A Virtude do Demônio

Volume 2 - Capítulo 55

A Virtude do Demônio

Ao redor de Eiro, não havia nada além de escuridão. Ele não sabia exatamente o que estava acontecendo, mas sabia que não gostava nem um pouco. Era como se houvesse algo diretamente na frente dele, se movendo lentamente em sua direção até que estivesse a apenas alguns metros, depois um único metro, depois apenas alguns centímetros e então a apenas um dedo de distância de seu rosto.

E parou ali, nunca o tocando, mas o jovem Diabrete definitivamente sabia que havia algo ali, só estava escuro demais para ele conseguir ver.

Não importava o quanto o Diabrete tentasse estender a mão, ele não conseguia segurar o que quer que estivesse bem na sua frente, além disso, um som de madeira batendo uma contra a outra podia ser ouvido nas profundezas da escuridão, e Eiro saiu disparado desse sonho estranho, antes de encontrar a fonte do barulho.

Era a caixa de madeira que o velho Jura tinha com ele antes, pois ela estava batendo contra a parede interna da carruagem enquanto ela balançava para frente e para trás. E quando o Diabrete olhou ao redor, ele logo viu as crianças dormindo silenciosamente aqui também. Todas as crianças, todas as seis. Sem hesitar, o Diabrete se levantou e tentou se acostumar com esse tremor que era muito pior aqui do que quando estava sentado na frente da carruagem.

E bem quando o Diabrete estava tentando segurar em algo, ele caiu, como se tivesse acabado de perder o objeto que estava vendo bem ao lado dele. Como se houvesse apenas um único pedaço da caixa faltando bem onde o Diabrete queria segurar.

— Ah… — Eiro murmurou baixinho enquanto a carruagem parava em resposta ao som alto da pancada que ele causou agora, enquanto conseguia ver o que realmente aconteceu. Não era um pedaço na lateral da caixa que ele estava tentando segurar, mas sim um pedaço na ponta do seu braço.

Não parecia real nem um pouco, porque ele ainda conseguia sentir uma dor pungente e ardente nas pontas dos dedos que simplesmente não estavam mais lá. Não apenas o dedo que havia sido arrancado antes, mas sua mão inteira tinha sumido completamente.

Antes que ele pudesse reagir de alguma forma diferente, a porta à sua frente se abriu e o velho Jura pôde ser visto lá.

— Levante-se já, seu vagabundo. — Jura disse com um leve resmungo, e o Diabrete olhou para ele enquanto tentava procurar sua Adaga.

— Ah, nem tente. Estou de mau humor, você não vai conseguir nem me dar um arranhão do jeito que está agora. — O velho apontou irritado enquanto entrava na carruagem e agarrava o Diabrete pelos ombros antes de puxá-lo para fora pela porta antes que as crianças acordassem.

Confuso, o Diabrete apenas encarou o velho enquanto tentava entender a situação corretamente.

— O que… O que você fez com a minha mão…? — Eiro perguntou, mas Jura apenas suspirou e lentamente se aproximou da frente da carruagem com as mãos atrás das costas e subiu nela com um único pulo, antes de bater no banco ao lado dele, sinalizando para que Eiro se sentasse ali.

O jovem monstro seguiu as instruções e tentou subir no topo, o que se mostrou difícil com apenas uma mão. Quando Eiro finalmente se sentou, Jura fez os cavalos começarem a se mover novamente enquanto pegava uma pequena bolsa ao lado dele.

Eiro agarrou-a com a mão restante e abriu com a ajuda dos dentes, antes de olhar através dela e ver alguns pedaços marrom-claros dentro, embora ele não entendesse completamente o que tudo aquilo era.

— O que você está olhando? Você perguntou o que eu fiz com ele, então eu mostrei para você. — Jura disse com um leve suspiro, e o Diabrete imediatamente virou a cabeça em direção a ele.

— O que você quer dizer?

— Esses são seus ossos. Ossos de demônio são bem úteis, então pareceu errado enterrá-los com sua carne. E embora eu não saiba como você matou sua mão daquele jeito, sugiro que não faça a mesma coisa de novo

Lentamente, o Diabrete tirou um dos pedaços da bolsa e olhou mais de perto.

— Eu… Matei minha mão? — Ele perguntou, e com outro resmungo, Jura assentiu.

— Sim, você fez. Cheirava muito a Energia Sagrada, e não importa quão alta seja sua resistência, você ainda é um Demônio. Isso não deveria acontecer.

Enquanto rangia os dentes, Eiro apenas olhou para o velho ao seu lado.

— Você poderia me explicar o que está acontecendo? O que aconteceu depois que eu matei aquele homem? — Eiro perguntou, e Jura rapidamente explicou.

— Você o matou, eu matei o outro e então machuquei minhas costas enquanto puxava seus corpos para longe. Então eu deixei as crianças saírem da carruagem e nós conversamos um pouco enquanto eu tratava sua mão. — Com essa explicação rápida, Jura continuou com sua cabeça virada para frente, e quando o Diabrete queria falar, Jura o fez primeiro.

