
Volume 2 - Capítulo 94
A Virtude do Demônio
— Okay, então vamos investigar isso e manter em segredo dos outros, por enquanto? — Nelli perguntou, apenas para confirmar e resumir a conversa que tiveram durante as últimas horas, já que haviam se desviado um pouco. Estavam bastante perto de casa novamente, então ela queria ter certeza de que ele realmente entendia o que podia e o que não podia falar com as crianças.
Em resposta, Eiro assentiu.
— Sim, eu diria que sim. Não encontrei nada relacionado a esse tópico na biblioteca da cidade, então talvez tenhamos que esperar até que viajemos daqui um ano… mesmo que, nesse ponto, isso não seja nosso foco principal. — Eiro apontou, e com essas palavras, algo foi acionado em sua cabeça e ele suspirou profundamente. Ótimo, eu esqueci completamente de olhar pela cidade e recordar do cheiro das diferentes pessoas. — Eiro suspirou, e Nelli levantou a sobrancelha, surpresa.
— É mesmo! Eu também esqueci, me desculpe… mas você pode tentar lembrar de como eles cheiravam? — Ela sugeriu, e Eiro pensou sobre isso por um instante, antes de acenar inevitavelmente.
— Bem, essa é uma ideia melhor do que voltar… — O Demônio murmurou, fechando lentamente os olhos antes de tentar acessar a memória de antes em seu estado ‘Perfeito’.
Era assim que Eiro chamava quando mergulhava diretamente nas memórias e as experienciava como se estivesse naquele mesmo momento novamente. Usualmente, ele também conseguia apenas acessar a informação bruta, como você normalmente faria em uma memória, só que muito mais detalhado do que o normal.
E lá estava Eiro, de volta na cidade, esperando que Tom abrisse a Guilda, e em vez de focar no que estava ocorrendo dentro da Guilda, o Diabrete focou nas outras pessoas lentamente começando o dia, especialmente naquelas com quem Eiro já conversou algumas vezes e aqueles específicos cuja raça ele conhecia.
Isso seria muito, muito mais fácil se ele apenas perguntasse para Rudy e Leon sobre as informações raciais em seus status, mas as pessoas aparentemente apenas viam o campo de ‘Classe’ naquele lugar. De algum modo, havia formas de adicionar outro campo de informação como esse, aparentemente, mas os métodos eram bastante complicados e Eiro não conseguia fazer isso sozinho, desde que requeria uma habilidade específica.
De qualquer maneira, por agora, Eiro apenas focou no cheiro das diferentes pessoas e, depois de um tempo, conseguiu uma ‘correspondência’, ou pelo menos próximo a uma. Era o homem que possuía mais gado na cidade, basicamente fornecendo todo o leite, ovos e a maioria da carne que era necessária, para que não tivessem que sair e caçar o tempo todo.
E, pelo que Eiro conseguiu se lembrar, ele não era um daqueles com sangue de monstros, mas ainda era parte de uma raça perseguida em alguns países ao redor do mundo. Ele era um Homem-Besta, um ‘Touro Angus’ para ser exato. Não era uma correspondência perfeita, mas havia parte dela que se sobrepunha ao ‘odor racial’ que Leon emitia.
Pensando que esse era um bom ponto de partida, Eiro se concentrou em tentar sentir os poucos Homens-Bestas da cidade, e logo conseguiu uma pista sobre Leon. Ele deveria ser um Homem-Besta… Mas não demonstrava. A maioria dos Homens-Besta que Eiro viu e encontrou até agora tinha pequenos detalhes em seus corpos, como orelhas diferentes, alguns tinham chifres, línguas bifurcadas ou rabos. Parecia que havia alguns outros casos em que um Homem-besta parecia basicamente igual a uma versão bípede da besta cujo clã ele pertencia, mas esses eram muito raros.
Mas, pelo menos, Eiro conseguiu uma direção! Apenas tinham que começar a olhar e ver se Leon tinha algo de diferente, apenas alguns detalhes menores. Apesar de que, se esse for o caso, então Sammy não deveria ter notado isso? Ela era quem mais ficava com Leon e Avalin, afinal.
