, não conseguiu chegar a um bom familiar.
— Talvez Solomon tenha alguma ideia de onde podemos conseguir alguns… — Ele murmurou, encarando Gobo, que parecia perplexo com as palavras de Eiro.
— Mestre… o que é um familiar? — Ele questionou e Eiro levantou as sobrancelhas.
— Ah, certo, acho que ainda não expliquei. Um familiar é um ser que está conectado diretamente a você. Um parceiro com quem você sempre pode contar. Lugo é meu familiar, por exemplo. — O Diabrete explicou enquanto caminhava até o cervo e esfregava o focinho dele. Gobo acenou com a cabeça.
— Gobo quer… eu quero um familiar. — Ele respondeu e Eiro sorriu.
— Ótimo, porque isso não está em discussão de qualquer maneira. Não posso te deixar se virar sozinho com essa sua visão de túnel e não há como eu mesmo estar presente o tempo todo.
Parecia que Gobo já havia compreendido quão importante um bom parceiro poderia ser. A forma como sua personalidade mudou do caótico que era antes foi bastante agradável, se Eiro tivesse que ser honesto. Então olhou para Bavet na garrafa.
— Ei, acho que devemos tentar liberar a monstruosidade de Gobo depois que ele evoluir. Isso deve ser como um ‘estado’ fixo depois disso. Só seria prejudicial se continuarmos assim por muito tempo, não acha?
— Ei, o que você quer dizer com prejudicial? Eu tive minha monstruosidade selada toda a minha vida até você aparecer e estou perfeitamente bem! — Bavet exclamou e Eiro olhou para a garrafa com um pequeno sorriso.
— Sei, perfeitamente mesmo. — Ele respondeu. — Bem, minha opinião ainda permanece a mesma. Acho que seria bom desbloquear o selo. Não é como se pudéssemos deixar selado para sempre, isso não seria uma boa ideia. — O Demônio apontou.
— Mais importante, ele precisa evoluir, certo? Então, cale a boca e vamos continuar! — O slime gritou e Eiro assentiu enquanto balançava a garrafa, pois Bavet tentou dar ordens. Eiro encarou Gobo.
— Certo, você precisa matar só mais alguns monstros. Vamos começar sua evolução antes do sol se pôr! — Eiro sugeriu e Gobo olhou na direção dele e, um tanto animado, começou a olhar ao redor para procurar alguns monstros para lutar, mas, feliz, Eiro já havia feito isso para ele, então guiou o Hobgoblin na direção aproximada de onde estavam, para que ele conseguisse encontrá-los por conta própria. Não parecia que haveria problemas dessa vez, apesar do fato de Gobo estar lutando contra dois inimigos de uma vez. Individual, eles pareciam bastante fracos, então Gobo conseguiu derrubar aquele em que estava concentrado quase de imediato e depois focou no segundo, encerrando a luta dentro de alguns instantes.
No fim, parecia que Gobo era de fato um lutador talentoso, não havia dúvidas disso, então eles tinham que assegurar-se de apoiá-lo nessa área o máximo possível. De qualquer forma, agora que Gobo matou esses dois últimos monstros, havia mais uma coisa em que precisavam se concentrar.
E isto era a evolução de Gobo. Parecia que ele também tinha três escolhas disponíveis.
Poderia se especializar em magia, em combate físico e poderia continuar sendo um misto de ambos, como era agora. Era óbvio que tanto Eiro como Gobo concordariam com essa escolha, portanto o Hobgoblin inseriu sua mana no orbe de metal e recebeu o último ‘aprimoramento de evolução’ colocado nele, fazendo-o virar pó enquanto Gobo escolhia a evolução que queria.