
Volume 1 - Capítulo 31
A Virtude do Demônio
Em algum momento, embora o Diabrete não soubesse quanto tempo havia se passado, acordou com dores por todo o corpo.
Ele se levantou do chão da carruagem enquanto ela balançava, e a mente do Diabrete estava incrivelmente confusa, ele simplesmente não conseguia se lembrar do que aconteceu ontem.
Mal conseguia lembrar do que aconteceu depois que começou a sentir toda aquela dor, mas não lembrava de nada do que aconteceu depois que a dor parou, não importa o quanto tentasse.
Enquanto o Diabrete se erguia em uma das caixas apoiadas na parede da carruagem, percebeu estarem um pouco menores do que se lembrava. Não muito, mas tinha certeza de que não conseguia olhar por cima delas ontem, e agora conseguia ver sem problemas.
O que mais incomodava o Diabrete era que sua cabeça estava incrivelmente pesada e doía demais, e quando pensava nisso, lembrava de ter sido atingido por aquele monstro verde ontem. Tentando ver se o ferimento estava bem nesse ponto, o Diabrete levantou a mão até o topo da cabeça, embora houvesse outra coisa que o preocupava muito mais agora.
Havia uma pequena coisa dura em sua testa, na verdade, duas! Elas não estavam lá antes, então é claro que o Diabrete estava bastante preocupado com isso e tentou encontrar algo para se examinar, embora tenha notado outra coisa: suas mãos estavam um pouco diferentes.
A pele do Diabrete era a mesma cor vermelha de sempre, mesmo que parecesse um pouco mais suave e definitivamente não tão esfarelada e seca como antes, mas o que preocupava o Diabrete era que ele basicamente não tinha mais garras adequadas agora!
Ele sabia que elas nunca foram tão incríveis quanto as de seus irmãos, mas isso não significava que tinha perdê-las! O Diabrete ainda tinha garras pequenas, mas elas não eram nada demais… Em sua maior parte, suas mãos agora pareciam as de uma pessoa, não de um monstro, ignorando a cor.
— Hmm…? — Uma voz calma murmurou de trás do Diabrete, e quando se virou, reconheceu Clementine, a jovem de cabelos amarelos, e ao lado dela estava Rudy, ainda dormindo. Rapidamente, ela bateu na parede atrás dela algumas vezes.
— Arc! Ele acordou! — Ela gritou, e quase imediatamente, a carruagem pareceu parar antes de duas pessoas saltarem da frente dela e correrem para a porta para abri-la, revelando um brilho intenso de luz solar vindo de um céu vermelho e laranja.
Na entrada da porta estavam Arc e Sammy, esta última segurando o pequeno menino Leon nos braços. O cesto com a criança do Diabrete também estava na carruagem, ele já tinha certeza disso, mas antes que pudesse reagir ou perguntar sobre o que estava acontecendo, Arc já estava sorrindo brilhantemente.
— Sr. Diabrete! — Arc disse alegremente e acenou com a mão para sinalizar ao Diabrete para sair, o que ele fez rapidamente com pernas trêmulas após pegar a cesta ao seu lado.
— Uau, você está diferente agora… — Sammy disse com uma carranca, parecendo ainda bastante hesitante em relação ao Diabrete, mas, no geral, muito mais aberta à ideia de tê-lo por perto.
O Diabrete estava bastante confuso com o que ela queria dizer, embora tenha lembrado imediatamente quando finalmente notou a notificação flutuando no canto de sua visão.
[Parabéns! Você evoluiu e se tornou uma Espécie Única! Agora você é um Diabrete Acadêmico!]
Com uma carranca, o Diabrete olhou para a notificação e depois se virou para Arc e Sammy para perguntar sobre isso.
— O que é… Acadêmico…? — O Diabrete perguntou a eles, antes de Arc erguer as sobrancelhas em agradável surpresa.
— Você não está mais falando de forma esquisita também! — Ele exclamou, antes de pensar sobre a pergunta do Diabrete e responder: — Erm, um Acadêmico é como um… pesquisador ou algo assim. Apenas alguém superinteligente.
Devagar, o Diabrete virou-se para encarar a notificação e depois voltou-se para as crianças na frente dele, enquanto os dois que ainda estavam na carruagem, Clementine e Rudy, saíram para se juntar a eles também.
