
Volume 2 - Capítulo 90
A Virtude do Demônio
Apenas no caso de outros estranhos estarem por perto, Eiro colocou sua nova máscara antes de descer das costas de Lugo e entrar na cidade, em vez de continuar montado, enquanto colocava seu capuz. Felizmente, o capuz em si também bloqueava um pouco dos sons, embora isso fosse basicamente mínimo considerando quão alto tudo parecia para Eiro, apesar do fato de ainda ser cedo e o sol não ter nem começado a aparecer.
Ele sabia que Tom normalmente abria sua loja perto do alvorecer, então precisaria esperar mais um pouco. Enquanto o Demônio esperava na frente da Guilda, ele apenas olhou ao redor, tentando se acostumar com tudo, ficando cada vez mais alto, pois mais pessoas acordavam, enquanto também queria ter certeza de que ninguém do trio se aproximasse dele.
— Hmm… Isso não é um pouco chato? Não podemos dar uma volta ou algo assim? — Nelli perguntou enquanto flutuava ao lado de Eiro, que olhou confuso para ela.
— Dar uma volta? Em uma vila com talvez 400 pessoas? Você sabe que as únicas coisas notáveis aqui são as estátuas das quatro damas, que você literalmente encontrou mais do que qualquer um vivendo nessa cidade? — Eiro comentou, e Nelli rapidamente estalou a língua.
— Eiii, me deixe! Não posso estar entediada? — Ela questionou, e Eiro virou sua cabeça e sorriu para ela sob sua máscara.
— Se não quer ficar entediada, posso pegar um dos meus livros e…
— Deixa para lá… — Ela respondeu imediatamente e continuou flutuando com os olhos fechados, como se estivesse deitando em uma cama invisível ao lado de Eiro. Ele escutou alguns passos vindos da Guilda, o que significava que Tom parecia pronto para abri-la.
O demônio ficou bem em frente à porta e subconscientemente se concentrou nela, ouvindo o som do metal arranhando contra metal, antes que um clique pudesse ser ouvido, e a porta fosse aberta lentamente.
— Hm? — Tom perguntou, olhando para a figura na frente dele e levantou as sobrancelhas surpreso. — Oh, Eiro! Nova capa e máscara, hein? — O mestre de meia-idade da guilda perguntou, e Eiro assentiu lentamente com a cabeça.
— Uhum… — Ele murmurou, e então entrou na Guilda, antes que Tom fechasse a porta novamente com um leve suspiro.
— Tudo bem? Você normalmente não vem nessa época do mês. Algo aconteceu? — Tom perguntou, e Eiro assentiu.
— Sim, na verdade… Jura faleceu semana passada. — Eiro explicou, e Tom se virou para ele com choque no rosto, quase derrubando a bengala que usava para apoiar suas pernas tortas.
— O que…? Jura está morto? — Tom questionou, e lentamente contornou o balcão para se sentar em sua cadeira, enquanto Eiro retirava sua máscara.
— Ele está, mas ele foi com um sorriso, pelo menos. — Eiro apontou, esperando que isso fosse suficiente para melhorar um pouco o clima novamente. — Ele deixou algumas anotações para mim e para as crianças, e em uma delas é dito que você tem um pouco de Seda da Aranha da Floresta que eu deveria usar para uma coisa. — O Demônio disse, esperando ir direto ao ponto, e Tom acenou com a cabeça.
— Isso… isso mesmo, eu tenho… então, foi por isso que Jura me pediu para reunir um pouco mais durante a última vez que ele esteve aqui? Eu não estava ciente de que essa seria a última vez que o veria… — Tom murmurou, lentamente se levantando para pegar a seda que Eiro pediu, voltando em alguns instantes para colocar o embrulho no balcão.
— Obrigado. Quanto te devo? — Eiro perguntou enquanto movia a mão sob sua capa para tentar pegar a bolsa que tinha ali, mas Tom rapidamente o impediu.
— É por minha conta, não se preocupe. — Tom disse. — Jura era um grande homem. Posso te dar um pouco de seda de graça, eu diria. — O homem de meia-idade disse baixinho, antes que Eiro sorrisse levemente e segurasse o embrulho de seda.