— Aquelas crianças me contaram algumas coisas sobre você, entende? Como você não hesitou por um momento em salvar aqueles seis, e nem por uma fração de segundo em se livrar daqueles que poderiam tornar isso mais difícil. Por que isso? — Com a cabeça ainda virada para frente, deixando Eiro ver a cicatriz cobrindo seu rosto tão levemente, o velho parecia apenas esperar por uma resposta, embora o próprio demônio não soubesse disso.

— Não sei.

— Por que essas crianças?

— Não sei.

— Você gosta mais de pessoas do que de monstros?

— Eu… não sei… — O Diabrete respondeu várias e várias vezes, antes de Jura apenas suspirar profundamente.

— Tem alguma coisa que você saiba? — Ele perguntou, e o Diabrete assentiu com a cabeça em resposta.

— Sim: eu sei que não importa quem seja que ameace a mim ou a minha vida, eu não hesitarei em acabar com eles. Eu sei que não quero que essas crianças se machuquem, mesmo que eu não saiba o porquê. E eu não sei se gosto mais de pessoas do que de monstros porque eu não gosto de nenhuma delas, mas eu também não odeio nenhuma delas. — Eiro disse claramente, fazendo o velho ao lado dele parecer bastante surpreso.

— Ah? Você pode explicar melhor esse último?

Com um estalo de língua, o Diabrete lentamente se recostou na madeira da parede da carruagem atrás dele.

— Eu sou um Monstro. Nos livros que leio, Monstros são inimigos de todas as pessoas do mundo, então, como eu sou um Monstro, eu deveria estar do lado deles, mas os únicos Monstros que conheci até agora eram apenas bestas, ou apenas seres horríveis, então eu não estou do lado deles, o que significa que eu deveria estar do lado das pessoas. — Eiro explicou lentamente, sem saber por que ele estava contando tudo isso para Jura de repente, antes que o velho lentamente acenasse com a cabeça.

— Entendo… e parece que você não quer ficar do lado das pessoas?

— E enquanto eu conheci algumas pessoas também… se elas não eram horríveis em primeiro plano, elas eram em segundo plano… exceto essas crianças. Eu não acho que elas estejam escondendo nada. Então… não acho que eu também esteja do lado das pessoas… — O Diabrete disse enquanto silenciosamente olhava para frente, e Jura assentiu em resposta.

— Então você está do seu próprio lado. — Ele apontou, mas Eiro apenas virou a cabeça em sua direção, surpreso.

— Meu próprio… lado? — Eiro perguntou, e Jura imediatamente assentiu com a cabeça mais uma vez.

— Claro. Este mundo não é só preto e branco, sabia? Você pode criar sua própria mancha cinza.

Lentamente, Eiro começou a pensar sobre isso, e no final apenas assentiu. Não era como se ele estivesse planejando fazer outra coisa além disso, mas foi legal ouvir alguém dizer isso em voz alta.

E então, o Diabrete se lembrou de algo que Jura disse antes, e por algum motivo sentiu seu coração bater mais rápido.

— O que é um aprendiz? — O Diabrete perguntou, antes que o velho levantasse as sobrancelhas surpreso.

— Oh, eu esperava que alguém tão prolixo quanto você soubesse…

um Aprendiz é alguém que aprende o ofício de seu professor. Um Aprendiz de Ferreiro aprenderá a forjar, um Aprendiz de Caçador aprenderá a Caçar, e um Aprendiz de Cozinheiro aprenderá a cozinhar.

Lentamente, Eiro virou a cabeça em direção ao velho para olhá-lo de cima a baixo e certificar-se de que ele não estava prestes a cometer outro grande erro. Seus instintos estavam lhe dizendo que este era apenas um velho despreocupado e inofensivo, mas o Diabrete estava mais do que ciente de que este definitivamente não era o caso nem um pouco. Isto provavelmente era um erro, mas o Diabrete tinha que correr esse risco. Ele pode ter conseguido matar dois daqueles Lordes, e enganar alguns dos outros, mas no final, tudo o que Eiro podia fazer naquela cidade era fugir.

Sem energia sagrada, ele teria sido levado pela Sombra ao Senhor da Ira e morrido imediatamente. Em comparação, o velho era muito forte. Embora aparentemente mais fraco que o Diabrete, ele carregava facilmente uma caixa pesada que o homem musculoso não conseguia mover e ainda desviava de todos os ataques do Diabrete sem vê-lo.

E então, Eiro apenas perguntou.

— E o que um aprendiz de Protesista aprende? — Ele perguntou em voz baixa, e o homem ao lado dele apenas começou a sorrir.

— Um Aprendiz de Protesista aprende a fazer próteses. Como substituir o que foi perdido como se nunca tivesse ido embora. — O velho riu, e o Diabrete olhou para sua mão, ou para o lugar onde alguém estava antes, e então de volta para Jura.

— Você está procurando um Aprendiz… foi isso que você disse, certo?

Com um sorriso, o velho começou lentamente a fazer a Carruagem parar. Ele não tinha percebido, mas parecia que eles estavam subindo uma colina, e nem mesmo em estradas adequadas, apenas trilhas com vegetação alta.

E bem na frente deles estava uma Grande Árvore, que tinha uma cabana de madeira construída em sua base.

Enquanto Eiro olhava confuso para o lugar, Jura rapidamente desceu da carruagem e foi até a porta da cabana, simplesmente se virando para o diabrete com um sorriso.

— Que tal continuarmos falando sobre isso lá dentro?

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