De qualquer modo, agora que tinha uma dica sobre o que Leon poderia ser, ele voltou ao começo de sua memória e começou a procurar especificamente por um cheiro como o de Rudy, mas infelizmente não conseguiu encontrar nada. Nenhum deles cheirava como Rudy, em termos de ‘Odor Racial’, e o Demônio deixou o estado de ‘Memória Perfeita’ e olhou para Nelli, que estava o observando bastante curiosa.
— Acho que tenho uma ideia do que Leon pode ser: um Homem-Besta, mas ainda não sei nada sobre Rudy… — Eiro explicou, e Nelli arregalou os olhos em surpresa.
— Leon, um Homem-Besta? Realmente? — Ela questionou, antes de responder com a mão no queixo. — Hmm, verdade, esse tipo de coisa normalmente aparece apenas durante a puberdade para Homens-besta, então pode ser…
— É mesmo? — Eiro perguntou, embora ainda estivesse focado no que poderia ser o caso de Rudy. Ele era um órfão, então realmente não sabia como seus pais se pareciam, ou quem eles eram, então não tinha como perguntar para ele. Mas quem sabe talvez ele tivesse algumas pistas?
Pensando nisso, ele começou a sentir o cheiro de algo, o forte cheiro das soluções de tratamento em que a madeira que ele deixou para trás estava, e quando esticou seu corpo para olhar através da floresta, logo conseguiu ver a casa. O sol já havia se posto novamente, mas felizmente eles chegaram, então o Demônio relaxou um pouco. Eles também não foram perseguidos por ninguém, diferente do que esperou inicialmente, considerando quão facilmente Rumia concordou, mas tudo funcionou a favor dele, então estava bem.
Logo, Lugo começou a escalar a coluna, e Eiro desceu dele e deixou o Cervo ir até sua cama e dormir, então o Demônio foi até a cabana para checar tudo. Ainda havia uma quantidade considerável de tempo até que as primeiras madeiras precisassem ser retiradas, cerca de mais 12 horas, então deveria conseguir ir para cama se tudo estivesse em boas condições.
Assim que olhou para as diferentes banheiras e checou as madeiras, Eiro suspirou em alívio, saiu da cabana e entrou na parte principal da casa, onde escutou as vozes das quatro crianças mais velhas enquanto Leon e Avalin dormiam. Assim que estava para entrar na casa, entretanto, ele escutou algo um tanto surpreendente.
— E por quanto tempo você se sentiu dessa forma? — Rudy perguntou com um pouco de preocupação em sua voz, e em resposta, Sammy respondeu, seu coração batendo tão alto que Eiro conseguia escutá-lo.
— Talvez alguns meses, eu acho? E agora que Jura está morto, não devemos finalmente nos esforçar um pouco mais? — Sammy perguntou aos outros, e com um resmungo baixo, Arc se inclinou para trás em sua cadeira, fazendo-a ranger ligeiramente.
— ‘Nos esforçarmos’ de que forma exatamente? Sei que sempre tivemos um estilo de vida bastante tranquilo aqui, mas não é como se fôssemos preguiçosos o tempo todo. Todos temos nossas tarefas. — Ele comentou, e Sammy respondeu novamente.
— Claro que temos! Mas não é Eiro o único que sai todos os dias? Reunindo plantas, caçando animais… A única vez que não o vi fazer isso foi durante momentos especiais, ou difíceis… Como agora… E, no fim, nós devemos fazer o nosso melhor para praticar com as armas que Eiro está fazendo para nós, certo? — Ela apontou, e Arc suspirou profundamente.
— Obviamente, nenhum de nós está planejando relaxar. — Ele explicou, e Clementine imediatamente se pronunciou.
— Exatamente! Nós todos queremos ajudar o máximo possível, mas… Podemos realmente ajudar tanto assim o Eiro? — Ela perguntou baixinho, e Sammy respondeu lentamente.