— Eu… Evoluí, agora eu sou… Diabrete… Acadêmico — O monstro explicou, com sua voz muito mais clara do que antes, como se ele devesse conseguir falar melhor agora. Era bastante difícil se acostumar com essa nova sensação em sua garganta, e tirando isso, o Diabrete não se importava com a maneira como estava agora. Ainda estava confuso sobre tudo o que aconteceu, então Arc, o mais inteligente e maduro das crianças aqui, mais uma vez tomou a iniciativa de falar.
— Então isso é uma evolução, huh…? A maior mudança são esses chifres, certo? — Arc perguntou ao se virar para as outras crianças, e Clementine assentiu com a cabeça.
— Uhum, e mesmo que ele parecesse estar com dor quando estavam crescendo, eu nem sequer pude comê-la… — Ela bufou, antes de Rudy olhar para ela com um sorriso irônico e balançar a cabeça.
— Acho que é melhor assim, você teria provavelmente ganhado chifres também — O garoto respondeu, e o Diabrete olhou para ele enquanto ele falava antes de olhar ao redor para as outras crianças.
Ele se lembrou agora, era o mesmo de ontem.
Essa sensação estranha que ele tinha, mesmo que não pudesse explicar, ele sentiu como se quisesse que essas crianças ficassem bem, não importa o que acontecesse. O Diabrete estava ciente de que estava muito mais inteligente agora, então também podia ver que aparentemente havia razões diferentes para isso, embora só tivesse uma ideia aproximada de apenas uma delas.
Havia muita coisa que o Diabrete ainda não sabia, então ele certamente seria capaz de descobrir essas razões se falasse adequadamente com eles, mas, mais uma vez, primeiro queria saber exatamente o que aconteceu.
— Antes… eu adormeci… O que aconteceu? — O Diabrete perguntou ao garoto à sua frente, o único que estava com ele no momento, e Arc apenas entrelaçou os dedos nas costas e começou a explicar.
— Bem, você estava fazendo aquela coisa ontem, onde parecia querer respirar com tanta força de novo, mas de repente você reagiu de forma estranha e se curvou antes de pular da carruagem. Quando você voltou, estava coberto de sangue, cheirava como um porco e estava ferido… Nós te trouxemos para dentro da carruagem-.
— Eu te trouxe para dentro da carruagem — Rudy interrompeu com um sorriso, e Arc apenas riu e assentiu com a cabeça.
— Sim, Rudy te trouxe para dentro da carruagem. Mesmo que ele não possa ferir ninguém, não falta força, sabe? De qualquer forma, te trouxemos para dentro da carruagem, lavamos sua capa e então… continuamos nosso caminho. Sem você ou o repelente, tivemos que garantir que não fôssemos encontrados por monstros de alguma forma — Arc explicou para o Diabrete, e ele assentiu lentamente com a cabeça antes de olhar para a criança dormindo na cesta ao seu lado.
— Quem… cuidou… dela? — O Diabrete perguntou a todos, e Sammy falou lentamente.
— Eu cuidei… Ela não deu muito trabalho, pelo menos comparada ao Leon… — Ela explicou, antes que o Diabrete assentisse com a cabeça, ainda olhando para baixo para a criança na cesta.
— Obrigado… eu preciso… levar a criança… embora — Ele disse, grato, pois ela se certificou de que nada aconteceria com ela. Não importa o quanto mudasse, ele ainda sentia a urgência de levá-la para longe.
O Diabrete não tinha certeza se era devido ao medo que sentia só de pensar em desobedecer, mas enquanto estava preocupado com essa criança a cada momento de seus pensamentos, ele se sentia mais confortável com a ideia de ficar com essas outras cinco crianças do que com ela, [O Louco]. O Diabrete apenas se sentia mais frio em relação a ela, mesmo que não se sentisse necessariamente tão caloroso em relação a essas crianças também.
Mas logo, Sammy franzia a testa em resposta ao que o Diabrete lhes disse, bastante irritada:
— O que você quer dizer com ‘preciso levá-la embora’? — Ela perguntou, e o Diabrete virou-se lentamente na direção em que sentia estar sendo puxado e estendeu a mão para frente.
— A criança… precisa estar… lá. A criança é… Louca. Eu fui… comandado pelo… Rei. — O jovem monstro explicou, mesmo que não entendesse muito bem a situação.