— Obrigado. Realmente aprecio isso. — Ele disse, e por um tempo, parecia que Tom estava tentando pensar no que falar, antes que recordasse de mais uma coisa que Eiro deveria saber.
— Ah, certo… aqueles viajantes que fizeram o pedido que eu te dei durante a última vez foram embora, dizendo que tinham que ter feito aquilo por conta própria em primeiro lugar. Elas pareciam bastante fortes, então eu entendo… mas, bem, me desculpe se já trabalhou nisso. Posso te dar alguma compensação, mas não conseguirei aumentar o seu rank.
— Está bem, eu sou a razão para eles irem embora mais cedo. Eu tive um pequeno “desentendimento” com eles, pode-se dizer. — Eiro explicou, e Tom assentiu.
Em qualquer outro momento, ele teria ficado surpreso e teria perguntado o que aconteceu, mas parecia que a coisa com Jura o havia afetado com mais força do que Eiro esperava. Ele viveu perto daqui por mais tempo do que Tom viveu, afinal, então Tom acabou o conhecendo muito bem, assim como a maioria da cidade.
Foi apenas nesses últimos anos que ele se tornou mais fechado e não visitou frequentemente a cidade. Mesmo assim, essa mensagem foi uma notícia ruim para todos.
— Eiro, se você ou uma das crianças precisar de ajuda, sabia que pode confiar em praticamente qualquer um dessa vila, certo? — Tom comentou, e o Demônio assentiu lentamente com a cabeça.
— Eu sei. Obrigado. — Ele disse, e então se virou. — Isso foi tudo por enquanto. Estarei de volta em algumas semanas, então até mais. — Eiro disse, vestindo novamente a máscara e saindo, enquanto Tom apenas acenava para se despedir.
— Então, há mais alguma coisa que deseja fazer? — Nelli perguntou enquanto olhava para o Diabrete, que simplesmente balançou a cabeça.
— No mínimo, não tenho planos. — Eiro explicou, e então olhou ao redor para ver se conseguia encontrar Lugo, que atualmente estava deitado em um canto da praça central. Então, o Demônio rapidamente foi até ele para partirem, embora enquanto fazia isso, escutou algo bastante surpreendente e incômodo.
Vários passos pesados ecoaram em suas orelhas, assim como o som de metal batendo contra metal, produzindo um leve rangido que Eiro achou extremamente desconfortável. O cheiro de sangue se tornou mais forte quanto mais próximo o som se tornava, mas o sangue tinha um cheiro lamacento e sujo, então era mais provável que pertencesse a monstros, não a pessoas.
Eiro se virou em direção à fonte do som e, à distância, a alguns minutos de caminhada do portão da cidade, do que ele tinha uma visão perfeita no momento, um grupo de homens blindados se aproximava da vila.
As armaduras que eles vestiam eram iguais, então provavelmente eram soldados em vez de bandidos, e a milícia da vila parou no portão olhando para eles de forma que sugeria que esses soldados tinham que ser respeitados.
Parecia que havia pessoas sem armaduras também, mas Eiro não conseguiu realmente vê-las. Provavelmente estavam escondidas atrás da muralha de cavaleiros. Com um assobio rápido, Eiro fez Lugo segui-lo. Ele não tinha certeza do porquê esses homens estavam aqui, mas não gostou nada disso.
— Hm? O que está acontecendo? — Nelli perguntou surpresa, enquanto Eiro corria para um beco em que Lugo conseguia passar, e o Demônio apenas franziu ligeiramente.
— Nós precisamos nos esconder um pouco… quero ver o que está acontecendo. — Eiro disse, e rapidamente chegou ao outro lado do beco, onde conseguia ver o lugar que procurava, o estábulo.
Ele correu até lá e olhou para o cavalariço, que atualmente limpava os cascos de um dos cavalos à sua frente.
— Jim, posso deixar Lugo aqui por um tempo? Não vai demorar muito, mas não quero que ele fique correndo por aí… — Eiro explicou, e o cavalariço olhou para a figura na sua frente e assentiu lentamente.
