A Virtude do Demônio

Volume 2 - Capítulo 96

A Virtude do Demônio

Enquanto Leon assentia com a cabeça letargicamente e estendia as mãos para Eiro, Rudy ficou um pouco confuso com o que estava acontecendo, e Nelli rapidamente tentou o conceituar.

— Você poderia ter explicado um pouco mais cedo na conversa? — Ela perguntou, e Eiro levantou as sobrancelhas enquanto levantava Leon e o segurava em seus braços por um tempo.

— Ah, me desculpe… eu provavelmente devia ter mencionado isso anteriormente, mas com meus novos sentidos, consigo notar coisas que normalmente não são possíveis. Por exemplo, há uma parte no cheiro de todos que revela a raça à qual pertencem. E essa parte de vocês, Rudy e Leon, é diferente das dos outros, então acho que vocês podem não ser humanos. — Eiro explicou, em um tom um tanto monótono, e Rudy levantou as sobrancelhas em confusão, enquanto os outros começavam a se aproximar.

— Não humano? Então, o que somos? — Rudy perguntou, confuso, e Eiro deu de ombros em resposta.

— Não tenho certeza ainda. Acho que Leon pode ser um Homem-Besta, então devemos procurar por qualquer sinal de que isso está se desenvolvendo, mas para você, é um pouco diferente. — O Demônio explicou, e Rudy apenas franziu profundamente em resposta.

— Eu posso não ser um humano…? — O garoto murmurou baixinho. Ele sempre acreditou que era igual aos outros aqui, que eram basicamente como irmãos para ele, mas, de repente, ele não era?

— Então, por que Jura não mencionou nada? — O garoto perguntou subitamente, tentando encontrar alguma falha no que Eiro estava falando, e Nelli respondeu rapidamente.

— Ele pode ter notado, mas apenas não pensou muito sobre isso. Ele não tratava Eiro diferente de como trataria qualquer outra pessoa. — Ela apontou, então Rudy lentamente olhou para baixo, embora logo tenha sentido uma pancada dolorosa em suas costas.

— Não se preocupe, rapaz. Mesmo que seja um monstro, não nos importamos. — Arc o assegurou, então Rudy lentamente se virou para ele e assentiu em resposta.

— Certo, entendi. Então… cheire-me, eu acho? — Rudy respondeu, e Eiro apenas assentiu a cabeça, enquanto tentava ter uma ideia mais exata do cheiro de Leon.

— Hum… é realmente muito parecido com o cheiro dos Homens-Besta da cidade, então pode ser o caso… Sammy, se você encontrar algo nele em algum momento, me conte. — O Demônio sugeriu enquanto colocava o garoto no chão, e então olhava para Rudy, que lentamente deu um passo em frente para se aproximar de Eiro, que se concentrou no cheiro dele, se aprofundando, separando-o em partes.

Não havia muito o que ele pudesse dizer, mas, logo, notou algo que o fez franzir um pouco.

— Hm? Isso é… — Eiro murmurou, e Rudy olhou para ele nervoso.

— Há algum problema? — Ele questionou, e o Diabrete apenas balançou a cabeça em resposta.

— Não há problemas, só é um pouco estranho. — Eiro começou. — Eu sinto um pouco de cheiro ‘Humano’ em você, mas é algo muito cru e não muito presente. — O Demônio explicou, então Rudy levantou as sobrancelhas.

— Então, eu sou parcialmente humano? Como um Meio-Humano? — Rudy perguntou, e Eiro imediatamente negou com a cabeça. Como ele se concentrou no cheiro das pessoas da cidade através de suas memórias, sabia como híbridos ou mestiços cheiravam.

— Se você fosse parte humano e parte de outra raça, eu conseguiria sentir o cheiro de ambas em você, não apenas um único cheiro com um pouco da outra. — Eiro explicou. — É como se você fosse humano, mas, ao mesmo tempo, não fosse? — Ele sugeriu, confuso, e Nelli rapidamente fez uma sugestão do que poderia ser.

— Então Rudy não é apenas parte de uma Tribo Sub-Humana?

Surpreso, Eiro voltou sua atenção para o Espírito e franziu o cenho ligeiramente. Na verdade, esse era um termo com o qual ainda não estava familiarizado. E, sentindo isso, Nelli explicou.

— Tribos Sub-Raciais são o que seus nomes implicam. São tribos de uma certa raça que escolhem viver de formas diferentes das bases das raças ‘normais’, e ao longo das gerações mudam para serem vistos como uma raça própria, mas suas raízes ainda estão na raça da qual descendem. Quase todas as raças têm isso, eu acho. A Raça dos Homens-Bestas é, na verdade, composta apenas por tribos Sub-Raciais ao ponto em que a ‘base’ da raça está praticamente extinta… — Nelli explicou. — Embora sejam tecnicamente muito, muito diferentes da raça a qual descende, isso explicaria esse cheiro. — Ela comentou.

— Uma tribo sub-humana? — Rudy murmurou baixinho, e Nelli rapidamente acenou a cabeça em resposta.

— Ei, não há nada de errado com isso. O ‘Sub’ não significa ‘Inferior’ ou algo assim. Especialmente quando se trata de humanos, suas tribos sub-raciais são, normalmente, muito melhores na maioria das coisas quando se comparadas aos humanos normais. E a maioria das tribos tem uma população pequena, então você é realmente especial!