— Então, você só quer a abandonar e levá-la para algum rei aleatório? — Sammy perguntou irritada por algum motivo, e o Diabrete virou-se de volta para ela, ligeiramente surpreso com sua voz alta, antes de assentir com a cabeça.
— Sim. — Ele respondeu bastante simplesmente, mas em vez de continuar essa conversa, ele tinha algo mais para perguntar.
— Por que vocês… não correm? — O Diabrete perguntou às crianças, lembrando-se de quando centenas de pessoas fugiram de um monstro. E mesmo na primeira vez que se encontraram, Arc caiu no chão de medo, deixando o Diabrete desbloquear sua inútil “Carisma”.
Lentamente, as três crianças ao lado de Arc olharam umas para as outras com olhares estranhos. Pareciam não ser exatamente contra estar perto do Diabrete, mas no final apenas seguiram o que seu “Líder” fazia. E exatamente esse líder tinha um motivo relativamente simples.
— Porque eu não tenho mais medo de você — Com um olhar claro e um sorriso, o garoto jovem, da altura do Diabrete agora, explicou, antes de continuar: — Pelo menos não o tempo todo. Sem o medo que as pessoas comuns têm de monstros, eu posso olhar para você racionalmente sem nada falando comigo na parte de trás da minha mente. Você não parece querer nos machucar, então não me importo de estar perto de você! — Arc lhe disse, antes de o Diabrete assentir lentamente com a cabeça.
Mesmo que as outras crianças não estivessem necessariamente felizes com a resposta de Arc, para o Diabrete foi o suficiente. Ficar em algum lugar onde você está seguro, pelo menos por enquanto, sempre fez mais sentido do que ir para algum lugar onde sua vida está em perigo. Pela forma como Arc estava falando antes, era isso que parecia estar acontecendo, pelo menos.
— Mas agora… — Arc começou, e o Diabrete voltou para a realidade e ele continuou: — Por que ainda não nos matou? Você é um monstro, não é? — Ele perguntou, e por algum motivo, um arrepio percorreu as costas do Diabrete enquanto o garoto jovem falava.
Mas, sem hesitação, o Diabrete assentiu com a cabeça.
— Eu… sou um monstro, eu não me importo em matar… qualquer coisa, desde que… sejam perigosas. Vocês não são… perigosos. — O Diabrete respondeu, e levou lentamente a mão ao peito onde a marca estranha ainda parecia estar, enquanto tentava pensar em seus motivos.
— E… vocês são… ‘Quebrados’… vocês não são… normais. Vocês são… anomalias… certo? — O jovem monstro lhes perguntou, lembrando-se do que Avalin tão felizmente contou aos outros sobre quando percebeu que o Diabrete era diferente.
— Eu sou… uma anomalia… também… Eu nasci quebrado. E eu… não gosto de estar… sozinho. — O jovem monstro admitiu, e apenas pensou sobre isso por um momento. Houve quatro vezes em sua vida que o monstro se lembrou de estar sozinho.
Desde que nasceu, estava com a horda, composta por centenas ou mesmo milhares de monstros, então nunca esteve sozinho até estar procurando por seus irmãos na floresta, fugindo das notificações, antes de ser encontrado por Avalin, Thomas e James.
Então, depois que Avalin foi comida por Zaragon, enquanto o mundo ficava turvo ao redor do Diabrete e tudo parecia tão distante dele enquanto fugia da monstruosidade mais temível que já tinha visto, antes de encontrar o bebê na cesta atualmente ao seu lado.
A terceira vez foi quando o Diabrete foi atacado por aquele homem, Gard, e teve que fugir com medo da morte. Ele sentiu como se tivesse encontrado alguém na água em que ele caiu, mas não podia ter certeza. Quando voltou, mais uma vez encontrou o bebê na cesta.
E a quarta vez foi quando o Diabrete foi dominado por pura dor por todo o corpo, e mais uma vez corre, com medo de perder sua vida.
Cada vez que o Diabrete estava em uma situação ruim, estava com medo, geralmente em uma situação que o assustava muito. Em cada momento, o Diabrete queria fugir. Então, preferiria passar tempo com um monte de pessoas que não o tratava muito diferente de como Avalin fazia, do que estar sozinho novamente.
…