— Esse é exatamente o meu argumento… Daqui a um ano, para o meu bem e o de Leon, nós sairemos de casa, e não quero que a tarefa de nos proteger recaia apenas sobre Eiro… Mas, assim como você disse, como podemos ajudá-lo como estamos agora? — Sammy comentou, e todos ficaram em silêncio, antes que o Demônio abrisse a porta, fazendo os quatro olharem para ele, surpresos e assustados.
— Eiro, você…
— Sammy, fique quieta um pouquinho, certo? Apenas me deixe falar primeiro. — Eiro disse com um suspiro profundo, e então rapidamente se aproximou das costas do mais próximo dos quatro. — Ainda não sei muito sobre combate na prática, desde que eu realmente não tive muitas chances de lutar contra pessoas, mas sei muito sobre a teoria por trás disso. E especialmente a teoria por trás do crescimento de pessoas quando se trata de combate. — Ela apontou e colocou as mãos nos ombros de Rudy.
— Aqui temos Rudy. Um garoto de natureza gentil, gosta de cozinhar e costurar, e até tricota como um campeão. Apesar do seu físico, ele parece bastante tímido, não é? — Eiro começou, e o garoto olhou para ele com um sorriso irônico.
— Há um ‘mas’ depois disso? — Ele perguntou, então Eiro riu um pouco.
— Claro que há… Mas, mesmo que esse possa ser o caso, e ainda que eu não goste particularmente de pensar sobre isso, Rudy é perfeito quando se trata de defesa. Perdendo para ninguém, de verdade. Ele é uma pessoa protetora, e se ele conseguir se tornar um pouco mais rápido, ninguém aqui terá que lutar, pois nenhum inimigo conseguirá passar por ele. E fora de combate, também não precisamos nos preocupar em congelar ou morrer de fome. — Eiro explicou, e então prosseguiu em direção a Clementine.
— Então, aqui está uma garota que consegue curar quase todo tipo de ferimento que existe, com um talento inacreditável para Magia de Cura. Em cima disso, o corpo dela é incrivelmente receptivo à cura. Eu não gosto particularmente dos métodos de cura que podem ser usados através desse combo, mas, mesmo assim, com ela, não precisamos nos preocupar em morrer por conta de ferimentos. — Ele comentou, e então passou para Arc.
— E Arc aqui é um estrategista incrível. Pensar sobre isso me deixa desconfortável, mas, como ele não sente dor e sua mente sempre permanece fria, sua capacidade de reação em combate será muitas vezes melhor do que as pessoas normalmente possuem.
Então, Eiro ficou atrás de Sammy e colocou as mãos em cima da cabeça dela.
— E então você, Sammy. Você é puramente gentil, e com apenas a sua voz, assim que masterizar sua habilidade, conseguirá influenciar completamente o combate com outras pessoas. Talvez possamos simplesmente dizer a eles para darem meia-volta e irem embora por ali… Eu não quero deixar um fardo desse sobre você, mas, mesmo assim… — O Diabrete suspirou e então lentamente se virou para olhar para os dois adormecidos, Leon e Avalin.
— Por sorte, esses dois estão a anos de se juntarem a uma luta, mas Leon pode ser capaz de influenciar completamente a maré de uma batalha contra monstros, e quanto a Avalin… definitivamente, não precisamos nos preocupar com Mortos-Vivos e Demônios. — Eiro explicou para elas, e então se sentou na mesa com os outros, apenas colocando o fio que havia recebido na cidade sobre a mesa e continuou olhando para os outros.
— Não se preocupem com o valor que têm para mim. Todos vocês são inestimáveis. Mesmo que apenas se sentem e nunca movam um dedo, isso não mudará. Bem, eu posso dar uma pancada na cabeça de vocês, mas entenderam o que disse. — O Demônio disse, e então colocou sua mão no Fio de Aranha da Floresta. — Amanhã de manhã, começarei tudo. Ao fim da semana, devem estar prontas, e começaremos a praticar… Certo? — Eiro sugeriu, e com sorrisos brilhantes, os quatro simplesmente concordaram.
…