
Volume 2 - Capítulo 98
A Virtude do Demônio
Após regar a água nas raízes da sua árvore, Eiro e Nelli escolheram refinar um pouco mais de água, até que a mana dele ficasse relativamente baixa, e apenas deram a água recém-refinada para a árvore, tudo para aumentar o nível da sua Magia Espiritual. E isso funcionou, pois a habilidade realmente aumentou cerca de cinco vezes enquanto faziam isso, apesar de ter se passado apenas uma hora!
Satisfeito, Eiro passou o resto do dia caçando e colhendo algumas ervas. Ele realmente conseguiu caçar três coelhos e dois faisões hoje, algo que também o deixou muito feliz. Apesar de não ter subido de nível com isso, ele ainda estava satisfeito, pois parecia estar se aproximando do próximo nível.
E quando a noite chegou, o humor de Eiro, que havia aumentado relativamente bastante, retornou ao fundo de como estava nessa manhã, quando viu Rudy e recordou o que fez. O jantar foi um pouco estranho e silencioso, embora Arc e Clementine tivessem feito o melhor que conseguiam para melhorar o clima, algo pelo que o Diabrete ficou muito grato, mas isso não mudou o fato de que Rudy nem mesmo olhou nos olhos de Eiro nos breves momentos em que conversaram.
Então, com seu estômago embrulhado, Eiro foi para a cama e mal conseguiu dormir. Ou melhor, ‘mal’ ainda era muito, já que apenas fechou os olhos por cerca de uma hora, e mesmo assim não conseguiu realmente dormir.
Levantou-se novamente quando marcou uma hora antes do tempo em que precisasse retirar o arco que estava fazendo para Sammy da solução de tratamento.
Nessa última hora, ele apenas passou o tempo sentado na cadeira da cabana, esperando a hora passar. Entretanto, esculpia algumas partes para as flechas com a madeira que sobrou. Ter um arco sem flechas parecia bastante inútil, mas como elas não precisavam ser feitas de nada especial, Eiro apenas as fez com qualquer coisa e criou um monte de gravetos retos, que poderiam ser usados como a base para as flechas mais tarde. Ainda levaria uns dias antes que realmente começassem a praticar, levaria um tempo para o cajado de Clementine ficar pronto.
Assim que retirou o arco do banho de tratamento, ele recolocou a corda dele e começou a esculpir a parte central no formato que queria, para que encaixasse adequadamente na mão de Sammy. Ele deu uma olhada nas mãos de Sammy noite passada antes de ir dormir, para pensar em qual seria o melhor formato, e agora estava trabalhando nisso no arco. Assim que terminou, cerca de duas horas depois, Eiro o colocou na mesa e se livrou da solução de tratamento que foi usada, já que não precisava mais dela.
Assim que concluiu isso, o Diabrete pensou apenas em se sentar ali e ler por um tempo, até que fosse a hora de ir para a floresta.
Já na floresta, o que o Demônio fez foi sua prática com a terra e sua Magia Espiritual. Às vezes ambos ao mesmo tempo, desde que Nelli conseguia cuidar do refinamento sozinha, então nutriram a árvore de Eiro com a água refinada, até que sua mana estivesse quase esgotada.
Então retornaram para casa, durante o caminho pegaram algumas ervas e animais pequenos, que ficaram presos nas armadilhas colocadas por Eiro, e então jantaram com as crianças antes de irem dormir.
O exato mesmo ciclo de dormir, ler, praticar, caçar e comer continuou pelos próximos quatro dias, o que pareceu extremamente monótono para Eiro a um nível que ele nem percebeu. O Diabrete estava acostumado a fazer a mesma coisa todo dia, mas mesmo para ele isso era um pouco estranho, pois assim que chegava em casa tudo o que experienciava era um silêncio estranho, em vez de sorrisos acolhedores.
E no quarto dia após completar o arco, Eiro colocou suas mãos no banho criado com água mágica e retirou o cajado que fez para Clementine. A textura da madeira estava bastante diferente do que era há uma semana, pois uma camada extremamente fina, semelhante a vidro ou gemas, havia crescido pela superfície do cajado, e parecia que ele poderia escorregar das suas mãos a qualquer momento.
Então, depois de limpar o cajado com um pedaço de pano para secá-lo, Eiro o colocou na mesa ao lado dos outros itens que havia feito e saiu da cabana, indo até a porta da frente da casa, onde os outros ainda estavam sentados antes de começarem o dia.
— Terminei. — Eiro disse com a voz clara. — Venham e peguem suas coisas. Começaremos o nosso treinamento hoje. — O Demônio disse a eles, e as crianças olharam para Eiro surpresas, embora Arc tivesse pulado rapidamente de seu assento e tivesse sido o primeiro a se vestir para sair, muito animado.
Logo, os outros também se vestiram apropriadamente para sair e seguiram atrás do Diabrete e do ‘irmão’ mais velho entre eles.
Assim que Eiro abriu a porta da cabana, os outros entraram lentamente, e o Demônio segurou as duas espadas de treinamento que fez para Arc, entregando-as para ele.
— Aqui está. Tente não tocar muito na parte da lâmina, se puder evitar. — Ele disse, e então pegou o arco que fez para Sammy, assim como várias flechas que terminou ao longo dos últimos dias, e as entregou para a garota.
— Esses são seus, se encontrou algum problema com o equilíbrio, me conte e eu arrumarei. — Eiro disse para ela, antes que Sammy olhasse alegremente para o arco e as flechas em suas mãos, acenando a cabeça animada.
