A Virtude do Demônio

Volume 3 - Capítulo 175

A Virtude do Demônio

— É bem antigo e terei que ver para reparar os móveis, mas ainda deve ser melhor do que nada. — Eiro comentou enquanto avançava nesse espaço, tentando dar uma olhada mais próxima em tudo. A última vez que esteve aqui ele não teve muito tempo para olhar tudo ao seu redor, mas agora que voltou e conseguiu observar todos os entalhes, ele estava convencido de que a pessoa que vivia aqui criou a laje coletora de mana ali na frente.

— Merda… Isso parece muito legal. Quem teria pensado que encontraríamos um lugar como este em uma vila de goblins? — Krog perguntou com um leve assobio e Eiro suspirou em resposta.

— Tenho bastante certeza de que esse lugar é a razão dessa vila existir. Quem quer que tenha construído esse lugar, construiu aquela laje e ela está puxando mana para si, provavelmente para fortalecer o crescimento das pedras mágicas ali. A maioria dos monstros é atraída por grandes quantidades de mana e, coincidente, os primeiros a chegarem aqui foram os Goblins da Montanha. — O Demônio explicou. — Teria ficado surpreso se tivesse visto essa área abandonada.

Após pensar um pouco, Krog deu de ombros.

— Claro. — Ele respondeu. Eiro rolou os olhos e então começou a sair da caverna.

— Nelli, Gondos, observem as crianças. Slime, veja do que precisa para selar a monstruosidade de todos esses goblins. E vocês três, acomodem-se e tirem uma pausa. Lugo, venha comigo. — Com essas palavras, Eiro voltou para a entrada da pequena caverna, usando magia para tirar a neve em cima e ao redor da laje de pedra.

Eiro se sentou de pernas cruzadas na frente da laje e olhou para Lugo, enquanto ele se sentava logo à sua frente, encarando o rosto do Diabrete.

— Venha um pouco mais perto. — Eiro disse para ele e Lugo se aproximou da laje até que Eiro conseguisse segurar na galhada de Lugo, algo que o Diabete fez.

— Certo, Lugo. Irei inserir quase toda minha mana em você, tudo bem? Quero que circule ela dentro do seu corpo como fez antes. Já que é meu familiar, deve ser capaz de fazer isso como se fosse sua própria mana. — O Demônio explicou e Lugo inclinou a cabeça para o lado, com um berro baixo.

— Primeiro, para ajudar o seu fluxo e mana. Se você for algum tipo de Besta Mágica, é assim que você deve conseguir subir de nível, afinal. Eu preciso me livrar da minha mana para abrir espaço para me infundir com a Magia da Natureza. Entendeu? — Eiro perguntou, embora tenha olhado um pouco irritado para a entrada da caverna. — Jess, algo errado? Não quero ser interrompido.

A jovem maga saiu da caverna com um sorriso estranho.

— Hehe… me desculpe por isso. Só… o que isso significa? Quer infundir seu corpo com a magia da Natureza? Mas por quê…? E por que se livrar de toda a sua mana? E especialmente, como você conseguirá criar magia da Natureza com pedras mágicas sem sua mana? — Jess questionou, aparente muito curiosa com o que Eiro queria fazer.

— É muito simples. — Eiro disse, soltando a galhada de Lugo por um tempo para se virar na direção dela. — Tenho uma constituição especial, então meu corpo consegue se fundir com magia muito fácil. Estou fazendo isso para que consiga despertar meu talento para magia de Natureza em uma habilidade com mais facilidade. — Claro, isso era uma mentira completa. Eiro não tinha talento para magia de Natureza, na verdade, estava tentando adquirir esse talento agora. E havia uma razão muito diferente para isso.

— Então, a questão de se infundir com magia é… Hmm… — Eiro disse, tentando pensar em uma boa forma de explicar isso. — Vamos dizer que você tem uma garrafa cheia de água. A garrafa é o seu corpo e a água, sua mana. Normalmente garrafas como estas não estão completamente cheias, certo? Ainda há um pouco de ar.

— Sim. — Jess assentiu depois de escutar essa parte da explicação, então Eiro continuou.

— Assim, vamos dizer que você tem o suco de uma fruta. Esse suco é um tipo de magia elemental. Você vai preencher esse espaço vazio na garrafa com esse suco e, então, vai misturá-lo com a água. Essa é a infusão normal. Agora, pense o que acontece quando há algumas gotas de mana na garrafa desde o começo?

— A garrafa fica completamente cheia de suco? — Jess refletiu baixinho e Eiro acenou.

— Exato. Ao se livrar da sua mana, você é capaz de encher o seu corpo com mais magia elemental, mas como não pode misturar sua própria mana com outras pessoas, você não pode pedir para outra pessoa injetar magia em você, mas muito coincidente, descobri que meu corpo de fato consegue absorver mana ambiente com muita segurança. Então, farei com que a mana ambiente surpreendente refinada e cristalina reunida na laje abaixo de mim crie magia da Natureza com as pedras mágicas e depois absorverei com o meu corpo.

Após pensar um pouco, Jess assentiu e coçou sua bochecha.

— Posso… talvez observar?

— Claro. No caso de algo acontecer e eu perder o controle ou algo do tipo, certifique-se de ajudar Lugo a me tirar de cima da laje e pegar as pedras mágicas. Certo?