— Está bem, entendi. — Rudy respondeu, fazendo Eiro sorrir para ele, enquanto o garoto optava por voltar a costurar o rasgo na calça de Arc. Eiro esperava que Rudy estivesse tão curioso quanto ele, mas, de alguma forma, ele parecia… triste?

Com uma carranca levemente preocupada, Eiro olhou para as outras crianças, que pareciam todas preocupadas com Rudy, mas elas pareciam preocupadas por outra razão. Parecia que elas entendiam pelo que Rudy estava passando, então ele estava bastante triste por não conseguir compreender completamente.

— Eu… disse algo errado? — Ele perguntou baixinho, e Sammy olhou para ele com uma leve carranca, puxando-o para o outro lado do cômodo para que Rudy não conseguisse escutá-los.

— Você tem um relacionamento muito diferente com sua raça do que nós só temos, sabia? — Ela explicou, e Eiro levantou as sobrancelhas um pouco confuso.

— Hm? O que você quer dizer? — Ele perguntou, então Sammy apenas suspirou profundamente em resposta.

— A sua raça já mudou literalmente duas vezes, a nossa nunca mudará. Nossa raça é o que nos define… — Sammy explicou, e Eiro não pôde deixar de franzir em resposta.

— Isso é realmente tão importante para você? — Ele perguntou, e ela assentiu imediatamente.

— Quero dizer, é diferente para todo mundo, mas eu diria que é bastante importante… Especialmente se aquilo em que você acredita muda muito. — Sammy explicou, e o Demônio resmungou ligeiramente em resposta.

— É mesmo…?

Durante a última noite, Eiro passou muito tempo tentando entender como, ou de alguma forma, compensar por aparentemente fazer Rudy se sentir mal ontem; ele não conseguiu realmente pensar em nada. Ele poderia apenas se desculpar, mas duvidava que isso ajudasse muito, desde que, tecnicamente, já havia tentado se desculpar na noite passada.

Apesar de não compreender completamente os motivos para Rudy se sentir mal ou chateado, sabia que ele se sentia assim, e Eiro era o culpado por isso. Talvez não devesse ter feito isso e deveria apenas ter ficado quieto.

— Nelli? — Eiro perguntou, enquanto caminhava em direção à floresta para começar o dia ao lado de Lugo, e o Espírito flutuou à sua frente.

— Sim? — Ela respondeu, então o Demônio esfregou a bochecha em resposta.

— Sabe como posso compensar Rudy? — Ele questionou, mas Nelli simplesmente deu de ombros.

— Não muito. Não vejo muito problema no que você fez. Ele não é um humano, e daí? Não há nada de errado com isso, há? — Nelli apontou, e Eiro rapidamente balançou a cabeça.

— Obviamente, não. Eu não iria querer ser um humano, pelo menos, mas Sammy disse que isso é importante para eles, então eu provavelmente fiz algo errado. — Eiro murmurou, e Nelli apenas suspirou profundamente, enquanto balançava a cabeça.

— Não se preocupe com isso. Rudy não tem medo de te dizer o que sente, então ele provavelmente ainda não sabe como se sente. Apenas espere ele descobrir e converse com ele depois disso.

— Acho que sim… — Eiro respondeu e apenas suspirou em frustração. Ele não gostava de ver Rudy triste por algo que ele fez, então queria resolver isso o mais rápido possível, mas confiaria em Nelli e veria como Rudy estaria daqui a alguns dias.

— Então, vamos tentar não pensar sobre isso. O que faremos hoje? — O Espírito perguntou, tentando de alguma forma distraí-lo de seus pensamentos atuais.

— Apenas coisas genéricas. Reunir ervas, caçar e coisas do tipo. — Ele explicou rapidamente, antes que Nelli suspirasse.

— O que, apenas isso? — Ela questionou, e o Demônio simplesmente assentiu a cabeça em resposta.

— Sim, só essas coisas. — Ele disse, e então olhou para a Náiade ao seu lado novamente, vendo sua expressão insatisfeita.

— Certo. — Eiro disse, e olhou ao redor antes de encontrar um lugar relativamente plano em que não havia muita coisa crescendo, e então se sentou ali. — Tentarei usar minha Magia de Terra por um tempo, então. Provavelmente deveria fazer isso há um tempo, de qualquer modo. — Eiro explicou, e Nelli rapidamente acenou.

— Assim é melhor! — Ela exclamou, então Eiro suspirou e olhou para o cervo à sua frente.

— Lugo, deite-se ali por um tempo. — Eiro disse a ele, então Lugo rapidamente fez como pedido e rolou um pouco para fora da área em que Eiro queria tentar trabalhar.

— Magia de Terra… Basicamente, eu deveria ser capaz de manipular essa área diretamente ao redor… Certo?

— Basicamente! Conhece as práticas básicas de Magia de Terra? — Nelli perguntou, e o Demônio assentiu lentamente.

— Sim, é para sentir a terra e descobrir o que está ao seu redor… Isso é um pouco difícil de fazer, porque eu me recordo perfeitamente da cena, até mesmo vejo as notificações das outras pessoas através de seus olhos. — Eiro comentou, então o Espírito apenas assentiu levemente em resposta.

— Está bem, então vamos tentar outra coisa. Você tem um pouco mais de experiência com Magia do que outros com Magia no nível Iniciante teriam, de qualquer forma. Apenas pule isso e vá diretamente para a manipulação básica… — A Náiade sugeriu, e o Diabrete fez exatamente isso.

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