— Oh? Claro que pode. Há um lugar bem ali no fundo, se quiser… — Jim apontou enquanto olhava para os estábulos abertos, e Eiro assentiu enquanto olhava para Lugo.
— Entre aí. Obrigado, Jim, te devo uma. Voltarei logo. — O Demônio disse, e sem demorar mais, correu de volta para o beco de onde veio. Ele tinha um sentimento muito ruim sobre isso tudo.
E enquanto fazia isso, Eiro empurrou a mão para o lado e pressionou seu indicador e polegar em direção ao outro, como se estivesse pegando algo pequeno, antes que uma pequena conta preta aparecesse ali. Imediatamente, Eiro colocou a Pedra Mágica em sua camisa, colocando-a bem sobre a pequena indentação que estava formando atualmente no fim de sua cauda para empurrar a Pedra Mágica contra o centro do seu peito.
Embora o fino apêndice não fosse fisicamente forte, era um incrível condutor de mana, então foi fácil colocar mana na Pedra Mágica das Sombras e então movê-la até o coração de Eiro, para espalhar a Mana das Sombras por todo o seu corpo.
[Seu corpo está saturado em sombras. Você se tornou mais rápido, difícil de ser notado e quase totalmente silencioso.]
Essa foi a primeira vez que Eiro fez isso desde que ganhou sua nova carta, e a sensação era estranhamente… libertadora. Como se seu corpo tivesse ficado mais leve. E, tecnicamente, era isso, mas Eiro, de alguma forma, sentiu alegria pura por ser praticamente incapaz de ser notado agora.
Eiro olhou ao redor e encontrou algumas saliências na lateral da casa em que estava se escondendo. Ele colocou os dedos entre elas para escalar. Relativamente rápido, Eiro chegou ao topo da parede e colocou seu corpo no telhado plano, que tinha sombras o cobrindo por conta da construção um tanto alta ao lado dessa, bloqueando o sol.
Dali, ele tinha uma visão muito boa da praça central, a qual esperava ser a destinação dos soldados. Para a sorte de Eiro, suas expectativas estavam corretas, pois os soldados logo entraram no espaço aberto e imediatamente tiveram um grupo grande, pelo menos para essa vila, de espectadores os cercando.
Logo, o chefe da vila se aproximou daquele que parecia ser o líder dos soldados, um homem alto, de olhos e cabelos castanhos, com uma armadura pintada em ouro e prata. Ele tinha uma espada em sua cintura e um escudo em suas costas, mas, julgando pelo estado de ambos e o cheiro inexistente de sangue nele, ele era praticamente o único entre os soldados que não havia lutado contra algo.
Eiro notou que o chefe da vila queria se introduzir agora, pois ele respirou mais fundo do que o seu ritmo de respiração normal, mas, antes que conseguisse, foi interrompido pelo homem de armadura brilhante.
— Meu nome é Rumia Legios Argenson, Barão do nosso Rei Sagrado. Recebemos a tarefa, daqui em diante, de supervisionar essa… cidade, pois precisamos da ajuda das Quatro Damas. Nós aceitaremos alegremente a sua assistência com nossa causa, e esperamos que nos aceitem sem problemas. — O homem explicou, e de alguma forma, Eiro sentiu mais do que só incomodado com a escolha de palavras que o homem usou.
‘Vale a pena tentar matá-los?’
Parecia muito problemático ter que lidar com eles correndo por aqui… ele estava confiante de que eles não conseguiriam encontrar a sua casa, então não estava tão preocupado com essa parte, mas sim com a parte sobre a ‘Assistência das Quatro Damas’. Isso significava que eles teriam que ficar ali por mais um ano para que conseguissem encontrar todas elas… ou seja, Eiro precisava chamar a atenção deles pelo menos quatro vezes, pois era o único que liderava as Damas para a cidade agora.
Então, Rumia disse algo que não agradou nem um pouco Eiro.
— Portanto, nós assumiremos honrosamente o papel de guiar as Damas, e agradecemos a ajuda em encontrar nossas tarefas com antecedência.
…