— Certo! Deixa comigo! — Ela exclamou animada, enquanto Eiro segurava mais uma vez na galhada de Lugo. Devagar, o Diabrete começou a inserir sua mana no corpo do Cervo. A dor de cabeça ficava cada vez mais forte até que ele mal conseguia se concentrar ou abrir os olhos, mas Eiro pressionou uma das pedras mágicas da natureza na laje abaixo dele e tentou usar o pouco de mana que ainda conseguia, ficando em perigo, para criar um fluxo inicial entre a laje e a pedra mágica.

A partir disso, a mana ambiente, que não sabia para onde ir, agora tinha um novo caminho através da pedra mágica. Eiro tentou fazê-la fluir para os seus braços e observou enquanto sua pele se tornava amarronzada, apesar de que sua mão direita não tenha mudado muito.

‘Como uma mana tão forte poderia pular distâncias curtas como essa facilidade?’

Eiro começou a levantar a pedra mágica da laje e então pressioná-la contra seu peito, para que conseguisse fazê-la fluir pelo seu coração. E assim que fez isso, a magia da Natureza começou a fluir por todo o seu corpo.

[Seu corpo foi infundido com Natureza. Sua mana vai fluir mais suavemente e sua compreensão da mana aumentará.]

Eiro conseguia sentir as coisas por todo o seu corpo mudarem. Era mais difícil mover o seu corpo porque sua pele se tornou mais grossa e parecida com a casca de uma árvore e seus chifres de cristal começaram a crescer como galhos, mas logo as mudanças desaceleraram. Ainda havia algumas mudanças constantes e minúsculas ocorrendo por todo o corpo dele, mas não eram visíveis aos olhos de uma pessoa normal.

Neste mesmo instante, algo mais aconteceu: a ‘Marca do Diabo’ havia absorvido parte da mana ambiente que havia se reunida no peito de Eiro depois que ele tentou usar sua árvore como um cajado, mas não absorveu tudo.

Ainda havia um pequeno ‘caroço’ em seu peito. Um caroço que continuou a crescer cada vez mais agora que Eiro trouxe mais mana ambiente na jogada. E, em algum ponto, uma notificação apareceu na frente do Demônio.

[Sua mana está se misturando com mana estrangeira]

[Devido a uma quantidade avassaladora de mana estrangeira, seu corpo está mudando aos poucos]

‘Bom’, Eiro pensou enquanto fechava os olhos. Era isso que ele queria. Ele estava ciente de que naquela última vez a situação era muito perigosa, mas isso não era por causa da mana estrangeira, na verdade, era porque havia mana demais para o seu corpo aguentar. As mudanças que seu corpo passou naquela época eram positivas.

O fluxo de mana dele aumentou, ele se sentiu mais ágil a longo prazo e parecia que o desenvolvimento da sua memória muscular era muito mais apoiado que antes. Claro, as mudanças foram minúsculas naquela época, porque Eiro não fez isso por um longo tempo, mas agora era diferente, Eiro queria absorver o máximo dessa mana ambiente estrangeira e fazer o seu corpo mudar ainda mais.

E por que ele estava fazendo isso ao mesmo tempo que infundia o seu corpo com o elemento natureza? Bem, isso era bastante simples: não era o único elemento que infundiria o seu corpo, era o principal. Ele sabia no que o elemento natureza era bom, que era aumentar o seu controle sobre a mana.

Magia de natureza era mais conectada à essência da mana do que qualquer outra, e por ela aumentar o fluxo da mana tão bem, Eiro queria que seu corpo fosse influenciado por ela. Certamente ela aumentaria passivamente quão bem Eiro conseguia controlar sua própria mana.

Além disso, sentiu que isso também o ajudaria a ganhar a afinidade para o elemento se seu corpo fosse influenciado diretamente por ele.

O Diabrete sentiu o fluxo de mana como nunca enquanto não estava fundido com Nelli ou Gondos, então sabia que funcionava muito bem em alguma extensão, pelo menos. Claro, o fato de que o ‘caroço’ de mana estrangeira estava crescendo dentro do seu corpo não era perfeito, pois ele se sentia um pouco desconfortável, mas Eiro tinha certeza de que poderia fazer uso dele de algumas formas interessantes.

Dessa forma, Eiro continuou meditando assim. Em vez de ter mana fluindo através do seu corpo, ele fez a magia da natureza fluir por ele em um círculo.

Mais e mais, a madeira no seu corpo continuou crescendo. Os galhos acima da sua cabeça se tornaram mais longos e grossos e raízes cresceram dos seus membros, rastejando pelo chão como cobras.

Eiro continuou assim por algumas horas, até que sentiu alguém tocar no seu ombro.

— O quê? — Eiro perguntou com um leve rosnado, embora tenha notado de imediato que havia algo errado. No topo do penhasco, havia alguns monstros reunidos. Pareciam como aranhas e Eiro os notou algumas vezes enquanto vinham para cá. Eles os seguiram até aqui.

— O que faremos com eles? Não temos um arqueiro e eles devem ser muito rápidos para conjurarmos magia com segurança. — James apontou. — E não consigo alcançá-los com minhas facas de arremesso.

Com um gemido, Eiro suspirou e se levantou, tendo que afastar seu corpo enorme da laje.

— Cuidarei disso. — Eiro disse enquanto respirava fundo e se livrava da mana elemental dentro do seu corpo, mas mesmo assim, seu corpo havia mudado bastante durante as últimas horas, absorvendo mana estrangeira enquanto circulava magia da natureza dentro do corpo.

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