
Volume 3 - Capítulo 207
A Virtude do Demônio
Logo o sol começou a descer pelo horizonte e a floresta onde a Filha do Inverno se aproximava cada vez mais, enquanto Lugo esmagava a neve sob seus pés em sua velocidade máxima.
Eiro começou a escutar os soldados que acompanhavam Solomon na distância dentro da floresta. Parecia que a maioria deles estava sendo preguiçosa. O Demônio ficou um pouco incomodado ao vê-los, ao notar que estavam esmagando as plantas especiais sob seus pés ou equipamentos, mas isso não importava muito, desde que Eiro caminhou até onde Solomon estava. Ele só teve que mostrar o broche aos soldados para que recebesse permissão, então não demorou muito com a ajuda da velocidade de Lugo correndo.
Assim que conseguiu ver o Rei, desceu das costas do cervo e escolheu se aproximar a pé.
Solomon não estava sozinho. Junto a mais soldados, havia uma pessoa que quase o irritou por vê-la. Evelyn estava parada ali, ao lado de Solomon, falando casualmente com ele.
— Ah, Eiro! — Solomon exclamou. — Como você está? Não escutei sobre você faz um tempo, está tudo bem? — O Rei perguntou com um sorriso brilhante e o Diabrete assentiu.
— Claro que sim, estou me sentindo bem. Mais do que ótimo, na verdade. — Eiro comentou enquanto virava a cabeça para o lado para olhar para Evelyn através da máscara, enquanto a Feiticeira da Pedra de Sangue permanecia ali, sorrindo.
Com uma expressão satisfeita, Solomon bateu as palmas.
— Certo, então e agora? O que devemos fazer? Invocar a Filha do Inverno?
— Hm? Não, temos que esperar. Ela pode chegar a qualquer momento durante o dia. Normalmente é bastante cedo, mas algumas vezes as Damas podem aparecer durante a manhã ou logo depois da meia-noite. É raro, mas pode acontecer. Se acontecer, temos que entreter a Filha por um tempo até que seja hora de sair. — Eiro explicou e Solomon olhou surpreso para o Demônio.
— Oh? Interessante. Então, demorará um pouco de tempo, não é? — Solomon questionou. Eiro deu de ombros e olhou para a clareira onde a Filha apareceria.
— Sim, vai. E sugiro que seus soldados saiam antes da meia-noite, as Damas e suas Filhas não gostam muito de ver coisas como armas.
Ao escutar Eiro dizer isso, Evelyn olhou para o Diabrete com uma expressão intrigada.
— Entendo, então você deseja ficar sozinho com o Rei de um país durante um dia inteiro? Acho que isso pode ser um pouco… arriscado, não acha, Senhor Chefe da Guarda? — A Feiticeira perguntou enquanto olhava para o homem de armadura pesada parado atrás de Solomon, que encarou Eiro com um aceno.
— Devo concordar, Alteza, não podemos concordar com isso. Tenho ciência de que confia nele, mas não podemos abandoná-lo em tal situação. — O guarda disse e Eiro deu de ombros.
— Tudo bem, contanto que não carregue nenhuma arma e não se aproximem diretamente da Filha, posso ser capaz de convencê-la. — Eiro comentou. — Mas sugiro que não toquem em suas armas após a meia-noite. Se nossa convidada for como sua mãe, você será congelado antes mesmo de perceber.
O guarda cerrou os dentes e Eiro olhou para ele com uma expressão vazia. Ele não queria se incomodar com esses caras. Só estavam sendo muito irritantes.
— Façam o que ele diz. Após a meia-noite, não desejo ver nenhum tipo de cajado, espada ou outras armas. — Solomon disse com um comando e o chefe da guarda assentiu.
— Sim, sua Alteza. — Ele respondeu relutante, mas Eiro se virou e se agachou no chão, com um movimento rápido e suave.
— Com licença, então. Irei procurar algumas oferendas extras que precisamos. — Eiro sugeriu e enfiou sua mana na neve para usar suas habilidades sensoriais para ver se conseguia encontrá-las, mas ao ver isso, Solomon se agachou ao lado de Eiro e, com uma leve risada, disse:
— E como você fará isso sentado aqui? Vamos lá, não seja preguiçoso, Eiro. Não temos muito tempo, agora…
— Encontrei. — Eiro respondeu e se levantou de volta. — Não estava sendo preguiçoso, Solomon. É uma técnica especial. Se me der licença. Por favor, cuide do meu idiota por um tempo. — O Diabrete pediu para ele e Solomon olhou para além dele para ver de quem ele estava falando. Enquanto isso, Eiro conseguiu ouvir Lugo berrando presunçosamente enquanto olhava de soslaio para Gondos, mas o Demônio deu um tapinha nas costas do cervo, enquanto caminhava na direção da primeira oferenda.
— Eu estava falando de você, idiota. — Eiro comentou, enquanto afundava o pé na neve. Ele pressionou a neve com um leve estalo, já que estava acostumado com a neve, mas agora a congelou para conseguir um bom apoio. Assim que conseguiu o apoio que procurava, Eiro respirou fundo e se infundiu com o segundo estágio, ou ‘infundiu essência’, como começou a chamar durante as duas últimas semanas, seu corpo com magia de ar.