— Quanto a isso… — Eiro comentou, enquanto pegava o cajado recém-concluído e o entregava para Clementine. — Isso agora é seu. Peça para que Nelli explique para você como a Magia de Cura funciona antes de tentar alguma coisa, certo? — O Diabrete sugeriu, antes de passar para o último item, o escudo grande que estava apoiado contra a parede, que Eiro pegou rapidamente e entregou para Rudy.
—E agora, seu escudo. Se não consegue lidar com a forma com que o escudo funciona, diga-me e eu o reconstruo de forma diferente. — Ele disse, mas Rudy balançou a cabeça lentamente em resposta.
— Não se preocupe, está tudo em ordem. — O garoto disse com um sorriso caloroso que fez Eiro pensar que Rudy talvez estivesse começando a reunir seus pensamentos sobre o que aconteceu há alguns dias, antes que visse Arc balançando sua espada de duas mãos ao redor dos outros.
— Isso é tão legal! — Ele exclamou, animado. — Estou fazendo isso certo? Eu sou um prodígio? — Arc perguntou com uma risada alta, e então, Sammy percebeu algo.
— Na verdade… Como nós iremos aprender a usá-las? Quem irá nos ensinar sobre isso? — Ela questionou com um pouco de confusão em sua voz, antes de escutar Eiro estalar os dedos com uma leve carranca.
— Quem você acha? Eu, obviamente. — O Demônio comentou enquanto dava um passo em direção ao canto da sala, onde um conjunto de outras coisas estava. Um escudo com dimensões parecidas ao de Rudy, um conjunto de uma espada de duas mãos e outra de uma mão, assim como um arco relativamente simples. Eles eram todas versões simples dos itens que fez para as crianças, com exceção do cajado de Clementine, porque já tinha um desses em sua mão direita. Essas coisas não eram muito especiais de qualquer forma, e a maioria era feita apenas de carvalho comum, pois deveriam servir apenas para propósitos de demonstração.
— É…? Mas, você tem todas essas habilidades…? — Clementine perguntou, confusa, antes que Eiro negasse com a cabeça em resposta.
— Claro que não, mas em troca, eu tenho minha cabeça e minhas memórias. As vezes que vi outros praticarem, lutarem ou se defenderem ainda estão todas em minha mente. Então, combinando esse conhecimento com as coisas que li sobre suas armas, eu devo ser capaz de ajudá-los consideravelmente. — Eiro comentou, sorrindo levemente para eles. — Mas, não se preocupe. Jura quem as inventou, e ele certamente sabia quais eram os seus talentos, então duvido que tenham problemas. — O Demônio apontou, e então pegou os diferentes antes de levá-los para fora.
— Certo… Clementine, por favor, peça para Nelli te ensinar um pouco mais sobre coisas específicas para conjurar magias, enquanto eu ensino vocês três. — Eiro explicou, e Rudy, Arc e Sammy olharam um para o outro com expressões incertas, enquanto Leon e Avalin apenas brincavam ao redor na grama. — Não se preocupem… Eu devo ser capaz de fazer isso. — O Diabrete disse para elas, e então pegou sua própria espada de duas mãos com o mesmo formato da espada, da Katana, que fez para Arc.
Então, mergulhou em suas memórias, tentando recordar se alguma vez, em algum momento sequer, encontrou alguém que tinha uma arma como essa.
Na cidade próxima, não havia ninguém. Em suas viagens, não havia ninguém. Nem mesmo entre todos aqueles que Eiro recordava de encontrar na capital arruinada durante a invasão do <O Sol> e a horda de monstros, não havia ninguém.
E então, Eiro encontrou alguém. Foi enquanto estava esperando na ilha flutuante, na manhã em que escalaram a ponte. Eiro estava em seu estado de mente adequado para realmente tentar olhar ao redor, diferente da noite anterior em que estava tentando escapar do medo que o ser no rio infligia nele.
Embora houvesse salas de treinamento dentro da própria pousada, também havia locais para treinar do lado de fora, e havia uma em um lugar escondido e em uma posição aparentemente impopular, onde um homem com uma katana como essa, só que em uma versão apropriada de metal, treinava alguns movimentos. Eiro não estava prestando muita atenção para isso, e foi apenas com o canto dos seus olhos, mas agora, depois de mergulhar em sua memória, ele conseguiu ver como se o homem estivesse parado logo à sua frente.
Em vez de apenas observá-lo, Eiro deu alguns passos para frente e entrou no corpo do homem, assumindo sua posição. Os movimentos que se lembrava de ter visto agora foram transferidos para o seu próprio corpo, e o Demônio segurou a espada de madeira em suas mãos o mais forte que conseguia e a segurou acima da cabeça, balançando-a para baixo o mais rápido que conseguia, apenas para pará-la logo antes de tocar no solo, e então balançá-la para cima na diagonal até que esteve na altura do quadril de Eiro, antes que o Diabrete balançasse a lâmina horizontalmente em um movimento reto.
Esses movimentos não eram realmente muito impressionantes, mas, apesar disso, estranhamente, fizeram o corpo de Eiro ficar tenso em muitos lugares, uma sensação de que ele realmente não gostava. Quando abriu os olhos, Arc olhou animado para ele.
— Isso é realmente muito legal, pode me mostrar de novo? — Ele pediu, e Eiro apenas sorriu levemente.
— Na verdade, isso foi apenas para testar quão bem consigo usar esse tipo de coisa. A prática real começará bastante monotonamente, de acordo com os livros que li. Você precisa construir seus músculos para ser capaz de segurar sua arma, antes de realmente fazer algo. — Eiro explicou, e Arc olhou para ele com um sorriso irônico.
— E o que isso deveria significar…? — O garoto questionou, antes que o Demônio sorrisse para ele.
— Que você descobrirá o significado de praticar.
…