Claro, estava aproveitando um pouco da neve, que ficou presa em sua capa através da leve nevasca que caiu durante o caminho para cá, para garantir que os ventos fortes não a fizessem flutuar. E, com o corpo leve de Eiro, o Demônio avançou mais rápido do que a maioria aqui conseguiu perceber. Parecia que até mesmo Evelyn ficou meio surpresa, algo que Eiro ficou mais do que feliz em ver.
O Diabrete caminhou na floresta pequena e balançou seu Três de Espadas ao seu redor, reunindo todas as raízes, musgos e flores que precisava como oferendas para a Filha do Inverno.
Não demorou muito para que encontrasse tudo o que precisava, mas, quando conseguiu, algo irritante aconteceu. Era muito pequena, do tamanho de um Goblin, mas uma Monstruosidade Congelada apareceu.
— Ah… De volta ao lar, é impossível passar os Solstícios ou Equinócios sem que uma ou duas Monstruosidades apareçam, mas sério? Agora? — Eiro rosnou alto e se virou de novo.
Correu na direção em que sentiu a Monstruosidade do Inverno, a qual, por sorte, estava no outro lado de onde os soldados estavam reunidos. Assim, Eiro poderia depositar todas as oferendas que reuniu com Solomon.
Sem que Solomon ou até mesmo Evelyn notassem algo, Eiro pulou sobre suas cabeças e usou magia de evento, combinando com magia de gelo para tornar a neve mais fofa e pegar os materiais caídos. Então, o Demônio balançou sobre os galhos e troncos das árvores e suas superfícies úmidas e congeladas e logo chegou ao local em que a monstruosidade estava, mas parecia que ele não foi o único a percebê-la.
— Monstro! — Um dos soldados exclamou e apontou sua lança na direção dele. Estavam fora da cidade, então tinham que estar preparados para lidar com monstros em primeiro lugar. Parecia que nem perceberam que esse era um tipo especial de monstro. Portanto, Eiro compreendeu que essa seria uma boa chance para observar o estado atual dos guardas e soldados da cidade e se agachou em um dos galhos.
Eiro não queria causar problemas para Solomon, então pularia se algo de fato acontecesse, mas, por enquanto, essa deveria ser uma boa forma para passar o tempo inevitável de inatividade. Pelo que Eiro conseguia dizer, essa era uma versão menor da primeira monstruosidade que o Demônio encontrou e matou. Ela tinha pelo branco em suas costas, dois pequenos chifres no topo de sua cabeça e parecia um macaco.
Mas não era maior que um Goblin, então isso não seria um problema. Pelo menos foi o que pensou no começo, mas, de repente, a Monstruosidade balançou o seu punho na direção da ponta da lança apontada para ela. Sem nem encostar nela, o metal congelou e se estilhaçou no instante em que houve qualquer tipo de contato, devido à mudança extrema de temperatura e ao golpe forte direcionado contra ela.
O Diabrete não esperava que isso acontecesse.
— É muito mais forte do que as que estou acostumado, hein? — Eiro murmurou e Nelli encarou a Monstruosidade.
— Sim, de fato é. O que não faz muito sentido, já que é uma Filha do Inverno. Apesar disso… — Nelli olhou para a figura do monstro mágico com um leve olhar, recordando de algo. — Ah, acho que isso aconteceu uma vez antes! Houve uma que era rápida durante um ano. Jura não conseguiu capturá-la daquela vez e desapareceu junto da Dama do Verão. Então, no ano seguinte, a mesma criatura apareceu de novo. Ela ainda tinha a cicatriz que Jura causou no seu corpo, mas era um pouco mais forte, de acordo com Jura… pode ser que elas fiquem mais fortes se não forem exterminadas.
— Bem, isso explicaria. Parece que esse cara não sabe nada sobre isso. — Eiro resmungou e desceu da árvore. Era óbvio que esses guardas não conseguiram lidar com ela, então tinha que intervir.
A Monstruosidade socou um dos soldados e o mandou voando alguns metros. Eiro desviou do corpo e se certificou de que o soldado sobreviveu, depois encarou a figura do monstro na sua frente.
— Oh… Parece meio fofo de perto assim. — Eiro comentou e se inclinou para frente. O monstro balançou seu punho mais uma vez, mas Eiro desviou com facilidade.
Os soldados e guardas espectadores, que viram seu colega sendo arremessado como um pedregulho, encaravam Eiro, atordoados. Eiro se agachou e olhou para a figura do monstro, com um sorriso sob sua máscara, enquanto esmagava o punho do monstro com a mão.
— Ah… — O Demônio riu. — Seus chifres serão uma boa adição à minha coleção. — Ele murmurou, o efeito da sua voz fortalecido pela habilidade do atributo Carisma. Não só os espectadores sentiram arrepios, mas até o monstro sentiu. Ele era muito mais fraco do que Eiro, afinal, e sabia disso.
Assim, Eiro soltou o punho esmagado, enquanto retirava sua adaga, pressionando-a no peito do monstro petrificado com facilidade.